António Júlio Duarte nasceu em Lisboa em 1965. Formado em fotografia na AR.CO, em Lisboa, estudou ainda no Royal College of Arts, em Londres. É autor de vários livros de fotografia: East West (1995), Peepshow (1999), Lotus (2001), Agosto (2003). Em 2006 foi publicado pela ADIAC o livro António Júlio Duarte, uma recolha de projectos produzidos entre 1990 e 2005. Em 2011 publicou o livro White Noise (ed. Pierre Von Kleist ) e o jornal The Candidate (ed. Ghost Editions). Em 2013 Deviation Of The Sun foi editado pelo Centro Cultural Vila Flor e em 2014 publicou Japan Drug (ed. Pierre Von Kleist).

White Noise foi selecionado como um dos melhores livros de fotografia de 2011 por Horacio Fernández para a revista norte-americana Photo-eye e Japan Drug foi selecionado por Eric Miles como um dos melhores livros de fotografia de 2014, também para a Photo-eye.

Expõe regularmente em Portugal e no estrangeiro desde 1990. Das suas mais recentes exposições individuais destacam-se: Mercúrio, Galeria Zé dos Bois, Lisboa em 2015 e Japão 1997,  Centro Cultural Vila Flor, Guimarães em 2013.

Das últimas exposições colectivas em que participou destacam-se: Edita: Secuencia / Sentido, Centro Galego de Arte Contemporánea, Santiago de Compostela, Espanha, 2015 e Le Bal Books Weekend: Live Editing Show, 3e Édition du Festival du Livre de Photographie du Bal,  Saison Portugaise, Le Bal, Paris, França, 2014.    

O seu trabalho encontra-se representado nas seguintes colecções: Colecção Nacional de Fotografia / C.P.F., Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Musée de la Photographie, Charleroi, Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, Fundação Portuguesa das Comunicações, Encontros da Imagem / Museu da Imagem, Encontros de Fotografia de Coimbra / Centro de Artes Visuais, Fundação e Museu do Oriente, Fundação P.L.M.J., Fundação Carmona e Costa, Fundació Foto Colectania, Colecção Novo Banco, Colecção Módulo/Mário Teixeira da Silva, Colecção de Fotografia Américo Marques, Centro Cultural de Lagos, Amorim Turismo Tróia, Colección Madrid Foto, Colecção de Arte Fundação EDP e Centro Cultural Vila Flor.

 

www.antoniojulioduarte.pt/

 

Reproduz-se de seguida o texto de Filipe Felizardo para a exposição Mercúrio na Galeria Zé dos Bois

 
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O universo está infinitamente morto. (…) Coloquemos num prato da balança toda a matéria do universo, os sóis putrefactos, os planetas carcomidos, todas essas poeiras e porcarias a que se chama nebulosas, essa gigantesca lavandaria, essa cloaca de gases malcheirosos que tem por nome Via Láctea, essa fermentação ardente, enfim todas essas imundícies e, no outro prato, o corpo humano, bem como os de todos os outros seres vivos: calculemos que possibilidades teria uma qualquer porção de matéria com um peso igual ao do corpo de um dia vir a ser um homem vivo. Poderemos constatar que as possibilidades são praticamente iguais a zero
 

Stanislaw Lem, in “Memórias encontradas num banheira”, 1961

Considerando o exercício acima descrito, devemos pensar no inverso: considerar como um corpo, representando a vida, é capaz de produzir e criar a sua própria aniquilação. Do mesmo modo, imaginemos que esta aniquilação, que se propaga discretamente – e daí, mais silenciosa, inócua como um veneno se administrado em pequenas doses, uma droga lúdica -, toma a forma do corpo desse demiurgo, involucrando-o, protegendo-o e mudando-lhe o seu aspecto.

Uma das mais possíveis leituras de determinados excertos de Gravity’s Rainbow de Thomas Pynchon aponta para a teoria de que o nylon (entre outras invenções têxteis de Wallace H. Carothers), usado na lingerie feminina durante a 2ª Grande Guerra e que continuou a sê-lo na segunda metade do séc. XX, sendo excedente das matérias sintéticas usadas nos instrumentos de guerra da época, acabou por aproximar o inconsciente colectivo da pulsão sexual bélica de Malraux com a presença destes tecidos alienígenas junto às zonas erógenas do corpo. Veja-se a subcultura de vestuário erótico feito de borracha sintética, pvc, neopreno, nylon, lycra, e verifique- se a presença constante destes mesmos têxteis em roupa anódina, mobília, detergentes, e utensílios domésticos.
 

