Sendo dado que, na relação dialógica, tanta coisa pode correr mal, proponho que deveríamos submeter-nos em sede de escola a alguma catequese sobre “o que não dizer”. Podia ser uma disciplina de Civilidade Dialéctica. Para além dos protocolos que se aplicam a toda a vida de relação – “não matarás!”, por exemplo, é evidentemente um deles e vale tanto em comportamento dialéctico como na vida em geral - não vejo inconveniente na doutrinação sobre os interditos específicos do diálogo. Na ausência dela vemo-nos reduzidos à experiência e é com ela que temos de nos haver. É conhecida, em Psicanálise, a purulência do Não-Dito, erguido à imponência de conceito operatório; o Não-Dito, que fica a fermentar nas profundezas e rebenta –embora mais tarde, tem essa vantagem ao menos- em sintomas e excentricidades. Mas há silver lining no Não-Dito, tem de haver.

Há pessoas que nunca dizem nada, atitude formalmente correcta, mas pobre em conteúdo; há os que dizem tudo sobre todas as coisas em todas as situações. Nunca se calam, têm opiniões sobre tudo e fazem questão em explicá-las por passos que vão de causa a efeito até à náusea. No meio, está a busca da virtude. Na minha experiência, já que é disso que se trata, esta é uma aprendizagem lenta e difícil. Aprender a calar, saber o que não dizer, não transmitir precipitadamente uma opinião. Ouvir chegar à consciência uma grande verdade, o mais das vezes ressentida ou vingativa e, ainda por cima, objectiva! E reprimi-la, actividade tão contrária a uma geração que viveu para a libertação. Mas vem a verdade objectiva, aí vem ela, o pensamento afirma-se supremo. Com essa grande verdade a consciência remexe-se de vontade de arremessar, de fazer ver, de convencer e esmagar pelo seu esplendor…E não, nada dirás. Sofre e abstém-te.

Mas como saber, de facto, o que não dizer? Como ganhar essa intuição? Ultimamente, não uma nem duas vezes, quando me ouvem começar algum monólogo indignado ou em que o zelo da transformação do mundo é demasiado evidente, interlocutores murmuram, aproveitando uma pausa que teria sido enfática, após uma pergunta que teria sido retórica, não fora o facto de eles murmurarem: “Bem, isso não sei”. Há muito a aprender com tal murmúrio. Primeiro, ele sabe que um monólogo zeloso tem uma de duas ou três fontes, ou uma indisposição passageira ou um sistema de ideias em rigidificação acelerada ou uma velha questão caracterial incurável. Ora, “bem, isso não sei”, dito de forma não-confrontacional, deixa o interlocutor em roda livre, sem combustível. A conversa é uma forma de combustão (seguem símiles, em combustão lenta, ou em lume brando, ou acesas e fogosas, etc.) e o que ela quer é continuar a conversar, com grandes verdades e sem grandes verdades. A Grande Verdade não serve o diálogo e essa é talvez a lição socrática por excelência. A verdade da grande verdade é que é uma conversation stopper. E o interlocutor vê-se forçado a amochar. Há, convenhamos, interlocutores belicosos, que respondem a uma grande verdade com outra verdade ainda maior, e sobem de tom e de parada, obrigando o conversation stopper a arrancar das profundezas uma verdade quase suprema…E isto não pode acabar de forma satisfatória para ambos.  Para isso precisam de saber o que não dizer. “Bem, isso não sei” afirma que se sabe o que dizer para que aquela conversa específica não continue a descer para o famoso “confronto de ideias”, esse horror dialógico, e se desvie para outras pastagens mais verdes. Sócrates disse que “só sabia que não sabia”. Não era preciso ir tão longe. 

Conversa de Mesa

Partilhe:
Facebook, Twitter, Google+.
Leia depois:
Kindle