Joshua Landy, How To Do Things With Fictions, Nova Iorque: Oxford University Press, 2012.

O novo livro de Joshua Landy intervém na discussão académica sobre teorias da ficção, e, embora não se deixe arrastar para as discussões filosóficas nos termos das quais as dificuldades por resolver a respeito de ficção se resumem, paradigmaticamente, a problemas técnicos no âmbito da ontologia ou relacionados com putativos paradoxos mentais e semânticos, parte do princípio filosófico de que a ficção se justifica do ponto de vista da sua utilidade. Por outras palavras, Landy dá por adquirida a inteligibilidade intrínseca da ficção e não está interessado em reduzi-la à comunicação velada de determinados sentidos, preferindo concentrar-se nos usos que lhes podemos dar. 

De entre os vários usos possíveis e válidos que as ficções, para Landy, podem ter, algumas, defende, têm uma função formativa, actuando mais como “campo de treino” das nossas capacidades do que como moralizadoras, ou menos ainda como transmissoras de informação: "There is (…) a set of texts that we might label “formative fictions”, texts whose function it is to fine-tune our mental capacities (…) — what they give us is know-how; (…) what they equip us with are skills; (…) what they do is train. They are not informative, that is, but formative” (p. 10). 

Os exemplos que apresenta de ficções formativas, assunto dos principais capítulos do livro, são o Evangelho segundo São Marcos, sonetos de Mallarmé, diálogos de Platão e romances de Beckett. Todos estes casos são apresentados, de uma maneira ou de outra e por razões diferentes, como formas de falar cujo propósito não é o de informar o leitor, mas o de forçá-lo a realizar uma ginástica mental que aumenta e fortalece certas habilidades. Nunca é muito claro no livro de Landy quais são exactamente estas habilidades, mas percebemos que têm que ver com capacidades de interpretação ou de relacionar ideias (ou o muito vago ‘saber pensar’), embora não o jeito para tomar boas decisões, uma vez que, segundo Landy, isso seria a função moralizadora que quer evitar tanto quanto a procura pelo sentido do texto. O primeiro capítulo é, pela negativa, preparatório da sua leitura destes casos e centra-se em Chaucer e The Canterbury Tales, um conjunto de contos que identifica como sendo paródias sucessivas daquilo a que chama ‘o didactismo’, ou a procura da moral da história. Aqui fica mais clara a posição neutra a respeito da moral que pretende para a sua tese sobre ficções formativas, uma vez que, diz, nada no ganho ou fomento de capacidades mentais indica o modo como depois serão aplicadas.

Mas, antes disso, a introdução esquematiza aquilo que Landy entende serem os vários usos possíveis da ficção, divididos em quatro tipos de teoria correspondentes a funções — exemplar, afectiva, cognitiva e formativa — e respectivos sub-tipos (na sua contabilidade, um total de catorze, incluindo a sua contribuição), e aí desenvolve também uma teoria da literatura — muito problemática, como veremos — que forma o pano de fundo para a entrada em cena da sua tese. O livro tem ainda um conjunto vasto e rico de comentários e anotações, recolhidos no fim, que compõem, em letra pequena, um terço das duzentas e cinquenta páginas do livro, ao qual se acrescentam ainda vinte páginas de bibliografia. O leitor sem muita paciência para notas extensas pode perfeitamente ignorá-las e seguir apenas o corpo do texto, de resto escrito num estilo muito ágil, directo, e num tom por vezes coloquial, acessível, com os quais Landy vai introduzindo os seus argumentos e exemplos, cruzando com grande à-vontade e erudição os estudos literários e a filosofia. 

O título que escolheu para o livro é declaradamente recuperado do conhecido How to Do Things with Words (1962) do filósofo J.L. Austin (antes de Landy, M.H. Abrams já o tinha feito, com um propósito aparentado, mas distinto), naquilo que parece ser uma forma de retomar a ideia de que as nossas palavras não só dizem, mas também fazem, variadíssimas coisas. A analogia com o trabalho de Austin, porém, não pretende ser muito profunda; Landy não quer dizer, por exemplo, que a ficção, como os performativos de Austin, faz aquilo que diz. E, na verdade, não há propriamente uma dicotomia proposta por Landy entre o sentido (que aparentemente ataca) e o uso (que defende); o seu argumento é o de que existe uma maneira de ler certas ficções, e portanto “fazer com” inclui-se na ideia geral de “sentido”. 

