Sobre uma recensão estranha na Forma de Vida

Joshua Landy

Imagine, por cortesia, o seguinte cenário: dois académicos vão ao ginásio juntos. Ela é fanática do fitness e conhece todos os aparelhos e todos os treinadores. Ele, por contraste, nunca entrou num ginásio na sua vida. Vendo todo aquele equipamento estranho, o neófito pergunta à amiga, «o que devo eu aprender com tudo isto?»

«Aprender?» responde ela. «Não é suposto que aprendas seja o que for. É suposto que fiques em forma.»

«Aha,» diz ele, «apanhei-te! Aquilo que se aprende é que é suposto ficarmos em forma. Agora podemos ir para casa.»

Espero que este diálogo vos pareça tão bizarro como me parece a mim. É possível, suponho, que haja algumas pessoas no mundo incapazes de imaginar que seja o que for tenha alguma função para além da de emitir algum género de mensagem. Mas, felizmente para o resto de nós, existem no mundo muitos géneros de coisas assim. Um gelado não emite qualquer mensagem; é apenas delicioso. Os comboios não emitem qualquer mensagem; apenas nos transportam aonde precisamos de ir. Aparelhos de ginásio não emitem mensagens; apenas nos ajudam a ficar em forma.

Até semióticos da linha dura, que provavelmente encontrariam alguma maneira de ver uma mensagem naqueles fenómenos (e.g. “os comboios simbolizam o compromisso ostensivo do governo com o ambientalismo”) ver-se-iam forçados a admitir que tal não é a única função de comboios, aparelhos de ginástica ou gelados, nem, de facto, a principal função de comboios, aparelhos de ginástica, ou gelados. A sua função primária não é a de dizer alguma coisa; é a de fazer alguma coisa. 

Isto deveria ser óbvio, mas, aparentemente, não é. Publiquei recentemente um livro intitulado How to Do Things with Fictions, no qual defendo que certas obras literárias servem como campo de treino para os seus leitores. De maneiras diferentes, sugeri nesse livro, estas obras encorajam-nos a realizar certas actividades mentais, e recompensam-nos, se as realizarmos, aumentando a nossa perícia numa dada área. O Górgias de Platão, por exemplo, permite-nos treinar a capacidade de detectar e corrigir falácias lógicas, apurando, desse modo, as nossas capacidades enquanto filósofos; ficções auto-reflexivas habituam-nos a adoptar uma atitude dividida em relação a um dado estado de coisas, facilitando-nos assim a possibilidade que manter ilusões optimistas sobre a vida; e por aí em diante. Do mesmo modo que diferentes aparelhos de ginástica nos ajudam a tonificar músculos diferentes, determinados textos (e grupos de textos) permitem-nos afinar capacidades mentais diferenciadas.

Imagine, pois, a minha surpresa, ao encontrar, ao abrir um número recente da Forma de Vida, a seguinte declaração acerca do meu livro: “Sobre essa questão propriamente dita — a questão sobre as coisas que fazemos com ficções — o livro diz-nos muito pouco, nem sequer o que ele, Landy, fez com as ficções de que fala. Em vez disso, descobrimos que o livro é, de facto, sobre o que certos textos querem dizer.” É difícil saber como responder a uma coisa deste género; seria como Kant responder à alegação de que os seus livros nunca usam a palavra “razão”. Bastará dizer que menciono as capacidades de (1) detectar falácias, em Platão (ver acima); (2) detectar padrões, em Mallarmé; (3) acreditar e duvidar simultaneamente, em espectáculos de ilusionismo; (4) justapor argumentos e contra-argumentos, em Beckett; (5) acompanhar informação social, em Austen; (7) dominar a linguagem própria de parábolas, com base no Evangelho segundo Marcos; e, além destas, muitas outras capacidades. Isto refere-se não somente àquilo que fiz, pessoalmente, com estas obras; mas também àquilo que, segundo defendo, explicitamente, deve ser feito com cada uma destas obras. E em cada um destes casos, o que se passa é diferente de extrair um significado.

Na realidade, reconheço que é necessário não perder de vista o nível semântico de um texto para sabermos aquilo que ele pretende de nós. Tal é, no entanto, como defendo no livro, meramente instrumental. Recorde-se o exemplo pelo qual começámos: é, de facto, necessário saber que aparelhos de ginástica são benéficos para os seus músculos, e que não funcionam a não ser que os use, mas tal conhecimento é absolutamente inútil se permanecer no sofá a ver televisão. (É aliás muito fácil obter tal informação, e dificilmente se imagina que alguém não a possua antes de entrar num ginásio.) Aqui, de maneira similar, o leitor poderia decerto ver nos textos de Platão a emissão de uma mensagem, de acordo com a qual é bom detectar falácias, mas esta informação é absolutamente inútil a não ser que façamos alguma coisa a esse respeito. E o verdadeiro sentido dos diálogos (do período transicional) de Platão é o de nos conduzir a fazer esse trabalho. Aquilo que, fundamentalmente, pretendem de nós é uma actividade, não aprendizagem. Uso, não compreensão. Levantar os pesos, não apenas pensar a respeito deles.

