O prémio Nobel da Literatura de 2017 será uma consequência natural do movimento subversivo que começou por ser protagonizado por uma pequena minoria de membros do comité, tendo-se rapidamente estendido aos restantes até se chegar a uma unanimidade que contrasta com as dissensões e clivagens internas descritas por uma imprensa alimentada regularmente por fugas, boatos e palpites de especialistas encartados. Saturados da excitação mediática que rodeia o prémio, fartos de serem tomados por um oráculo, os membros da Academia sueca foram-se deixando seduzir pela tentação de responder ao excesso e à histeria com grãos de areia na engrenagem. Objectivo final: convencer o mundo de que um prémio é apenas um prémio (nada mais difícil de engolir do que uma tautologia). O começo foi modesto: o Nobel atribuído a Svetlana Alexievich em 2015 fez erguer o seu quinhão de sobrancelhas duvidosas, mas prevaleceu a aclamação daqueles que viram nesta decisão uma lufada de ar fresco e de originalidade. A escolha de Bob Dylan suscitou reacções vigorosas, profissões de fé inflamadas sobre onde começa e onde acaba a Literatura e querelas que fizeram lembrar o caso Dreyfus. Contudo, a reputação da Academia não sofreu mais do que beliscões, e até não faltou quem opinasse que o seu prestígio saiu reforçado graças a esta manifestação de abertura à cultura popular e às novas maneiras de celebrar a palavra. Para 2017, a estratégia terá forçosamente de se radicalizar. A atribuição do prémio Nobel a um argumentista de sitcom, a uma equipa de criativos publicitários, a um chef borgonhês que publica receitas de molhos redigidas em alexandrinos impecáveis ou a um algoritmo de redes neuronais capaz de escrever haikus são neste momento ponderadas pelos membros do comité, unidos como nunca no seu propósito subversivo. Se isto não for suficiente para ensinar o mundo a relativizar e a perceber a piada, não restará outro recurso a não ser um happening numa praça de Estocolmo, envolvendo uma tômbola descomunal, imitações, engolidores de fogo e bigodes postiços. «Os fins justificam os meios» alegará o porta-voz, com um ar cansado. «E agora vão para casa, preparem uma boa chávena de chá e leiam, leiam muito.»

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