Senhoras e senhores, o Nobel irá para... Alan Moore! O autor vê hoje a sua vasta obra na BD celebrada e premiada e regressará a Northampton com o mais prestigiante prémio, que outrora era apenas atribuído apenas a livros sem bonecos!

Ora, dito isto, cabe a este jurado de meia-tigela argumentar a sua escolha. Por mais polémica que seja a decisão, baseia-se numa verdade inegável — Alan Moore contribuiu para que os livros de BD se aproximassem, mais do que nunca, da literatura. Com obras como Watchmen, From Hell, Miracleman ou Jerusalem, Moore deitou por terra qualquer preconceito existente de que este tipo de livros é só para crianças. No processo, desconstruiu o mito do super-herói, criando personagens verdadeiramente reais, humanas e memoráveis, e histórias tão grandes ou maiores do que as obras escritas por muitos dos anteriores laureados com este prémio.

A importância da sua obra para a chamada cultura popular é vasta — vários dos seus trabalhos foram adaptados ao cinema —, mas a profundidade do seu trabalho reflecte-se especialmente no pensamento político do seu tempo. A máscara de Guy Fawkes de V de Vendetta foi adoptada como símbolo global de protesto e de contra-cultura — é o rosto dos Anonymous, tendo-se tornado um símbolo vastamente mais reconhecido do que a obra que lhe deu origem. 

Na Internet encontrarão diversas entrevistas e artigos que ilustram a célebre tendência eremita de Moore ­— normalmente acompanhada de um terrível mau feitio. Além disso, há vários elementos que o envolvem numa aura de carisma: nunca viu as adaptações cinematográficas do seu trabalho, jurou nunca mais trabalhar para as gigantes da indústria (Marvel e DC) e dedicou-se intensamente a projectos musicais com personalidades como Mike Patton ou Damon Albarn (com quem se viria a incompatibilizar durante a feitura do libretto de uma ópera).

Há também um mito que diz que Alan Moore só apresenta os seus livros numa pequena livraria da sua terra natal. Foi essa livraria de Northampton que os meus colegas Juan, Santiago e Martin (com quem trabalho em banda desenhada) visitaram numa peregrinação, na esperança de verem um seu livro assinado. O livro foi recebido pelo dono da loja, que garantiu que o iria entregar a Alan Moore. Assim foi e, algumas semanas depois, o livro chegou assinado à Argentina. Esta história, para mim, mostra-me que Moore tem um respeito maior pelos seus leitores do que pelas grandes editoras ou produtoras de Hollywood — e isso diz muito sobre a sua forma de ver o mundo e a arte.

Tal como o Prémio Pulitzer (que destaca obras de excelência na área do jornalismo, literatura e composição musical) foi apenas uma vez atribuído a um livro de BD — o genial MAUS, de Art Spiegelman — seria, para os amantes da BD (e para todos os nerds, já agora), uma enorme vitória ver que a comunidade literária recebia, entre os seus pares, um homem que é, mais do que tudo, um escritor extraordinário.

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