Um espetáculo que começa com dois atores na plateia filmados por uma câmara. Aquilo que se filma é projetado em direto num ecrã no palco. O público está a entrar. A câmara também o filma. Tudo é projetado num ecrã no palco. Os espectadores sentam-se. Alguns conhecem-se e cumprimentam-se. Os dois atores pedem a opinião do público sobre um espetáculo que todos acabaram de ver. O espetáculo não aconteceu. Os atores dirigem-se a um espectador e depois a outro. Como uma reportagem televisiva. “O espetáculo acabou”, “estamos a recolher impressões”, “o que achou?”, “gostou?”. Entre outras coisas. As respostas são amplificadas para que todos os que estão na sala de teatro as oiçam. O público “participa” (as aspas denunciam um termo associado com fartura ao género Teatro do qual eu abdicaria por alergia ao olor dos fritos, mas que aqui reproduzo com cinismo). O público tem a palavra e a imagem para que possa produzir uma ficção de opinião (porque todos temos opinião antes de o espetáculo começar). É uma oferta dos artistas, não é uma conquista do público (“participação”?). Esta opinião, embora sem espetáculo, sem original, não é diferente de outras opiniões. A cópia não requer original. Requer apenas idêntico esforço. Investimento de sentido. É o mesmo jogo, mudou apenas o tabuleiro. Forma-se a comunidade de espectadores de um espetáculo que não existiu. A comunidade também não existe. Nada se viu. O espetáculo acabou antes de começar. É nisto que nos encontramos. É o nosso barco. Para sempre. (A eternidade é um problema deste espetáculo. É um espetáculo que luta contra o lugar-comum da efemeridade do evento. Sem cair na armadilha do objeto, aquele que confere durabilidade. “Não importa o objeto”, é a frase que o espetáculo repete para si próprio depois de acabar. “E no entanto não sou efémero”, é a frase que o espetáculo repete para si próprio antes de começar.) Os atores continuam a passear pela plateia. O espetáculo acabou. 

Ou então este público deixa de se ouvir. O espetáculo é o repouso. A sesta. O sossego de não ser obrigado a conviver com a própria voz. Quando o público entra na sala, é interrogado por dois atores. “O que achou do espetáculo?” A câmara filma. Aquilo que filma é projetado em direto num ecrã no palco. As respostas do público são dobradas pela voz de um ator. Este ator pode estar em palco. A boca do público abre-se e à sua opinião sobrepõe-se uma outra, a de quem faz o espetáculo. As suas opiniões são roubadas por uma voz. No ponto de comando, o ator faz uso do seu poder. Quem fala sou eu. O microfone da plateia apenas serve para a pergunta. A resposta vem de outra fonte. Que diz: “aquele ator ia bem”, “arrastaram o fim”, “não gostei da música”, “não me identifiquei” “tem uma ótima relação com o espaço”, “a forma é bastante feliz”, “havia qualquer coisa que não batia certo”, “há momentos muito bons mesmo”, “não percebi”, “gostei do texto, mas tudo o resto...” Apreciações técnicas, atenção aos elementos, cumprimento das expectativas. Existe uma grelha: chama-se opinião. É cómico porque é um espelho. Porque não acrescenta, preenche. É ouvir a própria voz noutra voz. Faz parte do género. Repete vocabulário. Dá-nos o que dizer. As muletas do pensamento. E como público apreciamos que nos desobriguem da “participação” conspícua. Ficamos agradecidos por nos pouparem ao embaraço da exposição e à angústia gerada pela exigência de emitir opinião. Eu quero a sombra, não escolhi a ribalta. O público agradece a possibilidade de silêncio. Embora se queixe porque em excesso revela-se  pernicioso. É que esta dobragem é capaz de esgotar todas as críticas e apreciações. A voz do ator que dobra esvazia o espectador de vocabulário e deixa-o sem as palavras que lhe servem de âncora. O espectador reconhece-se, é como se escutasse um eco. Um eco sem original. O público foi calado por si próprio. Pelo seu próprio excesso. Não chegou a produzir uma ideia e no entanto produziu-as todas. Com tanta muleta desaprendemos o caminhar. E perder-se assim a si próprio é morrer. O espectador morreu. Mas ainda está vivo. “Eu disse-te para não voltares. Quem está morto, está morto”, diz o público, pela voz do ator, ao público. O espetáculo acabou.

