Paulo Varela Gomes, O Verão de 2012, Lisboa: Tinta-da-China, 2013.

O primeiro romance de Paulo Varela Gomes acrescenta ao que existe outro Verão de 2012, a juntar ao que todos vivemos. É a história do Verão passado na vida de P., um homem doente, reconstruída pelo seu psiquiatra depois do acontecimento designado na primeira frase do livro por “A Tragédia do Largo do Rato”, a partir de notas, fragmentos de textos, notícias. A sombra queirosiana desta designação expande-se até Sintra, onde P. passa grande parte do Verão, junto da mulher e dos cães, lendo entre outras coisas uma edição recente (de 2009) de o Diário de William Beckford em Portugal e Espanha, em busca de “coincidências ou prenúncios” (p. 98) sobre o seu próprio Verão e o seu próprio estado, em entradas acerca de um Verão passado por Beckford no Ramalhão, em 1787. 

É virtude de Paulo Varela Gomes lembrar-nos que, como o Diário de William Beckford para P., todos os nossos livros são sobre os nossos próprios Verões, ainda que estes e nós mesmos mudemos com o tempo. Um grau mínimo de razoabilidade assegura-nos, pois, que não somos apenas nós que mudamos, no sentido de, por exemplo, aprendermos tarde o que são certas coisas (à semelhança de P. relativamente aos animais:  “Também ele não soubera o que eram os animais até muito tarde”, p. 52). São também as coisas que mudam — como indica a diferença, na vida de P. e do seu psiquiatra, entre os Verões “de quatro meses”, recordados com “bonomia” (p. 84), e o Verão de 2012. Os livros que lemos, contudo, parecem andar a par de ambas as formas de mudança, mesmo quando preterem em actualidade o que acrescentam em oportunidade. A respeito daquela lembrança, é por isso de algum modo redundante que se fale do nosso Verão comum de 2012 em O Verão de 2012. Não é lição do romance que todos os romances são sobre isso mesmo? O modo doente de ler de P. é afinal o modo de ler por defeito de todos nós. 

Avisados pelo romance quanto a tal redundância, não parecemos por isso estar para o romance de Paulo Varela Gomes como P. para os livros de William Beckford ou como este para The History of Lady Julia Mandeville, da escritora inglesa Frances Brooke, a partir de cujas páginas Beckford chegaria a “uma experiência da realidade da morte e da perda” (p. 106), da realidade da sua própria viuvez. É possível que o nosso ano de 2012 esteja mais nos cães, pássaros e plantas deste romance, que nas suas tempestades, troika, desemprego e falências. Ainda que doente, o modo de ler de P. é no entanto apenas lúcido, de acordo com a sua definição do termo, dada a propósito de umas férias no sul, no mesmo Verão: “a lucidez não tem necessariamente que ser o desvelamento do mal ou da fealdade, também pode ser a abertura da luz do entendimento à empatia para com os outros ou as coisas” (p. 98). A Sintra de um Beckford é irremediavelmente a nossa Sintra, mas vermo-nos a nós por seu intermédio pode aproximar-nos a uma forma de ligação à vida cujo sentido depende de outros e de outras coisas — cães, um grande pinheiro manso, pardais, a nossa mulher. Ainda que não o possamos reclamar como conquista, e ainda que por razões em todo o caso auto-indulgentes, assim emergimos, justificados no nosso modo supersticioso de ler, precisamente no sentido corrigido de “superstição” explicado no romance, isto é, “no seu papel mais importante, que é o de servir como uma espécie de bordão a que recorremos para dominar a angústia” (p. 18). Quanto à possibilidade deste domínio, a presença dos outros e das coisas a quem, muito a propósito, se estende a nossa empatia não é indiferente.

As mesmas férias numa “vila de praia” (p. 86) suscitariam a P. um “breve diário” (p. 87), de que nos é dado a ler um fragmento. Deste, diz-nos o psiquiatra, foi suprimido completamente aquilo que “nas ruas, nas casas, nas pessoas, no mar e na praia pode ser fonte de curiosidade e alegria” (p. 87). O psiquiatra responderá ao texto de P. sobre a vila com uma carta sobre a mesma vila, a qual se limitava “a oferecer uma alternativa à sua experiência amarga do lugar de férias” (p. 92). Visto por nós, é 2012 uma vila de praia vista por um doente? Interessa pouco se a doença é um estado exacerbado da consciência, como apercebermo-nos de que respiramos, ou se o contraste entre a vila vista pelo médico e pelo paciente nos aconselha a um cepticismo quanto às nossas próprias impressões imediatas sobre o nosso ano de 2012. Estar doente é por vezes, como no caso de P., resistir pouco a que nos persuadam dos nossos exageros, mas não é necessariamente abdicar-se do que se é. Usando palavras de P., é “ser-se feliz sem se cair na estupidez de acreditar na felicidade” (p. 98), se tal for possível.

O doente vê o mundo como se este fosse terminar, o que em certo sentido é verdade: o fim do mundo é, até certo ponto, quando cada um de nós acaba. Sabemos no entanto que o mundo não termina. A “tragédia do Largo do Rato” é um gesto dirigido às coisas que nos sobrevivem — e que para nós são um mistério — como pedir a alguém que adie até à nossa ausência a abertura dos presentes que lhe oferecemos. De algum modo, isto é também como consolar, com “risos e graças” (p. 29), um amigo ‘terrivelmente angustiado’ (p. 29) com a notícia de que estamos doentes. Deste modo somos lembrados de que exercitar a “difícil arte” — forçosamente solitária — “de viver um dia de cada vez” (p. 28) distingue-se de preparar a nossa ausência. Este último é um acto que dirigimos aos outros, objectos que são da nossa empatia.