É provável que o editorial de Jon Baskin, Jonny Thakkar e Etay Zwick publicado no nº 8 de The Point pareça, aos leitores mais experimentados neste tipo de discussão, um caso relativamente regular de defesa dos estudos literários na universidade perante uma ameaça típica que, pouco mais ou menos, coincide com as ambições expansionistas do discurso dito «científico». Não consigo ascender a uma atitude tão relaxada.

O que me parece que está aqui em jogo é um processo (e um problema) a que se tem dado pouca atenção e que não creio que tenha melhor designação do que esta: o avanço da estupidez na universidade.

As razões que obrigam ao uso da palavra «estupidez» são óbvias. É evidentemente estúpido, em primeiro lugar, um psicólogo (Steven Pinker ou outro qualquer) vir falar, seja a que propósito for, em nome da ciência, como se a psicologia, por usar meia dúzia de métodos quantitativos, por abusar de gráficos ou por incluir prática clínica, tivesse alguma relevância científica especial. Não precisamos de ser como certos médicos que chamam aos seus colegas psicólogos «os bruxos», mas negar a componente fortemente especulativa e interpretativa da psicologia (em qualquer um dos seus ramos) seria como negar que os estudos literários tivessem alguma coisa a ver com poemas e romances. Esta estupidez, ainda assim, é compreensível: a psicologia esforça-se de vez em quando por fugir à sua velha e inelutável dependência das humanidades, em particular da filosofia. Através de Pinker, esforça-se por inversão (como se já estivesse fora das humanidades), mas nem assim deixa de ser um esforço vão e patético, que aliás não é exclusivo da psicologia.

A segunda razão é que é igualmente estúpido (mas muito menos aceitável) que um académico, como Pinker, esqueça por poucos minutos que seja aquilo que diferencia os vários domínios de saber e pensamento que convivem no espaço universitário, sugerindo que há vantagem em regê-los todos pela mesma cartilha. É certo que no seu texto para o New Republic nunca parece ser uma posição tão radical e homogénea aquela que defende, mas a ideia de que a abertura à ciência é a salvação para o futuro das humanidades significa, na prática, que as humanidades já não têm nada que as suporte por si mesmas. Ou seja, que caducaram. As únicas humanidades válidas seriam as daquilo a que Pinker chama «humanismo científico», um fantasma que, além de ser ainda mais informe do que aquele a que ele chama «pós-modernismo», assenta na crença de que a «ciência», só por existir tal como é, contribui para o bem da humanidade. Aquilo com que Pinker sonha (e o psicoterapeuta dele, em certo nível de análise, explicará esse sonho melhor do que eu) é com um mundo universitário onde a crítica dessa crença fosse inaceitável e inexistente.

São menos óbvias talvez as razões por que se deve falar aqui em «avanço» da estupidez na universidade. Sabemos que a estupidez nunca foi alheia à universidade. Mas é exatamente porque a estupidez progride agora sob a figura e o nome da «ciência» e tende a fazê-lo com força e sofisticação inusitadas, que penso que o substantivo «avanço» é o mais adequado: há hoje na universidade, em geral, uma estupidez avançada que, como acontece nos argumentos de Pinker, parece valer-se de conhecimento muito atualizado para impor padrões de pensamento, métodos de trabalho, finalidades sociais e critérios de legitimação que não pretende de maneira nenhuma sujeitar a debate e a refutação.

