Qual é a fisionomia das nossas coisas favoritas? Ao pensar na resposta, vejo criaturas híbridas ou até monstruosas, como personagens de sonhos. Uma galeria tão esquisita quanto familiar. Tal como não se pode fotografar as personagens dos nossos sonhos, nenhum retrato das nossas coisas favoritas poderia capturar de maneira adequada a imagem dos seus autores nas nossas vidas. Vejo, não os seus rostos humanos fotografáveis, mas antes figuras compósitas com certas parecenças entre si. Essas parecenças são a expressão de um parentesco sui generis

Pode haver uma certa sobreposição entre as galerias de heróis de pessoas diferentes, mas, para ser fiel a este exercício de imaginação, talvez haja uma certa incoincidência de aspecto naquilo que cada pessoa vê ao pensar nas mesmas figuras. Claro está, a transformação inverosímil de Vlad, O Empalador, em Conde de Kontarr precisará de ser entendida em relação ao desfiguramento do Drácula de Bram Stoker em Drácula de Bram Stoker de Bela Lugosi, e não em relação ao Drácula de Bram Stoker de Coppola — e muito menos ao de Nosferatu. Mas sugerir que o Conde de Kontarr é, no fundo, o Drácula de Bela Lugosi da Rua Sésamo é apenas como falar, como John McDowell, no Kant do Hegel de Brandom. É possível que a imagem que formamos dos nossos heróis tenha origem numa certa genealogia de paralaxe. Talvez a fisionomia das nossas coisas favoritas seja, por natureza, a de criaturas mais ou menos desfiguradas. 

Por vezes sonhamos com um conhecido cuja fisionomia no sonho difere radicalmente da sua fisionomia natural. É espantoso (e misterioso) que o reconheçamos, afinal, como aquela pessoa — por exemplo, o meu primo direito — apesar do seu aspecto irreconhecível por comparação com a versão animal ou fotografável desse primo direito. No sonho, embora se pareça com Elvis, tenho a certeza de que x é o meu primo, mas, ao lembrar-me do sonho, não se parece nada com o meu primo. Se pudéssemos mostrar a um estranho a fisionomia das nossas coisas favoritas, é provável que obtivéssemos o mesmo género de reacção.

É interessante, além disso, que pareçam existir semelhanças entre os elementos quase sempre tão díspares da nossa galeria de heróis pessoal. Ao referir-me a um parentesco sui generis inclino-me a pensar, em parte, no género de comunidade de semelhanças que nos permite reconhecer parecenças de família entre e.g. personagens da Rua Sésamo. Falar de tais semelhanças requer, em todo o caso, algumas qualificações. Afinal, que género de semelhança relevante poderemos afirmar que existe entre e.g. Aristóteles e Michael Jordan? A entrada para uma galeria de heróis não tem uma explicação comum para todos os casos, a relação entre os quais, sendo por vezes relativamente discernível, pode ser muito remota ou até inexistente. Todos somos uma casa com muitas divisões. Pode não haver qualquer parecença necessária entre o meu Aristóteles e o meu Michael Jordan. Admiro-os por razões muito diferentes, aprendidas em alturas muito diferentes.

Poderemos, então, a respeito das semelhanças entre as personagens das nossas galerias pessoais, falar por analogia com — por hipótese — as semelhanças entre um Michael-Jordan-de-Rua-Sésamo e um Aristóteles-de-Rua-Sésamo (i.e. figuras com certas parecenças de família)? Talvez a tentativa de dar uma fisionomia às nossas coisas e pessoas favoritas tenha o perigo de lhes imputar parecenças desnecessárias, como alguém que, seja por estilo ou incapacidade, não desenhe senão um certo tipo de caras. (Imagine-se um jantar para o qual convidei os meus autores favoritos. Um deles chamar-me-ia à parte, notando, algo apavorado: “Têm todos a tua cara!”, ou, pior ainda, “Todos se parecem com Aristóteles!” — mas não, provavelmente, “Todos se parecem comigo!”)

Interrogo-me, porém, se a maneira como integramos esta ou aquela pessoa, ou animal, ou artefacto, nas nossas vidas (seja na qualidade de heróis, modelos, vilões, rivais, adversários, objecto de desejo ou de cobiça ou de escárnio, personagens secundárias, peça da mobília, etc.) não requer, para todos os efeitos, uma constituição por semelhança, por assim dizer. É muitas vezes comentada mas nunca suficientemente aprofundada a maneira como certos donos não apenas se assemelham com os seus cães, como se vão tornando progressivamente mais parecidos com eles. É uma domesticação inversa e, em geral, inadvertida. Se quer conhecer uma pessoa, olhe para os animais dela. É irónico que ao transformarmo-los num monumento mais ou menos involuntário de nós mesmos (muito frequentemente, dos nossos defeitos), ocorra um ajustamento recíproco, particularmente visível a respeito de relações com cães. O dono assimila aspectos do seu cão — e adquire mesmo, em casos extremos, uma fisionomia de cão: uma certa expressão. 

Por analogia, não deixa de ser curiosa a simetria seguinte. Enquanto assimilarmos a fisionomia e a expressão daqueles que admiramos é, na maior parte dos casos, involuntário e motivo de certo embaraço (e.g. jogar basquete com a língua de fora como Michael Jordan, etc.), apagarmos semelhanças que identificamos entre nós mesmos e aqueles que desprezamos tende a ser um processo consciente, deliberado e mais ou menos doloroso. Ainda mais doloroso, quem sabe, é o de corrigirmos semelhanças com aqueles que admiramos. Nalguns casos, é um modo importante de autonomia; noutros casos, pode ser um modo de ressentimento e ingratidão. Não se verifica aqui, no entanto, o mesmo género de domesticação inversa atrás aludido: as vidas de Michael Jordan e Aristóteles são, neste sentido, impermeáveis à minha fisionomia (o que, por razões históricas, não admira). 

Convém, todavia, regressar à questão da sua fisionomia relativa. Tal como, por razões fundamentalmente pessoais, o meu Michael Jordan é diferente do de Kobe Bryant, o meu Aristóteles pouco se assemelha com o de Umberto Eco (e o meu Umberto Eco pouco se assemelha com o da revista VS). É um facto relativamente trivial mas, apesar disso, importante, a respeito das comunidades humanas, que pessoas diferentes admirem as mesmas coisas por razões diferentes. Imagine-se um jantar para o qual convidei todos os admiradores de Vlad, O Empalador. Aceitarem o meu convite não significa que exista necessariamente um acordo de razões e disposições a respeito dele, ou uma coincidência exacta de fisionomias de drácula. Existe, antes, uma comunidade de desfigurações. Como numa convenção de imitadores de Elvis. 

Interrogo-me, por fim, se, ao assemelhar-me, de propósito ou não, com aqueles que admiro, me assemelho realmente com eles, ou, antes com as desfigurações que deles formo. Talvez não exista, no fundo, uma grande diferença a assinalar. Talvez o contínuo de transformações a que chamamos “segunda natureza” seja o processo mediante o qual uma pessoa se vai tornando cada vez mais parecida consigo mesma: um compromisso entre a mimese desfigurativa e a auto-domesticação. Um parentesco sui generis é a condição desse compromisso.