Conheci o meu primeiro poeta através do meu primeiro beau que era uma destas pessoas que conhecem toda a gente. “Vai ter com Fulano, diz que és minha amiga” foi conselho que tive sempre o bom senso de não seguir. Por ele conheci afinal parte diminuta da obra do poeta e um bocadinho da pessoa, na forma de uma dedicatória. O poeta era um senhor do Porto que votara à temática do Amor a quase totalidade da sua obra. Ia a dizer “já extensa obra” e é bem provável que o fosse - o livro que nos calhou era uma “antologia”, uma selecção de poemas, o que devia significar que o poeta entrara em fase de rapar o fundo ao tacho.  Ou seria juvenília que enjeitava e enjeitando possuía resmas dela nos armários? 

Eu era uma ingénue da poesia. Sabia mais do que mostrava saber e bastante menos do que julgava que sabia. Lera e esquecera o que se lia nas selectas, já tinha algum Fernando Pessoa, subsistema Álvaro de Campos, o bastante para ser incompetente. E escrevia versos desde os nove anos de idade, o que não era garantia de coisa nenhuma. Mesmo com todas estas limitações, o elogioso facto de um livro de poesia dedicado pelo poeta aos dois amantes (de que eu era uma) não conseguiu obscurecer a impressão de que o livro considerado em si mesmo não era grande coisa. Onde terei ido buscar tal sentido crítico?  

Só conheci a pessoa do poeta muitos anos mais tarde. Estávamos no mesmo hotel a participar numa coisa cultural, ele já mais que laureado e em fim de linha, eu nos primeiros esforços, e encontrá-lo à mesa do pequeno-almoço não deixou de me fazer um certo efeito. Já vira a obra, agora vinha o homem, um senhor cansado, benévolo, com um sorriso meigo que era um programa de vida. Nesse tempo, ele era já a Grande Figura, a trabalhar para a sua própria lenda. Quando se referia à Dama Poesia é que tinha a voz ainda cheia de Musa e Lusa Atenas, mas mesmo assim menos declamativa do que alguns poetas dessa época. Foi gentil e simpático comigo, havia em geral um companheirismo dos mais velhos para os mais novos que era consolador. Aqui a memória torna-se confusa. Embora tenha a imagem nítida, ou seja, falsa, de um homem de muita idade, numa atitude descontraída, um pouco deprimida, de camisa branca aberta até ao peito, uma voz aflautada, não sei o que se passou entre nós…Conhecendo-me como me conheço estava capaz de jurar que (exactamente porque não queria falar) lhe falei no beau e no livro, na dedicatória que ele escrevera uns quinze anos antes a este vago conhecido seu, provavelmente conhecido de conhecidos. Porque lhe falei num livro de que não gostava, memento de um amor passado? 

Não me ficando na memória nenhum incómodo, depreendo que o poeta se portou com subtileza. Manteve-se a sorrir no vago. Julgo que depressa chegou alguém que ele realmente conhecia, que gostava realmente dos poemas dele, e salvou-nos do tête-à-tête. Chamei esta recordação, julgo eu, porque continua a ser misterioso para mim gostar muitas vezes mais dos poetas do que dos poemas que eles escrevem. 

 

Conversa de Mesa

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