A situação requer atenção constante, mas enquanto a universidade produzir poderes de análise crítica equiparáveis aos de Baskin, Thakkar e Zwick e enquanto vá havendo sítios como The Point para publicar os resultados desse exercício crítico nada se pode dizer que esteja mesmo mal com a sorte das humanidades. Elas cumprem a sua missão quando quem por elas passa consegue desmantelar as falácias «científicas» que procuram, afinal, suprimir o que no pensamento literário, na filosofia e nas ciências humanas há de imprevisível e de incontrolável. É certo que o texto de Steven Pinker não é, em última análise, nada senão uma manobra publicitária sem qualquer valor para o futuro dos estudos humanísticos. Mas não por acaso Baskin, Thakkar e Zwick o imaginam a beber Chardonnay com reitores e pró-reitores. No texto da discórdia, que já mencionei acima, Pinker é particularmente conspícuo a negar quaisquer implicações políticas da atividade científica um sinal inequívoco (tal é a grosseria da mistificação) da intencionalidade sobretudo política do seu discurso. Também não é por acaso que ele faz ecoar tal discurso nas páginas de um jornal, silenciando em supostos «clichés» todos os argumentos e pontos de vista que lhe são adversos.

Se virmos bem, esta discussão sobre as «humanities» nos EUA é uma manobra de diversão levada a cabo para evitar a discussão sobre a universidade e aquilo em que ela corre o risco de transformar-se. Os próprios Baskin, Thakkar e Zwick fornecem, ao longo da sua argumentação, exemplos lamentáveis do que se passa em lugares universitários tão importantes nos Estados Unidos como Harvard, Duke ou Stanford. O pior cenário possível seria aquele em que, independentemente das áreas de saber, a estupidez avançada se revelasse, no estado de coisas atual, uma doença autoimune do sistema universitário. (É por receio desse cenário que hesito em desenvolver aqui a minha proposta pinkeriana para resolver o problema da falta de alunos em Engenharia Civil, salvo indicar que é urgente introduzir lá precocemente o ensino da desconstrução. Mas fica para outro dia.)

Não há todavia vantagem em cultivar o pessimismo académico. Por isso, termino com duas observações bastante clássicas que representam a minha confiança na instituição e na sua capacidade regeneradora.

A primeira para dizer que o discurso de Pinker deve ser lido na sua cadeia de determinações norte-americanas, uma cadeia cuja história pode remontar a ninguém menos do que Ralph Waldo Emerson. Lembremos que um dos ensaios mais famosos de Emerson, The American Scholar, foi proferido em 1837 perante a Phi Beta Kappa Society em Cambridge e que, perante tal audiência académica, Emerson escreveu isto que tomo a liberdade de traduzir:

Há indubitavelmente uma maneira certa de ler, para que esta se mantenha firmemente subordinada. O Homem Pensante não pode ser dominado pelos seus instrumentos. Os livros são para as horas de ócio do universitário. Quando se pode ler Deus diretamente, a hora é demasiado preciosa para ser gasta com as transcrições que outros homens fizeram das suas leituras.

Não sei se há uma maneira certa de ler esta passagem, mas há pelo menos uma maneira cujo resultado são as ideias de Steven Pinker. Porque não haveria problema nenhum com as «humanities» se estas não fossem basicamente constituídas por livros e pela prática de ler livros. Ora, se Emerson, suposto discípulo de Montaigne e confesso admirador de Swedenborg, pensa dos livros e da leitura isto que aqui está, veja-se o que pode pensar um homem para quem a própria linguagem é um instinto (cf. Pinker, The Language Instinct, 1994). Resta acrescentar que nem Emerson nem Pinker são coerentes neste ponto, mas não é possível ser-se coerente neste ponto.

O recurso histórico-literário não é o único para lidar com a estupidez avançada. O outro é aquele que nos caracteriza, a nós, «humanistas» modernos que não temos a piedosa ilusão de Emerson de poder «ler Deus» diretamente onde quer que seja. Isto é, a bibliografia com que ainda estamos a aprender. Neste caso, a básica é mesmo constituída pelo ensaio de Avital Ronell: Stupidity, University of Illinois Press, 2002.

Cito-a a fechar e no original, simplesmente porque Avital me parece bem clara: «All we know at this juncture is that stupidity does not allow itself to be opposed to knowledge in any simple way, nor is it the other of thought.»

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