“No primeiro de Janeiro de 2013, na sequência de umas Festas desconsoladas,  a senhora dona Maria Eulália Marques de Mendonça mandou pôr no jornal da terra um anúncio particular de quarto de página que dizia assim: “Sinto-me terrivelmente sozinha. Tenho uma casa enorme. Os meus amigos morreram, à excepção de um que está muito mal e os meus filhos estão longíssimo. Conterrâneos meus, estais todos convidados para um chá dançante no próximo domingo, dia 6, pelas dezassete horas.” Trofa – a Trofa que era alguém - partiu-se ao meio: a metade Norte julgou a fidalga senil, a metade Sul, que tinha uma melhor recepção da televisão terrestre, encheu-se de uma curiosidade excitada. Mas ninguém apareceu no domingo.”

Tocou um telemóvel. E a nossa amiga, em vez de ter o cuidado de se levantar da mesa e ir atender alhures, repetindo “espere só um bocadinho, só um bocadinho!”, envolveu-se num número circense de fios e auriculares, que ora se metiam no ouvido, ora caíam do ouvido, de tal forma gesticulado e trabalhoso que fez de nós logo ali uns espectadores. A notícia era grave, embora remota, foi transmitida com o devido dramatismo e reduziu-nos ao silêncio. Meteu-se entretanto a sobremesa e não se falou mais no chá dançante. Há que reconhecer algum sentido de oportunidade ao toque do telemóvel. Não sendo o fim da história, o facto de ninguém aparecer no tal domingo era sem dúvida o fim de uma parte, tinha o aspecto de uma auto-contenção. Era uma coisa atómica.

Pensei nisso um dia destes quando retomei a leitura de Kleist e percebi que o chá dançante começava com uma óbvia alusão à forma como a Marquesa de O. procurava o pai do filho dela.  Seria a história do chá dançante mais uma destas infinitas declinações do tema Vida imita Arte? Que queria ele ao certo com a história de uma fidalga que revelava a sua solidão pela via do anúncio regional? Voltei a ouvir a voz do amigo que relatava o texto: “terrivelmente sozinha, casa enorme, morreram todos menos um, estão longíssimo!” A chave estava na hipérbole, claramente, mas seria dele, a hipérbole, do que contava, ou seria dela, da fidalga? Vamos que era dela. Imagine-se então o chá dançante! A Trofa Norte, a Trofa Sul, a Trofa em peso assomando a terraços seiscentistas, trocando frases em galerias gélidas cobertas de itens ancestrais, dançando compacta o foxtrot no salão da lareira, espalhando restos de canapés, de hors d´oeuvres – assim fala a nobreza ainda! – pelos tapetes para o efeito arredados, mas não o suficiente, que a dona de tais bens não tem quase ajuda. Porque será que a nobreza solitária dança sempre o foxtrot? Eulália, num vestido direito de lantejoula negra, ousado um pouco acima do joelho, de reveladora manga à cava manifestamente senil (era o Norte que tinha razão!), clamando pelo chá, no meio do bruá-á, pelo chá de folha especial, mistura única de chinês, de japonês, de nepalês…E o aroma? Intenso! E a chávena? Gigante! E o bule para dar de beber à Trofa? Imenso! E o pão-de-ló? Monumental! Uma banheira! Eulália pela porta entreaberta, entre a copa e o salão, observa a festa, o seu chá dançante. Um sucesso. Ora, digam lá o que disserem, ela ainda está muito capaz de dar festas divertidas! 

Conversa de Mesa

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