Sei que poucas foram as vezes em que me senti inclinado para tirar e guardar fotografias em idade adulta, embora desde muito novo mantenha o hábito de ir à procura de fotografias de família. Não é exactamente ir à procura, sei bem onde elas estão, e por isso reconheço que o uso da palavra ‘procurar’ não é inocente: é que algo me faz crer, enquanto interrompo o que faço a determinada altura, que estou a questionar uma noção de tempo por si mesmo repetitiva, a comprometer-me com a ideia de um gesto talvez maior do que o meu dia, o de virar costas ao mundo, ao seu tempo, e logo rodeando-me desses rectângulos empedernidos, húmidos, de luz pouco esclarecedora, coisas que servem para demarcar momentos curiosos ou etapas decisivas no tempo. Nessas investidas de reconhecido temperamento nostálgico, não raras vezes sei que irei surpreender-me com o vislumbre do meu rosto numa das fotografias, enquanto as revejo, umas atrás das outras, com rapidez e um sentimento de culpa absurdo. Esta culpa vem da noção, talvez igualmente absurda, de estar a perder o mundo de agora com outro que já foi. A culpa vai-se afinando e torna-se mais difícil de sossegar quando tento o exercício de animar, após vários minutos de atenção, as pessoas que aparecem nas fotografias, bem como os objectos que parecem prender a sua atenção. Melhor (ou pior, como se preferir): ver de perto os rótulos das garrafas de refrigerantes em cima de uma mesa num aniversário de há muitos anos atrás, as formas dessas garrafas e de outras embalagens, formas que já não existem, ver o que sobra nos pratos, a disposição dos pratos e a sua razão de ser, perceber de que movimento destemperado poderão ter surgido as nódoas na camisola de um ou outro convidado, de onde terá soado a graça de que todos parecem rir. E depois, o exercício predilecto: tentar entender o que me retinha o olhar atento, aquela pose tão convicta. De há uns tempos para cá, tiveram a ideia, cá em casa, de organizar o que eram vários montes de fotografias de tamanhos diferentes, antes encontradas dentro e fora de acetatos, caixas e gavetas, juntando-as assim em cinco álbuns castanhos de capa dura, por ordem cronológica. Agora sei onde posso encontrar as fotografias, e também sei que umas estarão a fazer uma companhia especial a outras: o aniversário, isto é, as várias etapas da celebração, o banho de um dos irmãos, a continuação do banho, agora com braços e mãos diferentes a surgirem na banheira e na fotografia, a visita ao jardim zoológico, o piquenique, algures também no jardim zoológico, a viagem a Cabo Verde, o barco em que estamos todos, primeiro um, depois o outro, depois todos nós em Cabo Verde. Mas antes desta ordenação das fotografias, eu não reparava logo em ‘1984, Viagem Cabo Verde’, nem em ‘Festa aniversário, D., 1987’, ou ‘D. e prima, casa de X.’ A catalogação, por mais primária que seja, forçou uma direcção de sentido e emperrou-me nela. A minha surpresa, que vinha de mergulhar as mãos num grande amontoado de fotografias, era a de olhar para cada uma delas impelido pela necessidade da procura, e essa necessidade em mim não era dada a catalogações, datas ou ocasiões. A surpresa não podia vir de nada que encontrasse nas fotografias: vinha da mera necessidade que sentia de ser surpreendido. Se me levantasse do chão e olhasse pela janela, não seria a mesma coisa: nesse caso, mesmo a pessoa mais distante, avistada com o seu saco de compras, faria um certo sentido no tom geral da minha disposição. Mas com as fotografias é diferente: o facto de elas existirem representa já a ideia de interrupção. Basta pensar em alguém que achou por bem achar algo de exemplar no seu dia, e que marcou a projecção dessa exemplaridade para um dia futuro. Talvez as fotografias possam não ser mais do que isto: pedaços de diversão que nos lembramos de fazer para escaparmos à verdade trivial de que o tempo anda connosco, mas de costas voltadas para os nossos queixumes, para as aflições que o têm como objecto. A questão é, mais uma vez, a da ordenação: quem revisita um álbum de fotografias pode dizer que está, de facto, a fazer alguma coisa que faça sentido no seu dia. Poderá assim justificar esta revisitação a outra pessoa com frases como: ‘Hoje, estive a ver as fotografias daquela vez em que fomos a X.’, ou ‘Estive à procura de fotografias em que o nosso primeiro carro aparece’. Também pode ser a resposta para um devaneio: ‘Estava aborrecido e deu-me para ir ver aquelas fotografias de quando nos conhecemos’. A diferença, no caso da revisitação das fotografias desordenadas, torna-se evidente numa certa sensação de tempo perdido quando nos cansamos de as rever. Há, no entanto, também uma sensação de tempo preenchido, mas torna-se difícil distinguirmos o que o preencheu, e por isso será difícil dizer que se fez alguma coisa no tempo, talvez pela presunção de se ter achado, nesse dia, que era possível fazer alguma coisa com o tempo. Ir à procura de fotografias sem um objectivo mais ou menos claro poderá indicar que estamos inquietos com a própria noção de tempo. O confronto aleatório com fotografias do nosso passado representa, de cada vez, uma exclamação de espanto direccionada, não para aquilo que foi o nosso tempo (passado, perdido, esquecido, celebrado), mas para este tipo de inquietação. Claro que, neste sentido, as fotografias revisitadas são apenas um pretexto para o entretenimento que mantemos com convicções, crenças ou dúvidas particulares, e que pouco ou nada têm a ver com ocorrências do passado. Encontradas assim, a partir da necessidade de entretermos as nossas mentes, elas podem parecer estranhas, isto porque são acidentais, notas à margem desse reconhecimento momentâneo que fazemos de nós mesmos. No entanto, o confronto com os nossos pensamentos nunca seria o mesmo sem essa revisitação, aparentemente trivial e sem uso, das várias fotografias de família. Estivemos ocupados a pensar naquilo que pensamos que somos nesse momento, e por acaso temos uma série de fotografias entre mãos. O gesto de passar as várias fotografias representa o vínculo que mantemos com o grau de absorção nos nossos pensamentos. Não existe um trabalho do passado enquanto passado: ele interfere na percepção do presente, transformando-o. É do estranho resultado desta interferência que surge o encanto particular das fotografias de família. Ali estamos nós, os conhecidos: nós, afinal, os desconhecidos para os queixumes e aflições que reservámos para este dia. 

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