Foi com esta pergunta — já um efeito de um primeiro encontro entre Irene Pimentel e eu própria – que decidimos desafiar colegas, estudantes e funcionários da nossa Faculdade, FCSH (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas), de outras Faculdades da Universidade Nova de Lisboa, de outras Universidades e todos os interessados em considerar e discutir em comum aquilo que se passava em Portugal e que no anúncio da Jornada de 6 de Dezembro de 2012 se descrevia como um “processo de desmantelamento social, económico e cultural sem precedentes — pese embora tantas comparações, baseadas na premissa da ‘eterna repetição’ — e cujas consequências não param de exceder as previsões dos responsáveis por esse desmantelamento”.

Acedendo com todo o empenho e gratidão ao convite que me foi dirigido por Humberto Brito para fazer uma resenha da Jornada a publicar no primeiro número de Forma de Vida (saúdo a revista e o título), decidi-me, no entanto, a pôr de lado a resenha, que sob a forma de “Editorial” será em breve publicada no blogue Responder ao Momento Presente, entretanto criado, conjuntamente com os textos escritos pelos nossos convidados, com as participações de pessoas que corresponderam ao nosso apelo e ainda com contribuições que se alargaram para lá da Jornada; a que se juntará uma gravação video, também disponível no YouTube.

 
 

A minha ideia é a de falar sobre o que possa ser um momento presente qualquer e sobre aquilo que está preso e simultaneamente é arrastado por ele, tornando-se já o nosso momento presente. Para esta transição, escolhi como mote um texto, a vários títulos admirável, de Fernando Gil, que se citará mais adiante.

Convém desde logo uns esclarecimentos breves sobre a diferença entre momento presente e instante (ou momento sem determinação temporal).

O momento ou o instante ou o que é iminente e tem o “acesso bloqueado” 1 pode ser compreendido como aquela hora que um dia vem ter connosco, raras vezes preparados para ela, embora possamos estar quase a adivinhá-la, mesmo à espera dela — como se diz que uma mulher espera um filho —, e nessa hora um mundo acabou de morrer e nessa hora um mundo acabou de nascer, hora irrepresentável, reveladora, libertadora, esmagadora, fonte, coração de alguma coisa ou de todas as coisas. Podemos ver o instante como a descontinuidade que se solta do contínuo da vida e se sustém a si própria, como um brilho irreprimível que jorra da fusão entre necessidade e contingência, onde vemos Cronos temporariamente destronado (o que Cronos tomaria como ironia suprema que lhe é devida). O rapto amoroso é uma das suas mais convincentes pedras-de-toque.

O momento presente embora tenha parentes nesta família não tem uma genealogia coincidente. Na expressão “momento presente” estão implicadas uma duração e uma evolução. Trata-se de um “aqui e agora” dotado de uma duração que se cristalizou — tomando para uso próprio o conceito de Ian Hacking tematizado em The Scientific Reason (2009) —, quer dizer, no quadro da evolução da vida pública e privada em Portugal nos últimos anos, o momento presente aparece-nos como irreversível. A partir de agora, sentimos na pele e no espírito que nada ficará igual, nada será o mesmo, quer dizer, isto a que chamamos crise — que tem costas largas e um mau alfaiate — agarrou-se às nossas vidas, moldando-as. Ainda mais, tememos que o estado de crise se torne habitual. A pergunta: até onde nos podemos habituar? tem uma medida última — que é nosso dever combater —, a do cavalo do inglês.

A questão da irreversibilidade é central por várias razões. Tanto se reconhece no instante irrepresentável como no momento presente que é já propagação de uma rede de representações. A diferença parece-me residir na evolução — sequência e causalidade — que preside à constituição de qualquer momento presente. No instante descontínuo, surpreendente, milagroso ou fatal, faltam aquelas determinações. A primeira pergunta a fazer no caso do momento presente é: como é que chegámos aqui? Pergunta que não tem cabimento no que respeita ao instante, que parece mesmo inverter a pegada do tempo (fazendo vénia uma vez mais a Giorgio Colli), abrindo rasgões e remendando-os com fios de ouro e estopa (poemas, música e coisas assim).

