A campainha da porta de casa soa como um zumbido doce, ou como um ronronar tranquilo de gato doméstico, um gato que ronrona amiúde, durante o dia e pela noite dentro. Não há hora para sair nem para entrar no grande apartamento que partilhamos, que abrimos a todos os nossos amigos e a todos aqueles que nos trazem a luz da sua presença e a melodia da sua conversa. A discussão, os risos e os argumentos transbordam da sala, por vezes para os quartos de cada um, invariavelmente para a varanda larga e longa que todos admiram, e da qual se desfruta uma vista belíssima (“escabrosamente bela”, disse alguém certa vez) sobre os telhados, ruas e janelas da Graça, sobre o horizonte urbano de Lisboa.

— Para que lado fica o Tejo? — quis saber a Inge, um cotovelo a roçar o murete, um copo de Chablis na mão. Indicámos-lhe a direcção: algures por detrás daquela fachada, sem dúvida carregada de história e guardiã ciosa de existências apaixonadas.

— Este bairro merecia coisas a acontecer — proclamou, na sua voz potente, o Cristóvão. Metade do vol-au-vent de perdiz permanecia esquecida no prato que ele equilibrava no colo. — Agitação, histórias, uma movida, que sei eu!

— Quem te diz que as coisas não acontecem? — disse uma rapariga baixa e sardenta que eu nunca tinha visto. Faria parte da comunidade de leitores que a Vanessa frequentava? — Coisas surpreendentes, coisas capazes de virar o mundo do avesso e abalar consciências.

— Por detrás destas persianas inocentes — disse eu, com um floreado de mão dirigido aos prédios que a vista alcançava —, destes cortinados de renda? Tenho as minhas dúvidas.

Entra-se no nosso apartamento para um vestíbulo onde ninguém se demora mais do que é necessário para pendurar casacos e écharpes, abandonar guarda-chuvas num cilindro de latão pseudo-oriental. Percorre-se o corredor mal reparando nos quartos: o do Cristóvão, o da Inge e o da Maria Rosa, à esquerda; o meu, o do Emílio e o da Vanessa, à direita. O corredor é longo, estreito e despido; é para a sala que todos convergem, a sala enorme que espanta aqueles que visitam pela primeira vez. O espanto tem a ver com a amplitude, mas também com a acústica, com a mobília, os objectos, a vista. A cozinha é pequena, mas cabem nela todos aqueles que forem precisos para ensaiar um petisco novo, abrir garrafas de vinho, continuar uma conversa boa de mais para ser deixada para uma ocasião futura, que provavelmente nunca surgiria.

Uma conversa sobre livros, por exemplo. Todos se interessam pelos livros que os outros andam a ler. Pode passar-se um serão inteiro em redor de uma frase, de uma personagem, de uma releitura oportuna, de uma afinidade partilhada.

— Revisito Proust com muito prazer, mas abro uma excepção para Sodoma e Gomorra e O Caminho de Guermantes. Ao fim de duzentas ou trezentas páginas de vacuidade social, dá vontade de gritar que sim, que aquele meio é mesquinho e superficial até ao tutano, para quê insistir mais?

— Concordo com a Inge. Noutros volumes, a profusão faz sentido e acrescenta alguma coisa. Aqui, não.

— Se bem que a Albertine...

— Mas justamente! A exaustão verbal, a exploração obsessiva da perda sentimental e da saudade...

— Não faria qualquer sentido uma Albertine sucinta.

— A Recherche foi sendo construída num movimento de expansão, desde o Contre Sainte-Beuve até à morte do autor na Rue Hamelin (e não no quarto forrado de cortiça do Boulevard Haussmann, como muitos pensam). É ocioso discutir se esta ou aquela parte resulta melhor. Faz parte da própria génese da narrativa.

— E esse modo de acumulação de experiências é o que mais se adequa ao percurso do narrador, das sensações para os signos... Vocês sabem, sempre achei que o Deleuze tinha razão por um lado e não a tinha por outro. O que quero dizer é...

O Emílio calou o sussurro agitado da sua voz para deixar passar a Maria Rosa. A Maria Rosa vestia o seu eterno roupão rosa-pálido, gasto e encardido. Sem olhar para ninguém, sem uma palavra, dirigiu-se à cozinha e encheu um copo com água da torneira. Sorveu, mais do que bebeu, a água e pousou o copo depois de o lavar com cuidado. As olheiras confundiam-se com a maquilhagem esborratada (lágrimas?). Regressou ao quarto e fechou a porta, com um débil ruído de madeira contra madeira.

