I

Nem sempre é mais importante responder a uma dúvida do que saber viver com essa mesma dúvida. Qual a utilidade desta ideia?

Esta última pergunta é uma falsa pergunta. Não se trata de utilidade, mas de uma determinada imposição. Imposição no sentido em que mesmo quando presenteados com uma resposta, ou várias respostas, pode ser importante saber viver com uma dúvida. Podíamos dizer: pode ser importante responder muitas vezes à mesma dúvida e saber que essa mesma dúvida inevitavelmente regressara, e teremos de lhe responder novamente. 

Mas é necessário dar algum volume a esta ideia. Podemos começar por dizer que a expressão mais descomprometida de saber manter uma determinada dúvida seria a seguinte: “Como devo prosseguir?”

Mas é esta expressão apenas uma idiossincrasia? Uma peculiaridade de carácter? Se houver alguma verdade em que é importante responder repetidamente a certas dúvidas, a resposta às duas últimas perguntas não será muito importante. Pode ser que a caracterizada operação – responder repetidamente a uma dúvida – se revele necessária. Nesse caso, considerações acerca das peculiaridades dos caracteres são atiradas para longe.

II

Sempre que leio as passagens de Mt 26 onde as três negações de Pedro são anunciadas penso precisamente nesta imposição: é preciso estar preparado para responder a certas dúvidas repetidas vezes! 

Parece estranho que eu pense nesta ideia e não no peso que o anúncio representa. O que está perante mim, nesta passagem, é o anúncio de uma profecia. Comparado com a importância de uma profecia a ideia de que quero falar é, na melhor das hipóteses, acidental à leitura da passagem, e tudo isto se torna pior quando eu disser que a ideia de que quero falar se estende até às passagens em que São Pedro nega Jesus Cristo. Mais uma vez, a minha atenção foi puxada para um aspecto que não é o principal. Como é que numa passagem onde se cumpre uma profecia alguém prestaria atenção a um mero ruído de fundo?

Não tenho realmente resposta. A não ser, talvez, a intuição de que a imposição de que comecei por falar seja uma parte do que nos está a ser ensinado. Um ruído de fundo em relação ao tema principal, mas um ruído de fundo que não se consegue eliminar. Resta apenas a alternativa de o tentar isolar. 

III

Quando Jesus anuncia as negações de Pedro, dirige-se inicialmente a todos os presentes. O que torna o anúncio o anúncio das três negações de Pedro é o facto de Pedro se manifestar imediatamente. O facto de Pedro não aceitar a possibilidade enunciada por Jesus. A sua recusa começa precisamente por se fazer destacar dos outros – espontaneamente. Pedro espontaneamente manifesta a sua vocação como incondicional. Ainda que todos sentissem qualquer perturbação, Pedro seguramente não a sentiria. Isto porque a sua vocação seria mais forte do que a dos outros, ou porque a sua vocação é para si tudo e não condicionada por todas as outras coisas. 

Pedro recebe imediatamente uma resposta. A resposta não menciona a sua vocação. Menciona simplesmente o que Pedro vai acabar por fazer. 

Mas Pedro não duvida nunca da sua vocação e a afirmação que se segue é a mais vincada confirmação do que tinha começado por dizer. Falhar no exercício da sua vocação como seguidor de Jesus impossibilitaria continuar a viver e por isso nem mesmo a morte representa um impedimento ao exercício da sua vocação. 

Pedro não recebe mais nenhuma resposta. Mas acaba por inspirar a confiança no exercício da vocação dos outros discípulos. Isto, claro, não é nada estranho. Há algo de irresistível na incondicionalidade de uma vocação: é uma resposta a todas as dúvidas. Uma resposta que se possuiu e que determina tudo o que se vai suceder. Para os discípulos presentes, saber da possibilidade de uma tal vocação foi talvez novidade, mas foi também, espontaneamente, incontestável. 

IV

O que se segue é o contrário de um exercício incondicional de uma vocação. Talvez qualquer um dos outros discípulos presentes na afirmação colectiva tivesse ficado surpreendido. Mas o que importa é precisamente por que razão. Porque razão ficariam surpreendidos? 

Quando pensamos sobre as razões que levaram Pedro a negar Jesus três vezes não encontramos nenhuma explicação. Mas que explicação é que poderíamos querer? 

