Este não é o meu álbum de infância.

Sobre o meu, escrevi um dia:

Olho para a capa do meu álbum  de fotografias de infância e consigo ver a minha mãe a escrever o meu peso, a cor dos meus olhos e do meu cabelo.

Reconheço a caligrafia. Imagino-a a colocar os cantos das fotografias. A fazer a minha “memória”.

Anos mais tarde, quando essa “memória” me chegou às mãos, desmanchei-a.

Meticulosamente retirei todas as fotografias. Cortei muitas. Dei outras. Troquei a minha memória (escrupulosamente fiel à realidade) pela memória de outros que fui perdendo no tempo, guardando em caixas, marcando livros. Ainda hoje encontro dentro de livros da Enid Blyton imagens de verões em praias a que nunca fui, árvores de natal que nunca enfeitei, rodeada de irmãs que nunca tive.

Guardo as memórias de outros, trocadas na adolescência pela minha.

O álbum ficou.

Durante anos, guardado numa prateleira, como objecto danificado. Como que a lembrar o vandalismo adolescente. Vazio, repleto de palavras.

Da minha vida, só frases: A Ana Beatriz com quatro dias. A Ana Beatriz no seu primeiro carnaval, a Ana Beatriz na Praia das Maçãs.

Voltando ao que interessa. Este não é o meu álbum de infância. É o de alguém que nunca teve ninguém para lhe fazer um. 

De alguém que, para além das imagens, não tem nas suas memórias uma única palavra.

 

Abril, 2015

 
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