De forma inexplicável, o silêncio pesado fez soar ainda mais sumida a voz do Emílio: — Também é verdade que nada se compara àquela intensidade sinistra do Barão de Charlus nas Jeunes Filles en Fleur, na praia e depois quando entra no quarto do narrador, com o pretexto de emprestar um livro de Bergotte. Sempre que releio essa parte, dou por mim a suster a respiração. O medo e o embaraço do narrador são também meus.

Passava das duas da madrugada. Ninguém parecia ter vontade de dispersar. Eu e um amigo do Cristóvão (indivíduo de olhar duro e porte sólido, poucas palavras – talvez militar?) improvisámos uma ceia: tostas integrais, boqueirões em vinagre, um resto de quiche de frango, papaia cortada aos cubos...

A Vanessa diz que a Maria Rosa nunca pisca os olhos. Nunca consegui ter a certeza se isso é verdade. Ora é a escassa luz do corredor, ora a madeixa de cabelo que lhe cobre os olhos, ou então o seu hábito de curvar a cabeça em ângulos estranhos...

*  *  *

A Inge veio para Portugal meio para estudar arquitectura urbanística, meio para estar com um rapaz português. Conheceram-se quando ele estava a fazer Erasmus na Alemanha. O amor não durou, mas a Inge ficou. Agora anda com um repórter fotográfico. A relação parece sólida, mas a Inge tarda em ir viver com o seu repórter e deixa-se ficar no seu quarto da Graça, virado a sul. Não serei eu a censurá-la. O Emílio divide o seu tempo entre uns estudos de comunicação social e uns biscates de que ele não nos revela mais do que detalhes avulsos, quase sempre a roçar o escabroso ou o tragicómico. Todos gostamos muito do Emílio. O Cristóvão dá a impressão de estar sempre a falar de si próprio, mas quando vamos a ver é muito pouco o que sabemos sobre o seu passado. Conta-se que o pai fez fortuna na bolsa e que lhe deixou uma quantia de onde ele tira um rendimento, modesto mas suficiente para pagar a renda do quarto, a comida, os livros e as camisolas Pedro del Hierro. Conta-se que estudou para barítono. Aquilo que podemos todos constatar quotidianamente é que ele possui uma voz sonora e cheia, assim como a disposição para a usar muito amiúde. As suas palavras e as suas gargalhadas enchem a sala, reverberam, ganham calor quando ele cede às provocações maliciosas da Vanessa. A Vanessa é um encanto de pessoa e se há alguma coisa de misterioso nela não é certamente o seu passado: ninguém ignora o seu denso historial de desgostos e aventuras. Parece contente com um presente isento de sobressaltos, em que as visitas, a comunidade de leitores, o convívio e as discussões se encadeiam como numa partitura.

Sobre a Maria Rosa ninguém sabe o que quer que seja.

Fecha-se no seu quarto assim que chega a casa. Quando sai, vem apressada e sem vontade de falar. Há qualquer coisa no olhar e nos modos que nos desencoraja de lhe dirigirmos a palavra.

O quarto da Maria Rosa é o mais pequeno de todos. A porta não abre mais do que uma vintena de centímetros porque bate na esquina da cama. Mais do que entrar ou sair do quarto, a Maria Rosa esgueira-se para dentro e para fora dele.

Por um capricho arquitectónico, o quarto da Maria Rosa não tem janela. Sim, porque não me convenço a chamar “janela” àquele quadrilátero de vidro fosco que dá para um pátio interior a que não chega a luz do dia.

Só muito de vez em quando chegam visitas para a Maria Rosa. Não estou a contar com o Rafa, que se tornou presença assídua nos nossos serões, muito a meu pesar. Tal como sucede com os outros aspectos da sua vida, a relação da Maria Rosa com esta criatura tosca e impertinente é para nós um enigma.

Por exemplo, ainda na noite passada o Rafa estava sentado no canapé. Mergulhava a mão esquerda na tigela das sementes de girassol e a mão direita na tigela dos mirtilos revestidos de chocolate preto do Equador com 78% de cacau. Enchia a boca às mãos-cheias enquanto devotava toda a sua atenção à conversa. O Emílio expunha a um amigo do Cristóvão e à respectiva cara-metade a sua teoria sobre o que atrai e cativa o observador, numa pintura.

