Mote

Foi num singular texto de Alain – capítulo I do Livro terceiro dos Élements de Philosophie – que encontrei o mote para estas duas páginas, embora ele apenas fale das línguas perfeitas, as técnicas ou convencionais,  abstendo-se de nomear imperfeitas aquelas a que chama populares, reais (as línguas maternas). As imperfeitas vieram de um outro texto, de Mallarmé, citado por Benjamin em «A tarefa do tradutor»: «Les langues imparfaites en cela que plusieurs, manque la suprême [...]». Se bem que para Alain (e para mim também) às línguas imperfeitas não faça falta a suprema  (para o entendimento benjaminiano de tradução, sim, ele chamou-lhe língua pura, não propriamente uma língua, pois não se pode aprender nem ensinar),  é de admitir que aceitasse a designação, feliz.

Para percebermos isto, o melhor é irmos ter com uma língua morta: «A vantagem decisiva das línguas mortas é que ninguém nos pode mostrar o objecto», tendência perniciosa de quem aprende as palavras através das coisas quando viaja ou por razões comerciais e industriais, o que «parece ter como fim, e teve como efeito, pôr entre parêntesis a cultura». Numa língua «completamente convencional» faz-se esse tipo de aprendizagem, numa língua onde não se sabe – porque não se trata justamente disso – que «é através das palavras que é preciso compreender as palavras» e em nenhum outro lugar se engendram, albergam, se alteram e transmitem as ideias. Apesar disso é raro que as palavras das línguas técnicas, as perfeitas, «que se inventam segundo a natureza dos objectos, não conheçam algum antepassado». Alain dá exemplos: ampère, volt, ohm. E continua: «Equação, integral, convergência, limite são ainda palavras humanas, apesar do esforço do técnico, que quereria aqui fazer-nos esquecer qualquer outro sentido para lá daquele que resulta da definição». Poderíamos lembrar, por exemplo, a parafernália das ciências neuronais.

Acrescente-se às palavras de Alain, citadas a seguir, uma palavra de ordem: alguém terá de pagar a alguém que se dedique a «adivinhar o pensamento de um autor com a idade de mil anos a partir destes sinais maravilhosamente ambíguos, não é? Ainda melhor se o pensamento se afirmar logo por uma beleza irrecusável, imediatamente sentida e ao mesmo tempo confirmada por séculos de admiração. É aqui que qualquer pensamento se prepara, não somente de política e de moral, mas também de física».

 

Variação

Tens de pensar no papel que desempenham nas nossas vidas imagens do género de pinturas (em oposição a desenhos de trabalho). E aqui não existe de modo algum uniformidade.

Comparar com isto: por vezes penduramos na parede provérbios. Mas não teoremas de mecânica. (A nossa relação a estas duas coisas.)
Wittgenstein, «Philosophy of Psychology – A Fragment» XI, § 195, Philosophische Untersuchungen/Philosophical Investigations (edição P. M. S. Hacker e Joachim Schulte)

 

A luta de Wittgenstein contra a uniformidade dos papéis desempenhados pelas imagens é um belo exemplo para a diferença entre línguas perfeitas e imperfeitas. Embora aqui os Marinetti ou Álvaro de Campos pudessem ripostar com a sua preferência por teoremas ou automóveis, rodas e engrenagens, em detrimento de estátuas de Vénus ou coisas do mesmo género, i.e., para eles qualquer coisa se poderia pendurar na parede. E então Wittgenstein teria de ir pregar para outra freguesia. Por estranho que pareça, no entanto, tal reacção não toca na argumentação wittgensteiniana (resumida a: «tens de pensar» e «comparar com», ad se ipso ou para outro qualquer). Primeiro: se há uma forma de vida em que se costumam pendurar teoremas de mecânica na parede, Wittgenstein nunca a encontrou (e nós também não). Segundo: se houvesse essa forma de vida, Wittgenstein não estava em situação de a compreender (e nós também não). Aquela preferência escandalosa é histórica, desempenhou o seu papel de abalar algumas outras formas de uniformidade, coisa que Wittgenstein, aliás, não poderia compreender (ele próprio confessa a sua incapacidade em relação à arte contemporânea dele). E não se voltou a repetir. Nós podemos perceber quer a argumentação de Wittgenstein quer a preferência de Marinetti ou Álvaro de Campos. Mas o mundo em que vivemos é aquele em que se pode seguir sem mais a argumentação de Wittgenstein, é o das línguas imperfeitas, aquelas onde se inventam e surpreendem ditos e provérbios, poemas e manifestos. Os teoremas de mecânica ou os automóveis, as rodas e engrenagens, pertencem às línguas perfeitas, aquelas que lidam com coisas e não com palavras, mesmo não esquecendo a reserva manifestada, isto é, os antepassados aparecem onde menos se espera. Nota bene: nada impede que se pendure na parede a Ode Triunfal ou o Manifesto Futurista.

 

Coda

O poema sumério: ... as mãos da rapariga,/ o cabelo da estreita rapariga – do qual fala Herberto Helder em dois poemas de A morte sem mestre –  é um género de pó que exala vida.

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