Há uma entrevista em que Richard Rorty explica que se dedica a observar pássaros principalmente porque vai na expetativa de ver uma espécie rara, num espírito portanto muito próximo daquilo a que ele chama (e bem) “instinto de colecionador”. Percebo-o mas, se tiver de encontrar as minhas próprias razões para observar pássaros, não é aí que vou parar.

De facto, a razão principal que me fez descobrir bem tarde esta paixão resume-se toda numa palavra: proximidade. Tanto quanto consigo entender, a palavra aplica-se aqui em três ou quatro sentidos diferentes, mas todos necessários.

O primeiro é em geral o da proximidade a que, a dada altura, passei a estar de certas espécies de aves que nunca antes tinha visto em meio selvagem (digamos assim). Flamingos, garças e outras espécies que não sabia distinguir nem nomear, avistadas no estuário do Tejo, em bandos muito numerosos, tornaram-se irresistíveis — para dizer tudo com simplicidade. A ideia de ver de mais perto (e menos fugazmente do que permite a velocidade do carro ou do autocarro) foi-se tornando obsessiva, mesmo muito antes de começar as caminhadas para esse fim. O episódio que desencadeou a série das observações foi o de uma aproximação inesperada de garças brancas que pareciam estar a escolher uma árvore para passar a noite — isto numa tarde em que ali perto se reunia um certo número de pessoas para festejar ao ar livre o aniversário de uma criança. De súbito, as garças (com a sua elegância, a sua beleza, mas também a sua timidez, reserva e considerável tendência para o alarido) estavam mesmo ao nosso lado no exercício das suas ocupações quotidianas.

O segundo sentido foi o da proximidade familiar e afetiva. É o lado um pouco triste desta história, visto que a família se separou e eu estou aqui a lembrar uma parte muito importante da felicidade que vivemos juntos. Éramos três e raramente, durante quase três anos, algum de nós foi ver pássaros sozinho (e raramente alguém mais nos acompanhou). Isto para dizer que muito do meu entusiasmo foi um entusiasmo de amor, sempre acompanhado pela sensação de que a proximidade entre nós crescia muito nestas jornadas pelo meio das salinas, das marinhas, dos campos, da praia fluvial, na mira de alfaiates, abibes, águias, íbis ou corvos-marinhos. Dois adultos e uma criança apaixonados pelos pássaros (e uns pelos outros) não se cansam destes passeios que no entanto podem ser bem cansativos. Dos três, eu era o único que não fotografava — ou quase nunca. Partilhava, de fora, aquelas dificuldades de captar sobretudo os pássaros pequenos e o triunfo que para uma criança de oito ou nove anos de idade representa fazer, no fim, uma bela série de imagens com um tecelão-de-cabeça-preta a desfazer o seu ninho.

Um terceiro sentido da proximidade é o que diz respeito ao mundo dos pássaros em si mesmo. Numa dada fase, comecei a notar que tinha uma influência muito grande o ambiente em que ficava mergulhado assim que chegava ao local escolhido. Não se ouve barulho quase nenhum, salvo um ou outro grito ou pio de ave numa extensão muito ampla e, por vezes, o correr de água ou algum restolho pisado. Fora isso, silêncio. No estado atual das coisas, o silêncio é uma saída do mundo humano, pura e simplesmente, uma experiência não humana. Foi ao sentir isto que comecei a ver até que ponto me tinha aproximado do mundo dos pássaros e como nunca tinha de facto conseguido imaginá-lo enquanto mundo muito diferente do dos animais humanos. Este deslize da sensibilidade — do olhar para o ouvido — é suficiente para acabar com as ilusões (chamemos-lhes modernistas) de que a “natureza” acabou ou de que já nada existe além de uma reserva de recursos para consumo humano. É o contrário: os animais estão aí, mesmo ao lado e, em grande parte, fazem tudo para preservar a independência do seu mundo em relação à violência da intrusão humana ou até para explorarem em seu benefício os espaços que os homens organizaram para os seus próprios fins. Flamingos ou colhereiros que debandam, se veem reduzida a larga distância a que gostam de nos conservar; galeirões que voam para vinte ou trinta metros mais longe, se sentem que abusamos da confiança com que flutuam em largos grupos nas águas dum lago — tornam-se animais respeitáveis só por essa sobranceria com que impõem a regra da observação de que na verdade nunca são os meros sujeitos passivos que a palavra “observação” de alguma maneira sugere. Eles também nos observam e, em muitos casos, com uma atenção bem superior àquela com que somos capazes de os contemplar.

Por fim, a proximidade tem um efeito de conhecimento íntimo, que é o mais surpreendente para quem não passa de um amador destas coisas. De facto, não há pássaros que não variem em maneira de ser individual e, portanto, o que vai acontecer numas horas de visita aos pássaros é, em rigor, imprevisível. (À exceção, talvez, do encontro dos cartaxos nalgum poste ou ramo bem saliente, porque o cartaxo, de facto, é vaidoso, gosta que olhem para ele, deixa-se fotografar à vontade e está absolutamente certo de que ninguém está sequer a pensar em fazer-lhe mal. É um pequeno animal cheio de autoestima.) Quem adivinharia que vai encontrar um corvo-marinho que se deixa ficar bem exposto, quase provocador, mesmo ali a seis ou sete metros de distância, enquanto apanha sol num dia de primavera em cima dum pau enterrado no lodo, se normalmente eles levantam voo da água mal sentem um fotógrafo escondido no meio da folhagem? E quem pode imaginar que um guarda-rios se deixe estar quieto, quando só se lhe costuma ouvir o canto e ver rapidamente a plumagem azul a fugir rápida por cima das águas, entre uma margem e outra? Ou quem diria que pode assistir a um combate no ar entre duas águias, poucas dezenas de metros à frente, quando nos três meses anteriores não tinha conseguido avistar nenhuma senão a altitudes que as tornam desesperantemente abstratas? Chegar a perceber que os pernilongos estão a gritar muito mais porque têm crias nos ninhos ou que um certo chapim-azul não se importa de brincar às escondidas com o visitante, mesmo não vendo crias nem ninhos em parte nenhuma, nem fazendo a menor ideia se os chapins brincam ou não brincam — é já uma fase em que, do próximo, passamos ao limiar do íntimo. 

Nessa fase, estranhamente, os pássaros começam a oferecer-se-nos, atravessam-se-nos ao caminho nos sítios mais inesperados (no meio da cidade, até) e curam eles mesmos a leve angústia que sentimos quando deixou de haver tempo para sair de propósito ao encontro deles. E é o que nos salva.