— Tem a ver com a oposição figurativo/abstracto, e não tem a ver. Pensemos em Pollock, Rothko. Há uma qualidade difícil de definir, uma ressonância com a época e os gostos mas que é também intemporal.

— Magritte e De Chirico envelhecem mais facilmente do que os abstractos.

— Voltamos sempre ao gosto inato pelas narrativas. Os expressionistas americanos, os suprematistas russos, sabiam deixar portas abertas para os respectivos universos estéticos, sob a forma de histórias, mitos, pouco importava.

— Pollock, o artista possuído pelo seu daimon, espezinhando e pintalgando a sua tela com álcool, tinta e suor pela madrugada dentro.

Haveria alguma dose de ironia no olhar do Rafa? Impossível dizer. À medida que a noite avançava, distraía-se e começava a percorrer a sala. O seu andar bamboleante era o de quem procura, sem verdadeiramente acreditar nisso, algo que rompa a couraça do tédio. O seu corpo vasto, invariavelmente vestido de cabedal preto, circulava entre os pequenos grupos de pessoas como um satélite maciço, abandonado à mercê das leis da Física. Saía para a varanda; o luar iluminava a sua longa cabeleira em desalinho.

Certas noites, ele sai abruptamente depois de acenar num gesto largo que não é dirigido a alguém em particular, em jeito de despedida.

Por vezes, abre a porta do quarto da Maria Rosa, repete o milagre de fazer passar o seu gabarito impressionante pela nesga de ar entre a porta e o lambril, fecha a porta atrás de si.

Segue-se o silêncio, ou um diálogo abafado pela acústica da casa; por vezes um queixume, só raramente um grito, nem sempre tão angustiado e dilacerante como daquela vez, naquela noite que mesmo sem o grito teria permanecido nas nossas memórias.

Será oportuno confrontar o Rafa, perguntar à Maria Rosa se podemos fazer alguma coisa por ela, insistir na nossa disponibilidade para ajudar?

O Emílio acha preferível evitar o conflito. Na sua opinião (que ele partilha connosco enquanto marca com o dedo a página da antologia de contos do John Cheever que anda a reler), a Maria Rosa seria perfeitamente capaz de pedir ajuda, se precisasse. Intrometer-se na vida alheia de forma leviana é uma das coisas mais detestáveis. Quem observa as coisas do lado de fora não está em condições de julgar. Mais vale deixar os acontecimentos seguirem o seu curso natural. Todos estes preceitos, articulados pela voz débil mas ricamente modulada do Emílio, irradiam sensatez. Só muito mais tarde, a meio da madrugada (o amigo de um amigo de alguém trouxe uma garrafa de conhaque sublime, à qual prestamos tributo unânime enquanto Antony & the Johnsons gemem na aparelhagem), o Emílio admite que deve dinheiro ao Rafa. Não uma fortuna, mas — adivinho — o suficiente para lhe pesar na consciência. Não passará o Rafa de um vulgar agiota? Dir-se-ia antes um faz-tudo, um indivíduo que vive de expedientes, sejam eles emprestar a juros, traficar drogas leves, consertar persianas ou fazer candonga de bilhetes de concertos. As histórias sobre o Rafa sucedem-se à medida que a primeira luz do dia se espalha pelo horizonte urbano, penetra devagar pelas janelas da sala. Nada disso, claro está, serve de justificação para ele molestar ou importunar a Maria Rosa. Mas será que o Rafa, de facto, a importuna? Algum de nós alguma vez se atreverá a meter conversa com ela? A Maria Rosa levanta-se cedo, dirige-se à cozinha evitando pisar os copos e livros deixados no chão, toma em silêncio o seu pequeno-almoço, que é rápido e frugal.