Ilias Fitzgerald, in “Outer Land Art”, 2013

Não é a primeira vez que António Júlio Duarte trabalha com ou para algo que é fora do humano. Há um projecto violento de desvirtuar o conhecimento estabelecido, desde «Do Natural» e em livros como «White Noise» e «Deviation of the Sun» –  como um homem enforcado no centro impossível do universo, a girar sobre si mesmo.

Desta vez o fenómeno repete-se na forma sem contorno fixo de MERCÚRIO, na extinção do falível entendimento humano, do conhecimento e da experiência acumulados pelas pretensões da civilização.

Mercúrio. Elemento tão velho como a Terra, com 4.2 triliões de anos. Usado em pinturas rupestres pelos primeiros homens, na forma de cinabre, sulfureto de mercúrio. Parece legítimo perguntarmo-nos   se   o   cancro,   o   grande   envenenamento,   não   começou   com   esse   gesto historicamente artístico de produção de imagens. Os alquimistas acreditavam que podiam fazer ouro com mercúrio. Os Hindus consideravam-no afrodisíaco. Existe em Almáden, Espanha, a mais antiga mina do mercúrio do mundo, desde antes do ano 0, descrita por Plínio como a maior fonte de rendimento do Império Romano. No séc. I d.C., Dioscorides, grego, achou-o “bom para medicinas da vista”, mas perigoso se engolido. O envenamento por mercúrio provoca tremores e dificuldade em andar, entre outras coisas, sendo radioactivo, indigesto - no fundo, bera.

É neste elemento que António Júlio Duarte realiza uma operação impossível em qualquer outro meio: uma nova ficção científica – ou uma nova especulação, em que nem sequer há o esforço inócuo de subverter um paradigma; nem sequer se faz batota, não se quebram regras nem se trabalha por negação. O material, já de si, é tão mercurial, que a fasquia do fantástico está no corriqueiro.

É este o trabalho – perambulando no labirinto como um dervixe e obrigando o espectador a sê-lo também, até que a exaustão e a transcendência nos tornem mortos viventes.

Em tudo isto há uma forte relação com a matéria, o que denunciaria algo de escultórico, mas isso pode ser um desvio de linguagem. Contudo é nesses desvios que se especulam os acidentes. Há no plano das provas da exposição uma vibração expansiva, uma pulsação estranha ou alienígena – uma pretensa infecção para os nossos olhos. Colocando este tipo de inferência num contexto de referências de ficção-científica não optimista, conseguimos aproximar-nos do êxtase de Mercúrio.

Contudo, aqui não há ciência. Há a que é estritamente necessária para produzir fotografia, não mais. Também não há o chavão de “futuro pós-apocalipse” nestas imagens – são fotografia, daí que a hipótese de futuro esteja nelas aniquilada. O que elas têm é um presente – fotográfico, obviamente, mas também um presente “durante-apocalipse”. Se a exposição é uma ficção, é uma ficção sobre uma pulsação lovecraftiana, subterrânea ao nosso quotidiano; sobre algo que lateja, anónimo, em tudo o que vemos, ouvimos e tocamos –  seja na radiação dos telemóveis, nos elementos perigosos das baterias, nos têxteis sintéticos que vestimos; seja no entulho digital e electromagnético, disfarçado de cultura,  que se estende, zumbindo, para todos os cantos do universo.

O fio condutor desta teoria da conspiração é o que nos leva a MERCÚRIO. Toda esta matéria é inteligível. Toda esta matéria é produto do grande projecto civilizacional. Toda esta matéria é entretenimento, e como tal, inassimilável, apenas vivido na superfície; a grande pélvis da globalização. Tudo isto é matéria, mas imiscível. Tal como na parábola do alienígena puro - não imaginado à nossa imagem, impossível de entender - o verdadeiro fiasco do contacto está na pretensão da inteligibilidade do mundo. Falhando, resta maravilharmo-nos com o potencial especulativo de tanto fetiche, rebolando numa piada infinita.

The universe is infinitely dead. (…) Let us put in one dish of the weighing-scale all the matter of the universe, the putrefied suns, the rotten planets, all that dust and filth which are called nebulae, that giant laundry, that cloaca of stinking fumes which bears the name of Milky Way, that ardent fermentation, ultimately all those sewages and, on the other dish, the human body, as well as those of every other living being: let us calculate how many possibilities would have any portion of matter with a weight equal to that of the body to become one day a living man. We will find that the possibilities are practically equal to zero.
 

