Há dois Verões, a minha família e eu decidimos passar uma tarde no Jardim Zoológico de Lisboa. Ou talvez seja mais exacto dizer que a nossa filha mais velha tomou a decisão de o visitar, e não descansou enquanto não a levámos ao Zoo. Tinha então seis anos e já nessa altura parecia ter uma capacidade rogatória ilimitada e o domínio precoce do mecanismo retórico a que os gregos chamavam diácope que a tornaram uma criança de oito anos quase imbatível. Queria ver as chitas e, por isso, durante quase toda a semana que antecedeu a visita, assaltou-nos com essa palavra e algumas outras: “chitas, chitas, papá, chitas, por favor, chitas, chitas, mamã, chitas, levem-me lá, chitas, por favor...” Não obstante os seus intervalos regulares de sono, o efeito era parecido com o de dez mil andorinhas colidindo, uma a uma, contra a nossa janela da sala: ligeiramente perturbador de começo, mas induzindo por fim um trauma e choque Hitchcockianos. Assim, quando finalmente chegámos, totalmente derrotados, à exibição de chitas (para nós previsivelmente desapontadora, mas uma maravilha genuína para as nossas filhas), aproveitámos, a minha mulher e eu, a oportunidade de nos sentarmos defronte dela, saboreando uns minutos roubados de sossego à sombra das pequenas árvores que flanqueiam o picadeiro dos ocapis. 

Uma vez sentados, ficámos a conversar, e acabámos por concordar que os jardins zoológicos são lugares estranhos e deprimentes aonde levar crianças pequenas. Não se entenda nisto uma reprimenta contra o zoológico de Lisboa; os seus responsáveis tiveram pelo menos o humor negro de posicionar os crocodilos junto ao McDonald’s, e parecem fazer o melhor que podem com recursos que não se comparam com os fundos de outros zoológicos famosos, em cidades como Berlim e Singapura. Mais um pouco de humor negro: um amigo português, mais velho que eu, suspirou certa vez, num instante de melacolia passageira, que havia no zoo de Lisboa espécimes de animais africanos muito melhores (e em maior variedade) antes de 1974. Respondi que ele devia arrombar o zoo de noite e pintar o espaço dos leões de cor-de-rosa, mas tal sugestão não lhe pareceu engraçada. Ou prática. Estas realidades económicas e pós-imperiais são certamente difíceis de ignorar no Jardim Zoológico de Lisboa (o que o torna um microcosmos espantoso), mas, por outro lado, tem uma exposição de chitas que, numa bela tarde de Junho, há dois anos, conseguiu distrair as nossas filhas durante tempo suficiente para que eu e a minha mulher nos sentássemos à sombra, durante uns minutos, de mãos dadas, a falar sobre as muitas hipocrisias e horrores deste mundo. Como bem sabem os pais com crianças pequenas, momentos destes são uma dádiva rara, e é-me por isso difícil, compreensivelmente, talvez, tecer quaisquer críticas sustentadas ao zoo de Lisboa.

O problema, em todo o caso, não está no zoo de Lisboa, mas nos jardins zoológicos em geral. Como notam muitos activistas, os zoos são monumentos à ganância e vaidade humana — ao modo como, de boa vontade, nos apoderamos de milhares de hectares de habitat animal selvagem para os convertermos em fazendas, campos de exploração de petróleo, minas e subúrbios. Tudo isto é bem verdade, mas argumentaria que nada há de particularmente útil nessa asserção, que se assemelha, pelo menos num sentido genérico, a queixarmo-nos de que certo tipo de regime ditatorial é repressivo. Todos os regimes ditatoriais são, claro está (porventura em graus diferentes), repressivos por definição, e, de modo similar, monumentos à ganância e à vaidade são muito possivelmente o único género de monumento alguma vez erigido. Fazer qualquer outra espécie de monumento compelir-nos-ia, aparentemente, a não construir um monumento de todo. Um monumento desmonumental que evocasse passivamente algo de muito mais nobre que a acção humana.  De facto, pode dizer-se que é na ausência de monumentos — as notas que não tocamos — que demonstramos o nosso génio na sua máxima expressão e o nosso maior potencial enquanto espécie. A imagem de Deus é a auto-contenção. O facto cru de que o normal é arrancarmos árvores e plantas e destruirmos o habitat  animal para erigir os nossos monumentos (eu gosto do Mosteiro dos Jerónimos, mas parece-me sempre que um arvoredo teria sido infinitamente mais belo) torna este argumento mais forte.