*  *  *

Numa tarde de muito sol, encontrei a Vanessa sozinha na sala, sentada no chão, a comer um resto de gratin dauphinois em garfadas pequenas e lentas. A sua posição era a de entrega ao prazer gustativo ou aos sobressaltos da memória, cada um por sua vez ou misturando-se em cascata. Não queria interrompê-la, mas qualquer coisa na luz daquela tarde ou na cacofonia nervosa de ruídos urbanos predispunha-me para a conversa, além de que não era todos os dias que surgia uma ocasião para contrariar a relutância da Vanessa em revelar mais do que uma versão pasteurizada da sua extraordinária pessoa. Fingi procurar um CD, fingi hesitar entre a Méditation pour le Carême de Charpentier, pelo grupo Arts Florissants, com direcção de William Christie, e as 9 Lamentationes Hieremiae de Lassus, pelo grupo La Chapelle Royale, com direcção de Philippe Herreweghe. Quando a Vanessa falou, fê-lo como se as minhas delongas não passassem de uma expectativa, cheia de tacto, relativamente ao que ela teria para dizer.

— Passei quase todo o dia a pensar em exemplos de teorias que sejam ao mesmo tempo conceptualmente simples, férteis e profundas. Há menos exemplos do que se julga.

— Não me ocorre nenhum — respondi, voltando-me para ela, um CD em cada mão. Tentei cruzar o meu olhar com o seu, mas em vão.

— Há por exemplo o heliocentrismo, a teoria ondulatória da luz, o utilitarismo... Tudo coisas que estão ao alcance do entendimento de uma criança perspicaz.

— As teorias da população de Malthus, talvez?

— Sem dúvida. Bem lembrado. Estava aqui a decidir se a noção de arbitrariedade do significante poderia entrar nesta categoria.

— Supor que Saussure poderia ser explicado com sucesso à tua “criança perspicaz” parece-me testar os limites do razoável.

— É menos abstracto do que julgas. Chega-se lá por meio de indução, exemplos...

Mas eu, de súbito, deixara de lhe prestar atenção. A luz do sol, entrando na sala num ângulo que só alguns fins de tarde do ano tornavam possível, iluminava agora a jorros o corredor, as portas abertas dos nossos quartos e a porta, fechada como sempre, do quarto da Rosa Maria. (O nome dela, afinal, é Rosa Maria, e não Maria Rosa.) Distinguia-se, sobressaindo da madeira da porta, algo que me sobressaltara. A Vanessa não precisou de se voltar para trás para perceber.

— Está ali desde ontem — disse ela. — Ainda não tinhas visto?

— Aquele corredor costuma receber tão pouca luz que já me dou por feliz por não esbarrar contra as paredes.

— Vem, vou mostrar-te.

Deixou o prato no chão e conduziu-me pela mão, apesar de o percurso até ao quarto da Rosa Maria ser rectilíneo e mensurável em palmos. Na porta, à altura dos olhos de um homem adulto, via-se um círculo pintado com tinta cor-de-laranja. A tonalidade era forte, quase a resvalar para o vermelho.

— Nenhum de nós sabe o que isto quer dizer — disse a Vanessa. — Tínhamos esperança de que tu soubesses.

— Lamento defraudar-vos. Não faço a mais pequena ideia. O que pode isto querer dizer? Um círculo é um círculo.

— Eu acho sinistro. Faz-me lembrar narrativas bíblicas, o anjo exterminador, as portas das casas do povo escolhido aspergidas com sangue de animal. Um sinal.

— Um sinal não passa de ruído, para quem não conhece o código.

— O que irá dizer disto a nossa senhoria? — perguntou a Vanessa, subitamente maliciosa, como perante uma travessura à qual se reconhece, mau grado a torpeza, um requintado travo cómico.

O ronrom da campainha interrompeu as nossas especulações. Eu sabia que os meus convidados só começariam a chegar daí a uma hora, na melhor das hipóteses, por isso adivinhei tratar-se dos convidados do Cristóvão. Todos eles conheciam a casa ou vinham com alguém que conhecia a casa; deixámos a porta aberta e o caminho livre para entrarem e fluírem para a sala. Quando acabei de arrumar as bebidas no frigorífico e de dar destino a uma pilha de livros emprestados que alguém se lembrara de devolver, já as vozes e a música tinham tomado conta da sala. A aparelhagem debitava John Coltrane. Discutia-se um prémio de internacional de arquitectura que tinha sido atribuído àquele que, entre os potenciais candidatos, menos o merecia.

