Era branca e solarenga, mas tinha algo da casinha de doces e guloseimas do conto de Hansel e Gretel, talvez o contorno das portas e janelas pintado de verde escuro, ou os pequenos pilares de tijolo vermelho vivo a suportar a varanda florida do primeiro andar. Era tal e qual as fotografias da internet, e todos suspiraram de alívio por não terem sido enganados. Ao vê-la, a criança gritou de alegria. Nesse verão, o pai decidira optar por umas férias em família numa casa alugada no meio do nada, uma forma discreta de tactear a aceitação, por parte dos outros membros do clã, da sua nova namorada – uma rapariga discreta, divorciada e sem prole. Tinha levado consigo o seu próprio progenitor, a tia Eulália (uma senhora que irradiava beleza intemporal e irrealidade em igual proporção), os filhos mais velhos (dois gémeos infernais pré-adolescentes), o seu cão Toby, e a criança. A criança tinha já três anos mas não falava. Optara por não o fazer. Os diversos médicos consultados tinham dito aos pais para não se preocuparem, podia ser ainda uma consequência do divórcio, talvez em breve se resolvesse por si, assim que ela aceitasse a sua nova situação. Fosse qual fosse o motivo, o facto é que não articulava ainda uma única palavra. Emitia, para grande horror do resto da família e dos múltiplos vizinhos do prédio, uns guinchos estridentes que médico nenhum no mundo conseguiria justificar, e muito menos abolir. A tia Eulália insistia em viver num qualquer glamour passado que só existia na sua cabeça e nalguns filmes dos anos quarenta de Hollywood. Passeava-se por casa com vestidos vaporosos e longas écharpes, uns enormes óculos escuros que lhe tapavam metade da cara miúda e que ela usava dia e noite, e só saía à rua de cabeça coberta, geralmente por uma gigantesca capeline que alternava com um turbante amarelo-canário, ambos dignos de qualquer vedeta de Cannes que se prezasse, na década de sessenta. A criança gostava da tia Eulália porque era, ao contrário do resto dos parentes, colorida e espampanante e, tal como ela, feliz na sua inocência e total ignorância do mundo exterior. A criança também gostava do avô, porque ele usava fraldas semelhantes às suas e porque às vezes a deixava andar na cadeira de rodas. O avô alimentara em tempos o sonho de ser cantor de ópera. E embora tivesse servido à mesa durante toda a vida, chegara na sua juventude a fazer parte de um coro amador. De vez em quando, no final de uma refeição em que abusara um pouco do álcool que lhe estava expressamente proibido, insistia em reviver esses dias gloriosos, para desespero de toda a família. Quando isso sucedia e ele desatava a cantar, a placa superior dos dentes postiços descolava-se e ficava a bater de encontro à de baixo mais ou menos ao ritmo da melodia. A criança gostava muito de lhe ver as gengivas nuas e cor de rosa. O avô costumava pontuar as notas mais agudas com umas poderosas flatulências de efeitos devastadores nas narinas circundantes. Talvez por esse motivo, mal ele ameaçava atacar uma ária a debandada era geral. Assim, a criança acabava invariavelmente por ficar sozinha à mesa a ouvir o avô dar à placa e saudava com aplausos entusiastas cada nova e ribombante detonação. Naquele momento, de mãos dadas diante da casa, eram eles os dois quem mais parecia apreciar o colorido edifício. Também a piscina era de generosas dimensões.  Construída perpendicularmente à casa, era tão comprida que as suas proporções harmoniosas pareciam distorcidas pela perspectiva. Todas as divisões da casa tinham vista para lá, e tanto a orientação do terraço como o formato do jardim e a inclinação do terreno pareciam pensados em função daquele gigantesco tanque. O seu azul-turquesa fora o principal motivo que os levara a escolher aquela específica moradia, de entre tantas outras que o site tinha para oferecer. Quase como o altar de uma igreja, onde todos observam os gestos do sacerdote, a imensa piscina era sem qualquer dúvida o centro de todas as atenções. O ruído incessante das cigarras confundia-se com o ronronar do motor que reciclava a água. Provinha de uma fileira multicolor de arbustos típicos da região, que atrás do enorme tanque delimitavam o jardim e pareciam ter sido concebidos para defender a privacidade dos habitantes da curiosidade do exterior.  As plantas estavam todas em flor e contribuíam para o aroma indefinível e adocicado que pairava no ar, muito diferente do habitual cheiro a cloro das piscinas, já que o sistema de desinfecção ali utilizado era à base de sal. 

