Um comentário a Mt 26 de Alberto Arruda

Ao ler as palavras de Alberto Arruda fui levado ao final do capítulo 26 do Evangelho de Mateus. Pedro trai Jesus três vezes. Acredito que boa parte das perspectivas que temos actualmente sobre a traição são profundamente influenciadas por este episódio, independentemente de sermos ou não pessoas de fé. Aliás, acredito também que parte da força do cristianismo está em misturar no desfecho da sua história central (a morte de Cristo) a amargura da traição. Ou seja, o triunfo de Jesus pede a presença de algumas derrotas. E a derrota presente nesta traição de Pedro (que permite um eco mais subtil mas também mais chocante da outra traição anterior, de Judas) mostra que traem os maus mas traem os bons também. É igualmente por isso que a salvação de Jesus é graça e não apenas conquista por uma mera demonstração de poder divino sobre-humano. Porque os melhores discípulos fazem coisas parecidas com as dos maus discípulos. O cristianismo ajudou o mundo a compreender que a primeira democracia é a da infidelidade. Este é o verdadeiro eleitorado da fé — homens que traem.

Sem querer colocar a nossa reflexão na senda da análise da actualidade, vale, todavia, a pena dizer que se tivéssemos Mateus 26 mais próximo poderíamos com mais propriedade entender o que está em causa quando falamos de igreja. O critério da igreja é precisamente este que já se vive em Pedro: é possível que um discípulo traia mas não é desejável que continue traindo. E a traição do discípulo, ou da igreja, pode medir-se pelo modo como se comporta não em relação ao mundo, ou mesmo em relação aos outros discípulos, mas em primeiro lugar pelo modo como se comporta em relação a Jesus. Logo, e terminando este aparte, as questões que se colocam a qualquer igreja, seja católica, protestante ou oriental, não são as que supostamente são colocadas pela contemporaneidade (essa razoável abstracção de concretas costas largas) mas as que são colocadas pelo próprio Cristo. Pedro não traiu uma campanha de conquista da opinião pública de Jerusalém. Pedro traiu Jesus (aliás, e quando traiu Jesus fê-lo também porque se mostrou demasiado sensível a uma certa opinião pública de Jerusalém).

Não esqueçamos outro texto que continua Mateus 26: João 21:15-19. É interessante que apenas o evangelho de João nos console do desconforto da traição. O que, graças a Deus, efectivamente acontece. Aí está relatado o reencontro entre Jesus e Pedro, agora marcado pela reabilitação através das três vezes que o Mestre pergunta a Pedro se ele o ama. O texto não esconde a dificuldade da conversa para Pedro mas na Bíblia a repetição não serve apenas para os lentos de compreensão mas também para os que, sendo lentos na obediência, são ainda capazes de o fazer. Por cada não que Pedro deu, houve um “sim, Senhor; tu sabes que te amo”. A insistência é uma garantia que o amor vence.

É também João 21 (o texto e não o Papa) que nos dá caminho além da frase bem urdida pelo Alberto Arruda: “Pedro negou quem era, e por isso passou a ser a pessoa que negou quem era.” Para podermos acrescentar que a pessoa que negou quem era fez-se depois uma pessoa de novas afirmações. Com essas novas afirmações pôde, depois de ser quem negou quem era, ser outra vez. Sem estar presa à negação. É certo que desistir da vocação seria pior do que desistir de uma concepção da vocação, como escreveu o Alberto. Mas creio que os impasses conceptuais acabam por ser resolvidos na conversa estabelecida entre os diversos textos bíblicos. É revelador que os problemas futuros de Pedro no Novo Testamento estejam mais na compreensão da dimensão do rebanho do que na compreensão da dimensão da sua tarefa de pastor (a questão de a igreja pertencer também aos gentios, convicção à qual Paulo teve de o persuadir). É também a partir daqui que se desenha o progresso de Pedro e de toda a igreja além da possibilidade de negar Jesus (possibilidade essa que permanece para qualquer discípulo ou igreja). Mais do que Pedro não desistir da sua vocação, como bem escreveu o Alberto, foi a vocação que não desistiu de Pedro. Porque a voz que o chamou é aquela que o reencaminha à tarefa que lhe tinha dado — apascenta as minhas ovelhas.