*  *  *

A nossa senhoria é um encanto de pessoa. Visita regularmente o apartamento, não só para se inteirar das infiltrações e avarias nos electrodomésticos, mas também e sobretudo para conversar, ficar a par do que nos inquieta, das nossas saúdes, dos rumores que correm pela vizinhança. Costuma demorar-se; na despensa há uma garrafa de Licor Beirão à qual só falta uma etiqueta com o seu nome. Preocupa-se connosco como se fosse nossa mãe.

Quando a nossa senhoria fala da Rosa Maria, a sua voz perde firmeza e desce um tom. Cheguei a suspeitar de que ela sabia mais acerca da Rosa Maria do que nós, que estaria a par de sei lá que segredo surpreendente e comprometedor. Estou agora convencido de que aquilo que a inquieta nesta inquilina tão especial é algo de difuso, um misto de impressões e de ignorância que pouco deve a certezas ou sequer a conjecturas. Nunca as vi na mesma sala: é sempre numa terceira pessoa solene e sombria que a nossa senhoria fala da Rosa Maria.

Quanto ao Rafa, já todos aprendemos a não proferir o seu nome à frente da nossa senhoria. Causa-lhe terror e asco. Não me surpreenderia se ela acabasse por lhe vedar a entrada na casa.

Não se pense que o Rafa é um facínora, um monstro reles que pavoneia um mau carácter dentro destas quatro paredes; não se pense que a Rosa Maria tem o hábito de causar escândalo por um sim e por um não. Perante um terceiro, é difícil descrever a Rosa Maria sem lhe conferir os contornos de criatura exemplar. A Rosa Maria é um inquilino modelo. Não há memória de ela alguma vez ter deixado um pires sujo no lavalouça.

E porém aquela maneira de andar que se diria um vaguear fantasmático, com a cabeça ligeiramente inclinada para um dos lados, tão alheada de tudo como se fosse sonâmbula...

... os gritos nocturnos, os sons de queda de objectos, as conversas intermináveis cujo rumor abafado nos chega através da porta fechada ou das paredes...

... as cartas com selos de países distantes, dirigidas à Rosa Maria, chegadas ao seu destino apesar dos erros no endereço escrito em letras garrafais, esborratadas pela água ou sabe-se lá que fluidos, ou numa caligrafia minúscula e intrincada...

Entretanto a noite avançara. Os convidados — coisa pouco vista — tinham-se juntado em grupos pequenos e bichanavam argumentos prós e contra com uma falta de convicção que nem a hora tardia ajudava a explicar.

Eu estava na sala, sentado no chão, com o meu copo (uma lambic belga de framboesa) pousado junto a mim, a meia-distância de duas destas discussões amorfas e tépidas (erros recorrentes na avaliação do significado histórico do Futurismo italiano, excelência de uma encenação recente da ópera Die Frau Ohne Schatten, de Strauss). De onde me encontrava, conseguia ver o enfiamento do corredor principal do apartamento. A certa altura pareceu-me ver a porta do quarto da Rosa Maria a abrir-se. A dúvida sobre se se tratava de uma banal ilusão, potenciada pela fadiga e pela luz escassa, durou poucos momentos. Um, dois, três vultos de pequena estatura (crianças?) saíram do quarto, devagar e em silêncio. Seguiram-se mais dois, estes com o tamanho de homens adultos. Estavam todos vestidos de escuro, um cambiante soturno de cinzento que emergia com dificuldade das trevas do corredor. A Rosa Maria mal apareceu: não mais do que um perfil e uma das mãos, através do espaço estreito entre o lambril e a porta, aberta até onde o permitiam a pequenez do quarto e a mobília. Houve abraços de despedida que tinham a solenidade de uma família enlutada. A Rosa Maria ficou a vêlos sair do apartamento, um por um.