O que dizer, então, acerca da alegação, na recensão, de que “na verdade, não há propriamente uma dicotomia proposta por Landy entre o sentido (que aparentemente ataca) e o uso (que defende); o seu argumento é o de que existe uma maneira de ler certas ficções, e portanto ‘fazer com’ inclui-se na ideia geral de ‘sentido’.”? Não sei que dizer, em parte por não compreender como pode o uso ser considerado sequer uma subcategoria do significado. (Imagine que alguém lhe diz, “sim, estás a usar esse martelo para espetar um prego, mas isso é apenas um modo especial de ele te enviar uma mensagem”.) Posso afirmar, pelo menos, que, de facto, proponho no livro uma dicotomia entre significado e uso. O autor da recensão pode não gostar dela, mas tal não é razão para alegar que ela não existe.

Talvez se trate de uma confusão da sua parte, que o levou a fazer uma terceira alegação surpreendente a respeito do meu argumento. Notando que eu — como muitos teóricos —parto do princípio de que obras literárias exigentes incluem pistas acerca do seu uso adequado (aquilo a que algumas pessoas chamam um “manual de leitura”), o autor da recensão ataca a própria noção de instruções: “Como as encontro? Com as instruções. Assim não vamos longe.” Mas, uma vez mais, considere-se o ginásio, no qual vários aparelhos de ginástica apresentam instruções em letra impressa. Estas instruções explicam como usar os aparelhos, e não a ler as instruções. Não precisamos das instruções para compreendermos as instruções; precisamos delas para saber como levantar os pesos. Da mesma maneira, as obras de que falo contêm pistas ao nível do conteúdo que devem ser usadas para uma actividade mental ao nível da forma. Não é preciso o manual para se perceber o manual, uma vez que o manual é um guia para o uso, não um guia para a compreensão.

Estas foram as minhas primeiras três surpresas ao ler a recensão da Forma de Vida. A quarta, porém, superou todas as anteriores. O meu livro, segundo aprendi, nunca chega a especificar realmente as capacidades que são treinadas. “Nunca é muito claro no livro de Landy quais são exactamente estas habilidades, mas percebemos que têm que ver com capacidades de interpretação ou de relacionar ideias (ou o muito vago ‘saber pensar’)”. Esta é uma alegação particularmente bizarra, visto que, de facto, enumero, em lista, diversas capacidades altamente específicas, poucas das quais têm muito que ver com capacidades interpretativas. Nessas capacidades, estão incluídas (1) a capacidade de manter as próprias ilusões; (2) a capacidade (do cepticismo antigo) de identificar e desdobrar argumentos opostos; (3) a capacidade de lidar com informação social (à la Lisa Zunshine); (4) a capacidade de olhar criticamente para o que encontramos no mundo social ambiente (à la Brecht); (5) o manuseio (passivo e activo) de discurso figurado; e (6) a capacidade de manter múltiplas hipóteses em jogo. 

Quanto a “aprender a pensar”, essa é, de facto, a formulação que uso na introdução, mas qualquer leitor que chegue até ao capítulo sobre Platão verificará que ela se vai tornando consideravelmente mais aguda: aí a encontrará analisada em (1) detecção de contradições internas; (2) detecção da falácia do meio não distribuído; (3) detecção de um reductio ad absurdum potencial; e, por extensão, a detecção e rectificação de outras falácias lógicas específicas. É isto realmente “muito vago”? Se for esse o caso, não sei o que poderia eu (ou qualquer outra pessoa) ter dito para o tornar mais distinguível. 

Devo confessar que dizer tudo isto me faz sentir algo embaraçado. Sinto-me absolutamente grato por todas as recensões que recebi ao longo dos anos; positivas ou negativas, aprendi bastante com elas e nunca, até hoje, respondera a qualquer uma. Neste caso, porém, pareceu-me sentir algo diferente: não tanto uma recensão do meu livro, mas antes uma tentativa deliberada de o rescrever numa versão mais fraca, ou, na melhor das hipóteses, um objecto académico excepcionalmente tíbio. (Do meu ponto de vista, podemos ser um pouco descuidados se estivermos a ser simpáticos, mas não se atacarmos a jugular.) Espero, assim, que os meus leitores me perdoem se disser, como a fanática do fitness inicial, “é possível que não estejas a perceber; agora, senta-te no aparelho e começa a levantar pesos”.

