Fiz já adulta viagens de estudo tão fascinantes como a ida ao planetário de 89, mas absolutamente mais monótonas e pobres em peripécias. Tudo me pareceu enorme, como em 89, e o tempo pareceu contar de um modo diferente. O que se aprende em viagem quando se viaja para aprender? Eu não aprendi muito sobre o que tencionava estudar e só agora aprendo o que essas viagens me ensinaram. Também o pouco que sei sobre planetas não o aprendi no planetário. Aprendi antes sobre estar em viagem, como se de um passeio peripatético restasse um modo de andar e não o saber intencionado. Talvez se justifique um cepticismo acerca de que tudo serve para nos ensinar alguma coisa. Rousseau abominava a farmácia por usar a natureza para fins não contemplativos e conceber florestas sob forma de remédios. Rousseau também falava no benefício de aprender para não ensinar. Eu prefiro falar em, porventura, nada aprender.

É uma tirania por vezes agoniante pensar que havemos de aprender com tudo o que vivemos, como se tudo servisse para nos ensinar alguma coisa. Podemos perder a fé no consequencialismo esperançado de ver em tudo uma lição. Pode ser que isto nos apresente a uma maneira mais leve de viver, sem sobrecarregar a história com a expectativa da moral da história. Esta falta de fé, todavia, não nos diz ainda muito sobre o que aprendemos quando esperávamos aprender. Há uma idade para a escola, mas talvez só se comece a aprender com a escola quando se abandona a escola, quando de exames, do Planetário, de 89, não há mais que uma mancha. Pode aprender-se em diferido, deixando que de tudo fique uma mancha menor. E pode estar tudo simplesmente baralhado, as plantas de agora ensinarem-nos sobre os remédios que abominamos e os passeios ensinarem-nos sobre o futuro das nossas pernas, que ainda não é o nosso. As escolas do nosso presente são o futuro imaginado. Eu podia pensar que era hoje, ainda, a pessoa de 89. Agora parece-me claro, porém, que sou quanto muito a despedida das pessoas que fui, uma despedida à Ana de 89. Já não me lembro bem do Planetário onde nunca mais voltei. Também isso interessa agora pouco.

As pessoas que fui viajam no tempo. Pela América, não me lembrei de mim no planetário. Sem o meu intermédio, todavia, a Ana de 89 comunica com a Ana da biblioteca e previne-a e ilude-a. Não posso voltar atrás, mas para lá de mim dá-se um comércio entre as pessoas que fui. Isto não é apenas aquilo a que chamamos memória. É o que sobra do passado a tornar-se uma maneira. Como meus convidados, as pessoas que fui trocam conversa de circunstância, corrigem-se, completam-se. Os modos do anfitrião não são prévios aos convidados, são o rasto que eles deixam. Um anfitrião faz-se no fim da festa. Reconheço agora aquela menina na excitação e nos medos da pessoa que foi de viagem à América. Não há progresso. É dela a incapacidade de agora de fazer escolhas quando faço malas, o gosto por comida de avião, o pânico ao avião. As bibliotecas americanas foram uma despedida dilatada ao planetário de 89 e a dilatação transformou a despedida numa maneira. Uma pessoa em despedida é este modo de vida.

Em viagem, li alguns livros muito depressa nos primeiros dias e estafei-me a andar distâncias americanas, até já não suportar ler nem andar e me deixar dormir na biblioteca com um contentamento angustiado, uma doença do trabalho. A biblioteca porém só começou quando cedi ao sono. Terei aprendido alguma coisa? É bom acreditar que é justificado o que antecipamos, como calcular que aprenderemos se estudarmos e lermos cada vez mais. Não sei porém falar sobre o que aprendi senão como de qualquer coisa informe que pouco tem a ver com o que estava nos livros e cuja forma só a vida posterior vai revelando. A vida após as bibliotecas afecta os acidentes desta forma. O aspecto do futuro molda o aspecto da lição. É sob a luz de Primaveras seguintes que temporadas de estudo se revelam, à semelhança de bichos que deixam de ser pardos. Com o passar do tempo, as metáforas ganham vida. Revejo fotografias. Faço contas. Deito fora apontamentos velhos. As bibliotecas têm o seu tempo de vida na minha vida e também morrem. A porção de conhecimento mais valiosa talvez não seja sequer uma porção de conhecimento. É podermos ser visitados pelos leitores que fomos e de que nos despedimos, leitores com mais olhos que barriga, vorazes e derrotados. Ela visita-me hoje, esta leitora, na maneira como sobrevive no modo que vou vivendo como meu, que é também um modo de ver e de pensar e não é necessariamente um modo de ler. Eu não tinha ido à América com o objectivo de aprender a ler, mas talvez isto seja tudo o que fazemos enquanto lemos. A metáfora está em falar no tempo de aprender a ler, o tempo das visitas ao planetário, no qual estamos necessariamente desapercebidos desta alfabetização em contínuo.

O que para além disso aprendemos enquanto aprendemos a ler é no presente tão insondável quanto as nossas disposições futuras. Uma ‘viagem de estudo’ anuncia a expectativa justificada de que o tempo de aprender coincida com o tempo em que se aprende. O futuro continuamente nos aconselha no entanto quanto à sensatez de esperar que a nossa vida só comece a ser vivida mais à frente. Já não ser a pessoa de 89 é porventura a consolação para o facto de que só no futuro viverei a vida que vivo hoje, apesar de o planetário me parecer hoje tão distante. Nesse sentido, e apesar da distância, o planetário é tanto uma coisa de agora quanto a convalescença dos livros é um assunto do meu futuro, hoje apenas entrevisto.

Das bibliotecas ficou a idolatria da paciência, assim como nas esperas de agora a leitora me acode, para mais um parágrafo, mais uma página. O que foi o ensaio de um método, um turbilhão de ideias e esperanças, mostra-se na maneira remanescente que responde no presente pelo meu nome, subsumida a particularidade da experiência à generalidade do futuro. As bibliotecas serão um dia o Planetário.