Portanto, não, não sou um grande adepto de monumentos, qualquer que seja o seu género. Mas depois aquilo que me irrita particularmente nos jardins zoológicos não é que sejam um índice da nossa rapacidade insaciável (mais uma vez, tais índices estão por toda a parte em nosso redor); mas antes as suas tentativas desesperadamente esforçadas de, além disso, nos representarem como criaturas, nalgum sentido, magnânimas e zelosas. Dizem-nos: “Com certeza, praticamente limpámos do mapa estas espécies, sem grande justificação, mas somos essencialmente bons e compassivos; reparem em como tratamos bem destes macacos-aranha e destes rinocerontes.” Há algo de inerentemente demente na nossa necessidade de parecermos éticos e até auto-sacrificiais ao mesmo tempo que inflingimos danos globais tão sérios, e os zoológicos são instrumentos simbólicos eficazes deste processo: venham testemunhar as nossas sinceras tentativas de salvar o gorila e o nosso enorme esmero com esta família de gorilas particular, ao mesmo tempo que nós (enquanto espécie) trabalhamos diligentemente para o apagarmos (enquanto espécie) da face do planeta. Deus, o qual, presumo, não terá sentido de humor acerca de tais coisas, terá provavelmente passado o último século a considerar se não deveria ter dado o planeta antes aos gorilas, e ter-nos simplesmente sufocado no nosso berço filogenético.

À parte toda esta hipocrisia existencial, os jardins zoológicos exibem ainda um fedor assustador. O cheiro do oblívio e da ruína (e da urina e fezes dos seus habitantes) é omnipresente nos zoos, em especial nas tardes quentes de Verão quando, por exempo, as brisas fluviais do Tejo não chegam a alcançar Sete Rios. Tire-se as lojas de recordações e os quiosques de gelados a um zoo e restará pouco mais do que um brando campo de concentração para os perseguidos e os derrotados, uma antecâmara paliativa da noite infernal da extinção. Um corredor da morte, mas com uma loja de souvenires para os miúdos. A título de exemplo, poderíamos considerar a mão-cheia de linces ibéricos actualmente em exposição no Zoobotánico Jerez. Existem hoje aproximadamente 200 linces ibéricos vivos em todo o mundo e, apesar dos francos esforços de conservação da espécie na Andaluzia (nos quais o zoo tem uma participação importante), é provável que em breve a espécie desapareça por completo. Facto arrepiante e perturbador, e, porém, ali estão eles, andando de um lado para o outro num espaço fechado, para que os possamos ver e fotografar, nus e mundanos na derrota, do outro lado da rua na Calle Taxdirt (assim chamada em homenagem ao êxito de uma carga da cavalaria espanhola no norte de Marrocos) e a menos de um quarteirão de uma eminente escola de terapia Gestalt. O zoo anuncia a exposição de linces como uma oportunidade de estar “cara a cara” com o felino mais ameaçado do planeta, e no entanto tem-se a forte impressão de que, perante tal afirmação, Emmanuel Levinas abanaria a cabeça em descrença. 

Será que pode existir um cara a cara em semelhantes condições? Será que pode haver proximidade com um espectáculo tão obviamente exótico e triste, um Prometeu felino imbuído no ritmo da economia simbólica dos monumentos humanos? Não há muito tempo para pensarmos nisto: quando as nossas filhas forem adultas, é provável que já não existam linces ibéricos (nem ursos polares selvagens) no mundo. E podem muito bem não restar também quaisquer chitas. 

As imagens de tigres-do-cáspio (o tigre hircana de Camões) nos jardins zoológicos do final do século dezanove dão-nos uma janela sóbria para os últimos dias de uma espécie animal. Numa fotografia do Zoo Berlin, um tigre-do-cáspio está parado atrás das grades da sua jaula. O seu crânio pequeno, de buldogue, e a sua juba branca guiam o corpo robusto na sua rotina de cativeiro, a milhares de quilómetros da cordilheira de Elburz e das manadas de javalis que por ali procuravam bolotas: anda para um lado da jaula, anda para o outro lado, olha para cima, olha para baixo, senta-se, arqueja um pouco, coça-se, espera que o alimentem. Cerca de cinquenta anos depois desta fotografia (chocante na sua banalidade) ter sido tirada, não restava um único tigre-do-cáspio na terra. Vítimas da guerra e das ordens do exército soviético para atirar sobre eles se os avistassem (no Cáucaso horrendo, fraco infante, / criado ao peito dalgũa tigre hircana), e ao bom-senso de não procrearem em cativeiro, estes tigres regressaram à noite longa e inominável que os antecedera.

Sentados à sombra junto aos ocapis, a minha mulher e eu assegurámo-nos de manter a conversa de crescidos acerca de extinção e da insensatez humana longe dos ouvidos das nossas duas filhas. Não tarda, ficarão a par de todas estas coisas e, como a maioria dos pais, temos o cuidado de evitar sobrecarregar os seus ombros com o peso de certas verdades, antes que o consigam aguentar com segurança, ou pelo menos para não abrirem a boca cedo de mais na escola. A nossa filha mais velha sabe, por exemplo, que os bebés vêm de um processo biológico misterioso e abstracto a que os cientistas chamam “reprodução”, mas até agora abstivemo-nos de descrever qualquer detalhe. É uma decisão nossa, mas as questões relacionadas com a concepção e a extinção parecem permanecer para lá do horizonte até do determinadíssimo entendimento da nossa filha mais velha — e, para ser mais preciso, não queremos que os pais dos seus amigos e amigas nos venham repreender por ela ter contado aos seus filhos de onde vêm os bebés (ou que o Zoo de São Francisco é essencialmente uma sala dos horrores). Ser pai é, no fim de contas, uma quase universal cultura da vergonha.

