Right now, it’s only a notion. But I think I can get money to make it into a concept. And later turn it into an idea.
 

A frase acima é uma daquelas piadas avulsas que se ouvem nos filmes de Woody Allen, neste caso em Annie Hall, numa festa de Natal californiana em casa de Tony Lacey (Paul Simon). Mas creio que poderia ser trazida, sem ajustamento nem ofensa, para uma reunião de «unidade de investigação» em que a ordem do dia fosse, por exemplo, os projectos a apresentar ao concurso da FCT ou similar agência de financiamento. 

Este exemplo, eu opô-lo-ia de bom grado aos oferecidos pelo editorial do The Point objecto ou pretexto deste fórum. Em parte por nos ser mais familiar, a parte do dinheiro, quero dizer. O que a motivaria, no entanto, não seria a necessidade de financiamento — ou não o seria senão secundariamente —, mas a avaliação de que depende: qualquer coisa que certifica alguém como sujeito a quem se pode confiar dinheiro para transformar certa noção em conceito. Mas sobretudo porque exibe bem a razão por que são sempre ridículos os arremedos de cientificidade em disciplinas humanísticas: não é porque assim pretendam tornar «científicas» as mesmas humanidades, é porque assim pretendem valorizá-las aos olhos do outros. E quem são os outros? Os administradores? as agências de financiamento? os alunos? os reitores…? Tudo isso, sem dúvida, pois tudo isso representa a universidade. De facto, essa necessidade de valorização não depende das humanidades mas da universidade, sobretudo da que alguns qualificam de moderna. Não há universidade moderna sem humanidades, mas as humanidades são e não são um campo disciplinar autónomo dentro da universidade: se se entendem enquanto componente básica da formação de qualquer um, físico ou musicólogo — e não pode ser de outro modo —, requerem especialistas que conduzam competentemente essa formação, os quais apenas a universidade forma e certifica; se se definem como campo delimitado de especialistas, alienam a vocação formativa das humanidades, condenando-as a lugar de ócio, isto é, dificilmente merecedor de financiamento. 

Tal dilema, que a universidade constitui, define a condição desgraçada das humanidades e para quem nelas trabalha uma acção paradoxal. Por um lado, não podem deixar de reivindicar com veemência que, do ponto de vista do conhecimento, não podem ser discriminadas, porque nada as distingue das ciências chamadas duras, exactas ou fortes: nem aglomerado de impressões, nem corporação de tagarelas, as humanidades caracterizam-se pela busca da verdade e do conhecimento, prezam acima de tudo a compreensão e a inteligibilidade, tratam as suas tarefas com rigor e responsabilidade. Mas por outro lado, não podem deixar de reivindicar com a mesma veemência que não cabem dentro dos critérios, padrões ou protocolos que caracterizam essas ciências fortes ou duras: que têm uma natureza conversacional em vez de tagarela, que se alimentam do passado e têm o poder tanto de o conservar como de o revolver, que são vulneráveis ao preconceito e muitíssimo sujeitas ao erro (embora isso de erro, já se sabe e tal…), que dependem muitíssimo do trabalho individual e de uns quantos livros fundamentais que inspiram outros menos fundamentais. Esta condição desgraçada é que pede estratégias reiteradas de valorização aos olhos dos outros, os outros de quem institucionalmente ou supostamente depende a manutenção dessa mesma condição desgraçada. Isto explica, por exemplo, que alguns ostentem certo orgulho em dirigir uma revista com peer review, ao passo que outros preferem perguntar o que se ganha com o peer review, por que razão se impõe como sistema padrão sem o qual nada vale e com o qual… o quê? O facto de uma revista sem peer review, ainda que com editor prestigiado ou comité editorial forte, não contribuir para tornar alguém um sujeito a quem se pode confiar dinheiro para transformar uma noção em conceito, se por um lado espalha o peer review e o torna inexorável como único modo de dirigir revistas, por outro também espalha e torna inexorável a imprecação mais ou menos esclarecida contra o peer review enquanto único modo de dirigir revistas.

Alias, esta mesma condição desgraçada, também se descreve muito bem noutra piada de Annie Hall, já bem perto do fim:

This guy goes to a psychiatrist and says, ‘Doc, uh, my brother’s crazy, he thinks he’s a chicken,’ and uh, the doctor says, ‘Well why don’t you turn him in?’ And the guy says, ‘I would, but I need the eggs.’
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