conversamos longamente sobre o calor
depois caminhamos pelo bairro
apontando os prédios antigos
que não têm espaço para instalar
ar condicionado e mantêm a fachada
original enquanto os moradores esperam
dias melhores e dormem
na varanda ou não dormem
nada virando de um lado para o outro
na cama com um ventilador que gira e que só
quando mira a cama dá um sossego
e pensando bem é assim quase o tempo todo
uma metáfora barata da vida: esperar
o momento em que o ventilador aponta
para si e quando está a ponto de dar um refresco
já se sofre só de pensar que logo depois
é mais um longo tempo no hálito quente sem trégua
esse verão está ainda pior ou dizemos isso
toda vez e no verão seguinte
esquecemos e sentimos tudo de novo
pela primeira vez aqui costumava se dizer
que era a terra da garoa
agora o cabelo colado à testa a pele morna
sentamos de costas para o cemitério
comentamos sobre os jogos de inverno
um esporte em que se plana no ar antes
de enfim aterrissar na neve
talvez o verão já esteja no fim e não precise
mesmo comprar um ar condicionado
dessa vez o ventilador quebra
o galho vamos ver

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