 

Ainda o livro de Joshua Landy

Carlos A. Pereira

No seguimento da recensão que escrevi no passado número da Forma de Vida sobre o livro How to Do Things with Fictions, de Joshua Landy, o autor desse livro quis escrever um artigo de resposta no actual número desta revista contestando alguns pontos da minha recensão. Uma vez que o autor se mostrou perplexo com o meu texto, surge a necessidade do presente comentário por forma a esclarecer, espero, as suas dúvidas e as putativas dúvidas dos leitores. 

Mantenho precisamente tudo o que disse na recensão atenta e cuidadosa que fiz do livro de Joshua Landy, e, na verdade, limitei-me a apontar algumas incongruências visíveis à luz dos seus próprios termos. Apesar disso, no seu texto de resposta à minha recensão, Landy confundiu-me — vá lá saber-se porquê — com um adepto de uma teoria da ficção que defende a “moral da história”, ou coisa parecida. Posso dizer-lhe que está enganado a esse respeito e, aliás, não fiz nenhuma afirmação desse tipo ou sequer emiti qualquer mensagem com as minhas opiniões positivas sobre o assunto. Não me referi ao facto de a sua tese ser falsa e não formulei, nem discuti, teses alternativas. O que sempre esteve em causa foi o seu livro e aquilo que me parecem ser as suas dificuldades, que são de sobra. 

Seja como for, Landy, na sua resposta, diz-nos que nunca teve de responder a qualquer recensão ao longo dos anos. Isso pode querer dizer mais do que uma coisa, se o leitor pensar um pouco. Queixa-se também de ter sido alvo de um ataque incompreensível da minha parte, feito de afirmações inacreditavelmente diversas daquilo que é explícito no seu livro. Está, porém, a queixar-se de si próprio, e não é por dizer que faz assim que evita fazer assado.

Começo pela queixa relativa às supostas capacidades exercitadas na leitura de certas ficções. Aqui, a confusão é semelhante à de chamar “teoria da ficção” àquilo que realmente faz no livro, que não é mais do que uma interpretação literária de certos textos. Landy não tem qualquer teoria da ficção. Não se chama “teoria do gato” à ideia de que alguns gatos são pardos, e portanto não há qualquer teoria da ficção na ideia de que algumas são formativas, até porque seria preciso, além do mais, um critério para identificá-las e Landy não tem nenhum (nem podia ter). De modo parecido, não se percebe em que sentido estamos a falar de “capacidades” se a ideia é falar de coisas muito específicas e totalmente díspares entre si, e que, aliás, são descrições resultantes, apenas, de interpretações literárias. Mas, se Landy pretende, mesmo assim, chamar “capacidades” a todos aqueles itens específicos e díspares que enumera no seu texto de resposta (entre muitos outros que, no livro, atira em todas as direcções), podemos alegremente ajudá-lo no seu projecto e acrescentar à lista tudo aquilo que conseguirmos encaixar depois de “a capacidade de…” — que pode ir desde “…adormecer a contar carneirinhos”, a “…ultrapassar desgostos de amor”, a “…fixar datas de aniversário”, até “…perceber o Sr. Aníbal da pastelaria”. Tudo isto é capacidade mental, então. Quantas teremos? Centenas, milhares, milhões, um número incontável? Deixo ao leitor, se quiser fazê-lo, a tarefa de puxar pela cabeça para ajudar Landy com mais. Mas é fácil: equivale a pensar numa frase sobre qualquer coisa no âmbito de “pensar”. Como é evidente, não se pode julgar que, com isto, ficou alguma coisa esclarecida, excepto a óbvia dificuldade argumentativa. Além do mais, a ideia de especificidade em causa é tão absurda quanto imaginarmos a possibilidade de existir alguém que é excelente em somas, mas um zero à esquerda em subtracções. 

Quanto à questão do manual de instruções, limitei-me na recensão a apontar duas passagens mutuamente incongruentes do seu livro, que aliás citei, a saber: 

1) “each work […] contains within itself a manual for reading, a set of implicit instructions on how it may best be used” (p. 12).
2) “it is generally possible […] to find a work or two that fits the theory remarkably well, indeed that needs the theory in order to be fully appreciated” (pp. 6-8)

Se precisamos de vir armados com a teoria certa para ler bem um certo texto, mas se ao mesmo tempo as instruções para uma leitura adequada estão implícitas nesse texto, ou alguma coisa não está a funcionar, ou alguma coisa está a mais. Foi à luz destas afirmações, e não da ideia descabida de “instruções para ler instruções” — conforme Landy, agora, quer fazer crer — que a questão se levantou. O que os leitores gostariam de saber é: em qual delas ficamos? Se pretende manter as duas, deverá explicar de que modo as compatibiliza. Mas a minha suspeita é que, ou desmonta a bicicleta hermenêutica, ou pedala sem sair do sítio.