De regresso ao jardim zoológico de há dois Verões, as nossas filhas gozavam o seu encontro com uma chita que viera aproximar-se delas, esfregando o seu flanco sarapintado contra a vedação de acrílico que a separava delas. Risinhos nervosos de deleite, um silêncio calado e tentativas de falar com o animal através de barulhos meiguinhos, de ser a primeira menina a romper toda aquela camada de selvajaria carnívora e de reflexos rápidos, e conhecer os pensamentos e receios do animal mais veloz do mundo. Ser a primeira a trepar a vedação acrílica e sentar-se ao lado da chita, e que a sua pequena cabeça de gato (com o seu, ainda mais pequeno, cérebro) repousasse ao seu colo e adormecesse a tarde quente fora, à medida que as pessoas aparecessem de toda a parte para fotografar este milagre pós-humanista. Os jornais publicariam um artigo sobre a menina que fala com chitas, e o Primeiro Ministro esqueceria os planos de austeridade por um dia, para a conhecer, e cogitaria sobre os seus estranhos poderes. Conhecendo a nossa filha mais velha, ela estaria, além disso, a incubar algum plano elaborado para adoptar a chita e trazê-la connosco de volta à Califórnia. Havia de lhe fazer vestidos de lantejoulas e alimentá-la-ia com peixe e pizza de pepperoni, e o animal escoltá-la-ia quando fosse para a escola. Sentar-se-ia obedientemente a seu lado, na sala de aula, enquanto a nossa filha se debatia com operações de divisão, e a Daniela, a menina que costuma meter-se com ela e que lhe tira coisas da lancheira, teria, de ora em diante, de pôr-se na linha ou ser comida. Hollywood faria um filme acerca de uma menina e a sua chita de estimação, e a nossa filha insistiria em representar o papel de si mesma, que lhe traria críticas entusiásticas e muitos prémios. Tudo isto estava já completamente arquitectado na sua cabeça ao inclinar-se para a chita e ao sussurrar-lhe, junto com a sua irmã mais nova, promessas e declarações de amor incondicional. A chita não interrompeu a sua rotina diária, imperturbada e indiferente aos murmúrios suaves das pequeninas.  

Aquilo que me espantou, então, foi também o facto de eu e a minha mulher estarmos igualmente descontraídos a respeito da proximidade física entre as nossas filhas e a chita. Tornou-se então evidente que o que quer que possa ser “proximidade” (closeness), é possível que o seu fio se parta na presença de barreiras como as de acrílico, que mantinha a chita no seu (muito reduzido) mundo e a nossa filha no delas. Imaginei as nossas filhas nalguma pradaria da Zâmbia (regressa assim o mapa cor-de-rosa à nossa história), quem sabe a cinquenta metros da mesma chita. Será que a minha mulher e eu continuaríamos sentados, gozando a sombra fresca, despreocupados? Ou atropelávamo-nos para proteger as nossas filhas da proximidade ameaçadora e intolerável de um carnívoro capaz de fazer essa distância em menos de três segundos? Mas como pode uma distância de cinquenta metros afastar-nos tão dramaticamente da nossa economia habitual, enquanto uma distância de poucos centímetros nos permite sonhar acordados e filosofar à sombra? A resposta óbvia é a de que a barreira de acrílico, manifestação material das garantias dadas pelo zoo de Lisboa de que podemos desfrutar de um McRoyal Cheese e batatas fritas sem sermos comidos por crocodilos famintos, e de que as nossas filhas poderão sussurrar ao ouvido de uma chita sem que esse seja o seu último acto nesta terra. Uma experiência exótica e divertida, mas talvez o exacto oposto da proximidade.

Após pouco tempo, as nossas filhas fartaram-se das chitas (como sucede a respeito de quase todas as diversões) e sugeriram que avançássemos para os leões, os pinguins-africanos e os tigres brancos, pela ordem que nos apetecesse. No fim de contas, não importa, suponho, quais foram os animais que decidimos ir ver, pois tudo aquilo escolhemos era na verdade a nossa própria autonomia e liberdade de escolha, numa espécie de loop infinito de lazer, segurança e privilégio. Pouco faltará para que os cães e os gatos se tornem os únicos animais não-humanos que restam no mundo. Enquanto este novo futuro se aproxima, ficaremos certamente felizes por termos tido o discernimento de construir jardins zoológicos para nos ajudar a realizar o milagre, a lembrar Cristo, de transformar (tanto quanto baste) os nossos crimes mais impensáveis em doces para as nossas crianças.

 

Tradução portuguesa de Humberto Brito.