Ou então o ator no ponto de comando, costas voltadas para o auditório. O público entrou na sala. Está sentado. A plateia é filmada e projetada num ecrã no palco. O ator vai falar. Não responde, pratica a arte do monólogo. No ecrã, sobrepondo-se à imagem da plateia, uma legenda: “Epílogo”. O ator pronuncia o epílogo. É a última cena. O espetáculo vai começar. O ator dirige-se à imagem do público. O público vê-se a si próprio como destinatário. Vê a sua imagem a olhar para si. A imagem fixou-se. Transformou-se em memória. Ficou. E o ator diz: “eu que tenho a opinião por ti”, “acabou-se o que nem sequer começou”, “saímos de um sítio para entrar noutro”, “afoguei os livros”, “experimentei acidentes”, “tempestade congelada”, “estranho no próprio corpo”, “eu falo por ti”, “eco sem frase original”, “é tudo passado”, “eu e eu e eu e eu”, “fim e fim e fim e fim”, “curtos-circuitos”, “estamos todos no mesmo barco”. Entre outras coisas. O ator faz o resumo. A descrição é o espetáculo? Descrição de um espetáculo que não começou. O ator fecha o espetáculo. Despede-se. O público já não está ali. A projeção da sua imagem é o passado. O ator fala para o passado. Lança os foguetes. As canas não caem. O espetáculo acabou. 

Ou a projeção vídeo não é o público no auditório. Num ecrã no palco montagem de imagens do que aconteceu aos atores em cena. Vemos pedaços do espetáculo que acabou. Do espetáculo que não começou. São restos de frases, excertos de momentos musicais, pormenores de um beijo, gente encapuçada com armas de fogo na mão, uma boca a morder um pássaro, alguém que se queima, um corpo a andar coberto pela terra do túmulo, gargalhadas do público, acidentes, talvez um duelo de espadas, não se percebe bem, um homem que chora, uma mulher à sombra de uma palmeira dourada, bebem-se cocktails, uma declaração de amor, insultos, um ator, de costas para o auditório, pronuncia o epílogo de frente para um ecrã no palco com a imagem do público, os espectadores sentam-se, alguns conhecem-se e cuprimentam-se, o público responde a perguntas colocadas por dois atores, a sala está vazia. Entre outras coisas. A ação pode ser uma qualquer. Já tudo aconteceu. O espetáculo existiu. O passado existiu. As imagens comprovam-no. Mas não falam mais que as palavras. E não é por falta de rigor. É porque vêm do mesmo lugar. É assim o espetáculo. O que se descreve sem original. (Quem filma o que se projeta num ecrã no palco?) A descrição da descrição O que está a existir. O espetáculo que é. O espetáculo foi um texto. O espetáculo acabou.

Ou o ator continua a falar. Já poucos o querem ouvir. O seu excesso excede o excesso. Olha para as imagens que passam à sua frente. Descreve o que vê. Um espetáculo que acabou. É cada vez mais rigoroso. Mais pormenorizado. Apesar da velocidade das imagens fugir da descrição. São mais rápidas que as palavras. Mas o ator não desanima. Produz palavras. Faz espetáculos. Repete epílogos. Esqueceu-se do público. O próprio público esqueceu-se do público. Podemos agora utilizar a palavra consenso para descrever este espetáculo. Cheira a banalidade como cheira a fim. É só uma experiência. É travar conhecimento. É tão importante como tudo o resto. É só isso. Não está fora do mundo. O ator continua a falar. O ator não está fora do mundo.  Mas reclama-o todo para ele. Não há diferença entre isto e o resto. “Estamos todos no mesmo barco”, diz o ator.  E o espetáculo não acaba. É quotidiano. O espetáculo acabou.

Ou os outros atores preparam o começo nos bastidores. Fingem a preparação do começo. Representam. Olham para a câmara. Aquilo que se filma é projetado em direto num ecrã no palco. O público vê. Vai começar o espetáculo que acabou. Os atores querem começar. Estão preparados para fazer o fim. É para isso que aqui estão. É para isso que não vão entrar. Está na altura de acabar, que é o mesmo que: está na altura de começar, que é o mesmo que: o espetáculo acabou.

Ou um espetáculo sem continuidade. Cada descrição a apagar a anterior. Um autodrama. Com os mesmos atores. As mesmas ações. Os mesmos espetáculos. O mesmo mundo. O mesmo tempo. As mesmas imagens projetadas num ecrã no palco. O espetáculo não se mexe. Tempestade congelada. Mora no espelho. À procura do outro. Vamos para intervalo. O espetáculo acabou.

Ou: Quem é que descreve o espetáculo? 

 

Descrição de um espetáculo é prólogo para acabar um espetáculo que não começou. Herda o epílogo da Tempestade de Shakespeare e Descrição de um quadro de Heiner Müller, que cita como uma recordação: “uma memória numa estrutura dramática morta”.

É o primeiro daquilo que se supõe poder vir a ser uma série de quatro textos sobre teatro e literatura.