No dia seguinte, ouvia-se um soluçar contínuo vindo do quarto da Rosa Maria que durou toda a manhã. Haveria motivos para nos preocuparmos com o seu bem-estar, a sua saúde? Se os havia, soçobravam em silêncio perante a segurança e a indiferença do Rafa, que entretanto chegara e se instalara no seu canto de sofá favorito, indiferente ao debate de uns amigos de amigos do Cristóvão (Bartók e o regionalismo na música, onde reside a fronteira entre guardiães de uma tradição e abutres culturais?), estudando criticamente os canapés e os cubos de autêntico queijo manchego espetados em palitos à sua frente. A sua postura, a sua maneira de se calar sabendo que voltaria a ser o centro das atenções assim que se resolvesse a tomar a palavra, eram a de quem se sente em sua casa. A presença do Rafa tornava-se cada vez mais frequente. Pouco a pouco, passara de visita mais ou menos incómoda a indispensável. Quando não estava a servir de pronto-socorro informático ao Emílio (sistema operativo, partição do disco rígido, antivírus, bases de dados, instalação de periféricos, configuração de rede...) exercia as suas actividades de pequeno corretor (quem diria que a Vanessa apostava — nunca sem antes se entregar a prolongadas deliberações com o Rafa — no campeonato norteamericano de hóquei no gelo?), isto para não falar dos seus negócios menos lícitos ou menos confessáveis, resolvidos em locais mais recatados, isentos de ouvidos indiscretos. Entre uma e outra diligência, o Rafa encontrava tempo para socializar na sala. Era aí que ele se entregava a um diagnóstico benevolente sobre a ocupante do quarto mais escuro da casa.

— A Rosa Maria está bem e não precisa de aconselhamento. Sabe perfeitamente decidir pela própria cabeça o que é melhor para ela. Precisa apenas de estar sozinha durante uns tempos para reflectir sobre a sua vida e sobre o que quer fazer com ela.

— Sempre foi dada a humores, mas não se deixa abater. Tem fibra. Verga mas não parte.

— É dona de um senso comum sem falhas. Nunca se deixa apanhar sem os dois pés bem assentes na terra. Quem me dera poder dizer o mesmo de mim próprio! Brutal, este queijo.

Quando passo ao Rafa um copo de Riesling, aquilo em que reparo é nas minúsculas partículas de tinta vermelho-alaranjado que permanecem visíveis nas unhas do seu polegar e indicador direitos.

*  *  *

Alguns dias depois, a Rosa Maria partiu. De um dia para o outro, deixámos de a ver ou de a ouvir. Os rumores nocturnos que se escapavam das paredes do seu quarto cessaram por completo. A certeza final só surgiu quando a senhoria começou a trazer potenciais inquilinos para visitarem o quarto, homens e mulheres, jovens ou maduros, que chegavam, entravam no quarto com o sorriso expectante de quem descobre um espaço que pode vir a ser o seu durante meses ou anos, saíam com uma expressão inquieta e acossada, o olhar fugidio, minúsculas crispações nos dedos e na face.

As cartas com selos de nações exóticas deixaram de aparecer na caixa de correio.

A Rosa Maria não deixou nada atrás de si: nem um bilhete, nem haveres pessoais. Nada a não ser um iogurte com pedaços, cujo prazo em breve expirou.

A porta do quarto da Rosa Maria estava aberta. Bastava empurrá-la para entrar. Nunca algum de nós entrara naquele quarto, continuávamos relutantes em fazê-lo, como que fiéis a um acordo sem palavras, a um consenso sobre o que era adequado e o que era escabroso.

Esse acordo sem palavras foi rompido em silêncio, talvez por ignorância, pela Inge, que numa tarde de muita chuva empurrou a porta do quarto da Rosa Maria até onde pôde e penetrou no interior.

Fui o único que a viu sair do quarto da Rosa Maria. Tenho a certeza absoluta disso. Ela não permanecera no quarto mais do que alguns minutos. Pensei que se iria dirigir para a sala para contar a sua experiência, mas afinal entrou no seu próprio quarto, sem olhar para trás. O tempo corria, eu sentia-me incapaz de ler ou ouvir música, de me concentrar no que quer que fosse. Combati a tentação de bater à porta do quarto da Inge. Quando a tentação ameaçava levar a melhor, a Inge saiu do quarto vestida para sair. Levantei-me do sofá assim que ouvi a porta do apartamento bater. Saí também, galguei as escadas, avistei a Inge no cimo da rua. Seguia com precaução, mantendo entre nós a distância adequada a um perseguidor que conhece o perseguido. Estranhei a luz do dia, os aguaceiros esparsos no meu rosto nu. A Inge entrou num autocarro, corri para o apanhar. Agora a Inge está sentada de costas para mim. Não me resta mais do que contorná-la por trás, sentar-me no lugar livre à frente dela, olhá-la bem nos olhos. Partilhar o que neles houver para partilhar. Não é um abismo, não passam dos olhos verdes de uma pessoa.

Abril 2011