Toby ladrava e saltava pelo relvado fora, parecendo escolher de forma criteriosa qual o melhor talhão para transformar em casa de banho temporária. O avô afirmou que pretendia ir nadar imediatamente apesar da água ter aspecto de ser fria e do sal lhe ir certamente picar na pele. A criança quis ir com o avô e desatou a guinchar, mas o pai insistiu que já era tarde e ainda tinham de se instalar, motivo pelo qual os mergulhos ficariam adiados para o dia seguinte. O avô e a criança amuaram, mas como sempre acataram as suas ordens. Satisfeitos com o exterior da casa, decidiram entrar. A arfar de calor, Toby quis segui-los, mas um olhar severo fê-lo mudar rapidamente de ideias. Conformado, deitou-se no tapete que dizia "bem-vindos welcome" e esperou pelo regresso dos donos enquanto olhava de soslaio e com cobiça para a refrescante superfície azul. O interior era simples mas agradável, notava-se que fora preparado com esmero para receber os visitantes. O mobiliário era funcional e a maioria dos objectos fora escolhido com algum cuidado. Vaguearam todos pela sala – a princípio numa fila tímida e ordenada, quase como num cortejo, mas à medida que foram ficando mais à vontade começaram a dispersar. Apreciaram a decoração, detendo-se aqui e ali para melhor observar qualquer detalhe que lhes tivesse chamado a atenção. A namorada do pai não fez qualquer comentário, limitando-se aprovar em silêncio a ausência à vista desarmada de insectos, pó e teias de aranha. Os gémeos desataram a rir ao descobrir que alguns dos bibelots ainda tinham a etiqueta da loja de onde provinham e fartaram-se de fazer troça de um quadro naif, por sinal bastante feio, que representava a casa de férias no meio de um jardim luxuriante onde ainda não existia a piscina. A tia Eulália demorou-se a admirar uma colecção em marfim de peças de escultura algo bizarras, que faziam lembrar animais, embora nenhum em particular ou uma mistura de vários bichos no corpo de um só. O avô dedicou-se a contemplar, embevecido, um painel de madeira que representava criaturas em diversas posições do Kama-Sutra e que os gémeos tentavam desesperadamente soltar da parede quando foram surpreendidos pelo pai. Entretanto, a criança descobriu em cima de um aparador uma estatueta que confundiu com uma boneca e se apressou a surripiar. Só depois se apercebeu que no lugar da cabeça da  pequena figura feminina o pescoço se alongava  e ficava cada vez mais fino, desfazendo-se, como se tivesse sido truncado, ou como se tivessem enxertado uma serpente entre os ombros de uma mulher. Assustada, a criança apressou-se a pousar a horrenda escultura e correu chorosa a refugiar-se no protector colo paterno. Terminada a inspecção, cada um escolheu o seu quarto, desfizeram as malas e para grande alegria de Toby vieram reunir-se na ampla varanda do piso superior, que dava, também ela, para a piscina. Decidiram jantar ali mesmo, estava um fim de tarde quente e a noite prometia ser agradável. A namorada do pai ofereceu-se para cozinhar, generosidade que logo foi aceite e agradecida com alívio por parte de todos os restantes membros da família. Na varanda, o doce murmúrio da água sobrepunha-se a cada grito dos mais novos e a cada conversa dos adultos. Por vezes um deles interrompia-se a meio de uma frase porque aquele ruído era tão suave e omnipresente que se tornava difícil de superar, nada do que dissessem seria mais pertinente do que esse canto de embalar: a voz hipnótica da água que parecia convida-los a entrar. Antes do jantar, os gémeos ainda tentaram em vão aterrorizar a tia Eulália, brandindo na ponta de um pau uma pequena cobra que tinham encontrado no jardim. Perdiam o seu tempo, já que a excêntrica senhora deixara de ter a capacidade de se assombrar seja com o que fosse desde o longínquo dia em que ouvira no supermercado, atrás de uma pilha de latas de sardinha em conserva, o marido a combinar com a amante a melhor forma de se verem livres dela. Divorciara-se imediatamente e nunca lhe conseguira perdoar, mas não sabia dizer ao certo se o que mais a humilhara fora a descoberta do maquiavélico plano ou a falta de requinte na escolha do local para o traçar. Terminada a refeição, seguida atentamente por Toby na esperança de algum pedaço caído da mesa, decidiram por unanimidade deixar a loiça por lavar e a cozinha por arrumar e foram-se todos deitar sem qualquer remorso. Afinal, sempre estavam de férias, de manhã tratariam do assunto. Recolheram aos seus respectivos aposentos e, exaustos pela viagem, não tardaram em adormecer, ansiosos  pelo dia seguinte. Chegara o momento que a criança mais odiava. Era a altura em que o pai ia dormir com aquela mulher, que não era ela nem a sua mãe, mas apenas outra, uma candidata a madrasta. Despertava a meio da noite a pensar nele, com a porta fechada naquele quarto onde não lhe era permitido entrar mas à outra sim, e desatava a chorar. No início dessas crises o pai acorrera sempre, aflito, a ver o que se passava, mas com o passar do tempo os repetidos choros de ciúmes nocturnos tinham deixado de fazer efeito. Talvez por isso dessa vez a criança tenha ficado calada quando acordou.Com o nariz colado ao vidro, ficou apenas a olhar lá para fora, para o jardim banhado pelo luar. Alguém se enganara no interruptor e deixara acesa inadvertidamente a luz interna da piscina Os grandes holofotes varriam as intranquilas profundezas azuis. A criança gritou e o ruído estridente ecoou sem resposta pela casa adormecida. Lá fora continuava a reinar o silêncio, apenas interrompido pelo doce murmúrio das águas, que se justificava por fim. Os potentes focos luminosos revelavam-nas sem que elas se parecessem incomodar. 

A criança guinchava e uivava, mas ninguém dava mostras de se importar com as suas tentativas de alerta. Não lhe deram ouvidos nessa noite, nem lhe iriam prestar atenção nos dias seguintes, preocupados com o desaparecimento do Toby ou com a descoberta da cadeira de rodas do avô vazia, derrubada sobre o relvado. Submersas, à luz da lua elas aguardavam, serenas e ondulantes na sua certeza, aguardavam que uma vez mais o destino se cumprisse. Exultavam serpenteando, e a sua alegria era como uma promessa que se renovava a cada verão, com a chegada de mais um alegre e ruidoso grupo de turistas, uma nova família despreocupada e numerosa e, com sorte, até um cão. 

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