Stanislaw Lem, in “Memoirs found in a bathtub”, 1961

Considering the experiment above described, we shall think of the inverse: to consider how a body, representing life, is able to produce and create its own annihilation. In the same way, let us imagine that this annihilation, which propagates itself discreetly – and thus, more silent, innocuous as a poison if administered in small doses, a recreational drug -, takes the shape of the body of that demiurge, enveloping him, protecting him and changing his aspect.

One of the possible readings of certain excerpts of Thomas Pynchon’s Gravity’s Rainbow points to the theory that nylon (among other textile inventions of Wallace H. Carothers), used in female lingerie during World War II and continued to be so in the second half of the XXth century, being a surplus of the synthetic materials used in the war instruments of the time, ended up approximating the collective unconscious to Malraux’s martial sexual drive by having these alien tissues near to the body’s erogenous zones. One looks into the erotic clothing subculture, made of synthetic rubber, pvc, neoprene, nylon, lycra, and verifies the constant presence of these same textiles in anodyne clothing, furniture, cleaning fluids, and domestic appliances.
 

Ilias Fitzgerald, in “Outer Land Art”, 2013

It is not the first time that António Júlio Duarte works with or for something that is outside what is human. There is a violent project of perverting the established knowledge, since «Do Natural» and in books as «White Noise» and «Deviation of the Sun» - Like a man hanged in the impossible center of the universe, spinning upon himself.

This time the phenomenon repeats itself in the shape with out a fixed contour of MERCÚRIO,  in the extinction of the fallible human understanding, of the knowledge and experience accumulated by the pretensions of civilization.

Mercury. Element as old as the Earth, with 4.2 billion years of age. Used in rock paintings by the first men, in the shape of cinnabar, mercury sulfide. It seems legitimate to ask ourselves if cancer, the great poisoning, did not start with that historically artistic gesture of image production. The alchemists believed they could make gold with mercury. The Hindus considered it an aphrodisiac. In Almáden, Spain, exists the oldest mercury mine in the world, since before the year 0, described by Pliny as the Roman Empire's greatest source of profit. In the 1st century b.C., Dioscorides, greek, thought it was “good for the medicines of the eye”, but dangerous if swallowed. Mercury poisoning causes tremors and trouble in walking, among other things, being radioactive, indigestible – all in all, bad.

It is in this element that António Júlio Duarte effects an operation impossible in any other media: a new science-fiction – or a new speculation, in which there isn't even the innocuous effort of subverting a paradigm; there isn't even a cheat, no rules are broken neither is work done by denial. The material, by itself, is so mercurial, that the bar of the fantastic is among the trite.

This is the work – perambulating in the labyrinth as a dervish and forcing the viewer into being one too, until exhaustion and transcendence make us become living dead.

There is a strong relation to matter in all this, but that would denounce something that is sculptural, which may be a deviation of language. But it is in these deviations that accidents are speculated. There is in the plane of the exhibition prints an expansive vibration, a strange and alien pulsation – an alleged infection for our eyes. Placing this kind of inference in a context of non- optimist science-fiction references, we can near ourselves to the ectasy of Mercúrio.

However, there is no science here. There is that which is strictly necessary to produce photography, no more. There also isn't the “post-apocalyptic future” cliché in these images – they are photography, thence the hypothesis of future is annihilated in them. What they have is a present – photographic, obviously, but also a “during-apocalypse” present. If the exhibition is a fiction, it is a fiction about a lovecraftian pulsation, underlying our quotidian; about something that throbs, anonymous, in everything we see, hear and touch – be it in cellphone radiation, the dangerous elements in batteries, the synthetic textiles we dress; be it in the digital electromagnetic rubbish, disguised as culture, that sprawls itself, buzzing, into every corner of the universe.

The leading thread of this conspiracy theory is what takes us to MERCÚRIO. All this matter is intelligible. All this matter is the product of the great civilizational project. All this matter is entertainment,  and as such,  unassimilable,  lived only on the surface;  the great pelvis of globalization. All this is matter, but immiscible. As the parable of the pure alien – not imagined under our own image, impossible to understand – the true fiasco of contact is the pretentious intelligibility of the world. Losing, we can only wonder ourselves with the speculative potential of so many fetishes, wallowing in an infinite jest.