A 10 de Outubro de 2014, Mark Zuckerberg, o fundador e CEO do Facebook, anunciou que a sua empresa acabara de comprar a popular plataforma de mensagens de texto, o WhatsApp, por 16 biliões de dólares. Na sua comunicação à imprensa, Zuckerberg mencionou nesse dia que a equipa do WhatsApp “fizera um trabalho incrível para ligar quase um bilião de pessoas” e que mal podia esperar que se tornasse parte do Facebook, para ajudar “a ligar o resto do mundo”. Vaga mas inquestionavelmente optimista, esta declaração pública foi recebida com muitos aplausos; no entanto, qual é aqui o significado do termo ligar?  

Num artigo de 2010 no New York Review of Books, Zadie Smith argumenta que Zuckerberg tende a usar palavras como ligar e ligação mais ou menos da mesma maneira que “os crentes usam a palavra Jesus, como se fosse em si mesma uma palavra sagrada.” Caso tenha razão, Zuckerberg não está sozinho entre aqueles que moldaram a nossa experiência da Internet. Em 2007, num discurso de graduação em Harvard, Bill Gates chega a perder o fôlego ao falar da Internet como uma “coisa mágica” que tem o poder de “eliminar distâncias e fazer de qualquer pessoa um vizinho.” 

De que modo as novas formas digitais de ligação e proximidade oferecidas pela Internet (e pelas redes sociais que nela assentam) afectaram os modos de proximidade quotidiana mais tradicionais? Será que têm mesmo significado as maneiras como nos ligam? Ou será que apenas nos precipitamos para aquilo a que o sociólogo Richard Sennet chamou a “tirania da intimidade”? Será a monetização da proximidade talvez a marca do neoliberalismo de Silicon Valley? A um nível ainda mais básico, o que queremos realmente dizer quando usamos palavras como proximidade e ligação? Será que significam sempre uma coisa boa e desejável? Haverá perigo na proximidade, ou um lado negro da ligação? Poderíamos perguntar: quais são os limites ou fronteiras que nos salvaguardam de tais perigos? Quão próximo é o demasiado próximo?

Proximidade e ligação são termos centrais num amplo conjunto de campos e disciplinas académicas, da arquitectura ao urbanismo, à terapia familiar e à física. Aquilo que está por capturar é, porém, uma descrição única e explicitamente humanística do seu significado, alcance e impacto. O que podem as humanidades ensinar-nos a respeito destes conceitos? No fim de contas, uma coisa é falar de “proximidade à família” em termos antropológicos, sociológicos, ou biológicos (classe, estruturas de parentesco, evolução, etc.), e uma coisa muito diferente vivê-la como um paradoxo realmente sentido — um colete de espinhos, que tanto protege como magoa — e expressá-lo através da arte, da literatura, da filosofia. O objectivo deste número da Forma de Vida, quer se fale de beleza, arte, poemas, Internet, ou tradução, é substanciar de maneira mais profunda, circunstanciada (e provocadora) aquilo a que nos referimos ao falar de “proximidade”. Esperamos que deste projecto nasça um interesse renovado pela teorização da proximidade e da nossa necessidade humana de negociar relações de proximidade.

Como um clandestino num navio, a proximidade tem muitas vezes viajado connosco sem darmos conta, sem estudarmos o seu efeito sobre nós, ou sem sequer a nomearmos. Como agentes humanos, buscamo-la, evitamo-la, simulamo-la, e prevenimos que ocorra (através de barreiras e filtros de vários géneros); no entanto, raramente paramos para examinar e definir aquilo que entendemos por proximidade em diferentes contextos sociais, culturais e históricos. Estarei realmente próximo do tigre no jardim zoológico, ainda que separados por grades? Estarei mais próximo de casa quando estou longe dela? Quão próximo serei do estranho que se senta ao meu lado num avião, de cotovelos levemente colados no assento? O que será que me puxa para livros como objectos físicos? O que me puxa para as minhas filhas mesmo quando elas me afastam? Serão proximidade e ligação sequer possíveis na Internet?

O presente número constrói-se indutivamente e procurar iniciar uma conversa mais ampla sobre proximidade tanto nas humanidades como junto do público em geral, não especializado, uma conversa que dialogue com trabalho já existente nas ciências sociais e naturais, mas que desenvolva abordagens, métodos e vocabulários que sejam distintamente humanísticos.

O Professor Vincent Barletta
é o Editor CONVIDADO Do Presente Número da Forma de Vida.

 

Trad. Humberto Brito

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