Finalmente, o equívoco principal — e, aliás, o mais elementar: a ideia de que, na leitura, há duas actividades distintas: ler e uma outra, fazer exercício. Trata-se da insistência de Landy em como, quando fala de função do texto, não está a falar do seu sentido, como se, por um lado, determinar a suposta função não fosse interpretar o texto (e é isso que faz ao longo do livro todo) e, por outro lado, como se perceber o que um texto quer dizer equivalesse a ser capaz de pronunciar as suas frases. Veja-se esta passagem (p. 119) muito esclarecedora do livro de Landy, a propósito do Simpósio, de Platão: 

While Aristodemus slavishly imitates the master’s habit of going barefoot (173b, 220b), Apollodorus, who has spent the last three years “ma[king] it [his] job to know exactly what [Socrates] says and does each day” (173a), triumphantly parrots the credo about knowing his own ignorance and spending his hours in dialectic

Portanto, Landy descreve duas personagens que, cada uma à sua maneira, imitam Sócrates como papagaios, e a palavra-chave desta passagem é, de facto, “parrots”. Eis a conclusão que, para nossa surpresa, Landy retira desta situação, logo a seguir (o itálico é meu):

The smug, self-satisfied Apollodorus, with his arrogance of humility, and the superficial imitator Aristodemus, with his affectation of asceticism, should immediately put us on notice: in order to profit from what follows in the Symposium, it is not sufficient to understand what is being said.

Mas em que sentido é que estas personagens terão percebido aquilo que é dito? Os papagaios de facto dizem coisas, mas não só não percebem aquilo que dizem, como não querem dizer nada. Como se pode avançar para a conclusão de que não basta perceber aquilo que é dito, quando o exemplo dado é justamente o de duas personagens que, cada uma à sua maneira, não percebem nada do que foi dito, nem percebem, realmente, aquilo que estão a dizer e a fazer? A única maneira de entender este raciocínio é considerar que Landy imagina, porventura, que “sentido” equivale a certos sons e certas manchas gráficas, e que “perceber o sentido” significa reproduzir certos sons e imitar certos gestos. Mas isto não faz sentido nenhum. E tanto não faz que, recorde-se, a ideia de “sentido do texto” era, para Landy, a ideia errada de uma mensagem escondida, contra a qual luta, e não a superfície das palavras. Na citação, porém, já é outra coisa — algo que, na verdade, nem tem nexo algum. E muito menos se percebe de que maneira é esse sentido de superfície “instrumental”, como se fazer de papagaio fosse preâmbulo de outra coisa subsequente. Nada disto bate certo.

Por outro lado, na resposta à minha recensão, Landy tenta esclarecer o que entende por “função” — distinta de “sentido” — através de analogias com comboios, máquinas de musculação e gelados. Comboios servem para transportar coisas e pessoas, máquinas de musculação servem para fazermos exercício, gelados servem para comer. Perfeitamente de acordo, se considerarmos o papel que estas coisas normalmente desempenham no quotidiano. O problema para Landy é que, nesse caso, os livros servem tão-somente para serem lidos. Não se segue mais nada das analogias, muito menos que os livros servem para fazer exercício específico, nem muito menos ainda que isso é uma actividade diferente de interpretar textos. E quanto aos comboios, máquinas de musculação e gelados, é evidente que podem ter um sentido. Oferecer um gelado a alguém, ou o mero facto de estar a comer um gelado, pode querer dizer muito. Uma flor, ou uma gargalhada, ou muitas outras coisas — incluindo até comboios, se contarmos a história relevante — podem querer dizer variadíssimas coisas. Aliás, basta observar a publicidade a todo o tipo de produtos para vermos como a tentativa de aumentar vendas está ligada à tentativa de veicular certos sentidos.

Isto é tão elementar e trivial que se torna difícil perceber de onde vem tanta confusão. Aliás, por alguma razão não trivial Landy escreveu um livro sobre ficções (melhor dizendo, sobre certas ficções) e não um livro sobre comboios ou gelados. É que a actividade a que se refere trata-se de interpretar textos, não outra coisa, e sobre isso, que parece ser tão importante, tem pouco ou nada a dizer. Sobretudo, não se entende a sua tentativa abstrusa de formar uma imagem dos livros como máquinas específicas — um Evangelho para bíceps, um Simpósio para deltóides, e por aí fora — e uma imagem dos leitores como uma espécie de culturistas ocupados com a exibição de músculos e desprovidos de ideias. Felizmente para si, mas infelizmente para o seu livro, está muito enganado.