A minha resposta é: não precisamos de nenhuma explicação. Pedro teve medo, teve medo pela sua vida e no momento em que teve medo provou a condicionalidade da sua vocação. Finalmente a pergunta aparece: Como continuar? É a própria afirmação de Pedro que torna a pergunta relevante. A ameaça de morte não poderia impedir o exercício da sua vocação. A sua vocação determinava tudo o que sucedia no momento em que Pedro se encontrava. Mas, agora, sabemos que a vocação não determinou tudo o que se sucedeu, e não por falta de uma oportunidade. 

Os outros discípulos presentes podiam provavelmente aprender alguma coisa com o sucedido. Na verdade, a profecia incluía todos. Mas certamente saberiam, imediatamente, o que aconteceu a Pedro. Seria inútil tentar perceber se poderia ter acontecido a todos de igual forma. Mas não é inútil perceber que todos sabemos o que aconteceu. A certeza de Pedro foi contagiante e talvez o tenha sido mesmo para ele. Mas o definitivo que podemos aprender é que foi Pedro, ele mesmo, que provou a sua incapacidade. E, no entanto, foi Pedro quem deu o discurso que nos contagiou, que nos ensinou que poderia existir um tipo de vocação incondicional. 

Não é de todo irrelevante que tenhamos descoberto esta possibilidade. Descobrir esta possibilidade, descobrir a importância de uma vocação, pode ser um momento definitivo. Mas quando Pedro pela sua própria acção reconhece o seu limite, este reconhecimento não é menos importante, nem aliás inteligível sem ser concebido como uma consequência da descoberta da sua vocação. Ninguém que tenha acreditado no que Pedro disse, ainda que por breves segundos, deveria evitar o problema. O problema é: Como poderia Pedro falhar na derradeira prova da sua vocação? De seguida deveríamos perguntar: Como continuar, sendo que continuar sem ser pelo exercício da vocação não é uma possibilidade, não para Pedro?

V

 Há um sentido em que a falha de Pedro é coincidente com a negação de si mesmo. Pedro negou onde esteve, com quem esteve e mesmo quando ameaçado pelo seu próprio sotaque não conseguiu resistir ao seu medo. Mas claro que esta resposta é demasiado apressada. Pedro negou quem era, e por isso passou a ser a pessoa que negou quem era. Independentemente do poder da profecia, sendo que percebemos o que aconteceu a Pedro independentemente de entendermos o cumprimento da profecia, Pedro reconheceu o limite da sua vocação, e reconhecer o limite da própria vocação é parte de um exercício honesto dessa mesma vocação.

Aqui temos um começo de resposta à nossa primeira pergunta. O que parece ser mais surpreendente neste início de resposta é a negação de falhar no exercício de uma vocação como conclusão dessa mesma vocação. Pedro falhou no exercício da sua vocação na forma como a tinha concebido espontaneamente. Mas Pedro não desistiu, e por isso não falhou no exercício da sua vocação. Falhar por ignorância do próprio limite não deve ser um impedimento a continuar o exercício de uma vocação.

Se a recusa de um falhanço como um impedimento permanente estiver correcto, a segunda pergunta impõe-se. O que se torna urgente é saber como continuar. Limites mostram a falibilidade de concepções anteriores ao presente estado, e talvez essa seja uma condição inevitável – no nosso presente estado. Ninguém poderia ter sempre ideias verdadeiras e se intuições verdadeiras ocorrem muitas vezes espontaneamente, os nossos próprios limites não gozam do mesmo estatuto.

VI

Não temos nenhuma indicação de que Pedro terá tentado responder a esta pergunta. Mas parece verosímil que tal pergunta lhe tenha ocorrido. A pergunta terá uma resposta, mas essa resposta levará à mesma pergunta noutra ocasião. Podemos no entanto supor que há respostas definitivas. Claro, se alguém tiver uma resposta definitiva, essa resposta é preferível a qualquer tentativa de atestar a dignidade do reaparecimento desta pergunta. Perante uma resposta definitiva preferimos a resposta. 

Mas na ausência de uma resposta definitiva a pergunta torna-se relevante. O estado de Pedro representa uma consequência da sua própria actividade. Uma consequência sobre a qual poderíamos perguntar: “foi inevitável?” Mas para já a nossa pergunta – como continuar? – é mais importante. Digo mais importante porque desistir de uma concepção de uma vocação não é desistir da vocação. Desistir da vocação seria um erro ainda pior.