Por outro lado, este título How to Do Things with Fictions sugere a ideia estranha de que precisamos de explicações, que desconhecíamos, a este respeito; quer dizer, o título introduz uma espécie de manual de instruções para o leitor saber usar um romance, para saber lê-lo. Esta interpretação do título poderia ser a perspectiva ingénua de quem não percebe o tom bem-humorado de um título que não é para levar à letra, sobretudo para quem conhece o livro de Austin, que não tem a abordagem de um manual de instruções. Contudo, este título bem-humorado que pode levar o leitor a esboçar um pequeno sorriso, depressa o fará franzir o sobrolho ao ver que ele é mais à letra do que pensava. 

O grande problema de Landy é a sua teoria da literatura. Além do passo citado anteriormente onde afirma que existe um certo conjunto de textos que têm uma função formativa, diz-nos, a propósito do elenco que esquematiza de teorias sobre o uso de ficções, que “it is generally possible (…) to find a work or two that fits the theory remarkably well, indeed that needs the theory in order to be fully appreciated” (pp. 6-8). Desde logo vemos o sentido, à letra, em que o título do seu livro é inexacto: se as variadas teorias sobre o uso de ficções têm cada uma a sua razão de ser no facto de se aplicarem a pelo menos algumas, que por sua vez precisam dessas teorias para serem bem lidas, então mais adequado seria um título do tipo “Como Fazer Coisas Determinadas com as Ficções Certas”. De facto, o “pluralismo” que Landy, nas suas palavras, julga encontrar na sua posição, que aceita a validade de qualquer teoria desde que se aplique a um caso, não é mais do que um conjunto de restrições e prescrições sobre usos, porque determina que cada ficção, para ser bem lida, tem de sê-lo de acordo com uma teoria. 

Mas como se determina a teoria particular que melhor se ajusta ao melhor uso de uma determinada ficção? Não tardamos muito a descobrir: “each work (…) contains within itself a manual for reading, a set of implicit instructions on how it may best be used” (p. 12). A trama adensa-se. Com este hypotheses non fingo de Landy, aquilo que era uma posição sobre a necessidade prévia da teoria para o uso (o extremo oposto de Austin, de resto), afirma-se neste passo como uma posição sobre uma propriedade escondida dos textos: a teoria. Mas agora ficámos com um problema circular, sem sabermos como detectar na ficção a teoria certa de que precisávamos para saber usá-la desde o início. O argumento de Landy está construído da seguinte maneira: para saber andar nesta bicicleta, é preciso conhecer as suas instruções. E onde estão as suas instruções? Implícitas na bicicleta. Como as encontro? Com as instruções. Assim não vamos longe. 

É natural que, desta maneira, qualquer teoria se encontre a si mesma em qualquer ficção; basta andar à procura. É também por isso que a tese de Landy falha a distinção que tenta defender entre procurar o sentido escondido de um texto (o grande vilão do seu livro) e o uso do texto (o herói da história). Ambos estão escondidos e não se percebe exactamente se a teoria os descobre ou se os esconde, para depois, com toda a surpresa, os encontrar lá. E isto decorre do pressuposto muito duvidoso de que precisamos de teorias do uso da ficção para sabermos o que fazer. Sobre essa questão propriamente dita — a questão sobre as coisas que fazemos com ficções — o livro diz-nos muito pouco, nem sequer o que ele, Landy, fez com as ficções de que fala. Em vez disso, descobrimos que o livro é, de facto, sobre o que certos textos querem dizer.

Felizmente para Landy, a sua teoria da literatura não implica nada sobre a maneira como lê os textos que formam o assunto dos capítulos. E aquilo que tem a dizer sobre eles vale na medida das razões que tem e daquilo que vê como evidência — tal como, afinal de contas, todos fazemos. Desse ponto de vista, aquilo que este livro de Landy vem fazer já é muito; e é, provavelmente para muitos leitores, bastante persuasivo.