A outra pergunta que se pode fazer ao momento presente (e também não ao instante) deu cobertura à jornada de 6 de Dezembro de 2012. Como responder ao momento presente? É uma pergunta que pergunta pelo lugar onde estamos quanto à crise.

Uma coisa é ela estar diante de nós, como um credor impaciente, adiantando-se-nos. Um exemplo: — a continuarmos assim para o mês que vem não posso pagar a renda da casa. E aqui o princípio do terceiro excluído vacila: a vida continua e a vida não continua (que se resume na exclamação de impotência: — isto não pode continuar assim!). Outro exemplo, realizar operações de previsão sem fim — sobreponíveis, contraditórias, em conflito umas com as outras — sobre aquilo que está para vir. Consequência neste caso, o futuro, que em tempos foi crido pertencer a Deus, perfila-se diante de nós, domesticado. Exercícios desta índole multiplicam-se entre os responsáveis do governo, os deputados, representantes partidários e tutti quanti, sobretudo entre os chamados comentadores (foi no que deu a massificação de um estatuto escolástico).

Outra coisa é estarmos dentro dela e é nesta posição que somos chamados (se estivermos atentos) a responder. Com isto quero dizer que somos parte do problema e só por isso poderemos ser parte da solução.

Fuga sob várias formas e por razões provisórias ou instantes. Resistência: dizer não, desobedecer, manifestar-se, argumentar, criticar, exigir. Criatividade: trocar as voltas, argumentar, criticar, suscitar novas comunidades (facilmente portáteis), por exemplo: editoras, revistas, jornais. Tal como em argumentar e criticar me parece haver dupla pertença, também noutros gestos e actos isso será susceptível de acontecer.

Claro que a distinção entre estar diante e estar dentro só é útil se não aceitarmos que seja pura, o mais certo serão os casos híbridos entre esses dois lugares. E, no entanto, parece-me que será preciso forçar a transição do estar diante para o estar dentro, que será preciso adentrarmo-nos na crise, recusando-nos a acreditar que o modo como as coisas se passam seja natural.

E agora que estabelecemos a transição da estrutura de um qualquer momento presente para o nosso momento presente, chegou a vez de falar da Universidade e afins. Se a escola não é uma fortaleza, não será menos falso dizer que se encontra sitiada2 por uma ideologia voluntarista que invadiu tudo e todos, desde os Estatutos (autonomia universitária, carreira docente, investigação) até aos Reitores, ao Ministério, à FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia), às Agências de validação, avaliação3 — e o que está para vir —, ideologia associada e/ou dependente de instituições europeias (no que respeita, por exemplo, a projectos, programas, apoios financeiros).

A fim de esclarecer o que está em causa, pedimos assistência ao texto de Fernando Gil já mencionado:

"(...) são pouco mais do que um discurso encantatório (...) as considerações amáveis mas já encanecidas em torno da “inovação” ou — versão actual — do “espírito empreendedor” (oiço-as desde há mais de trinta anos, quando trabalhava no Center for Educational Research and Innovation, criado pela OCDE após Maio de 1968). É suposto que a inovação resolva os problemas que nos afligem. Porém, se se tivessem descoberto novas soluções, isso saber-se-ia. Não basta decidir inovar para fazer coisas novas, e as mais das vezes repete-se quando estultamente se julga inovar. Em educação, a inovação assemelha-se um pouco à Fénix da Arábia segundo Così fan Tutte:

Cosa sia, ciascun lo dice;
dove sia, nessun lo sà.

E inovar – o quê? Será preciso cavar mais fundo (...)"4

Como são bem-vindas estas palavras no momento presente, como é notório que elas fazem já parte da evolução que se seguiu nos anos após a morte deste nosso grande pensador, como é evidente que elas acertam na cristalização dessa duração evolutiva, que nós estamos votados a não querer que se transforme num “point of no return”, em sentido aeronáutico: o ponto em que o aviador não pode voltar para trás e só pode continuar para a frente custe o que custar5. As palavras-chave, et pour cause, são inovação e espírito empreendedor (a horrenda palavra “empreendedorismo” ainda não tinha sido industriada numa fábrica de robots).

Trata-se de um caso particular de idolatria: tomam-se certas palavras e as imagens e processos a elas associados, inovação é o caso corrente e recorrente, como objecto de adoração sustentado na crença ingénua da sua bondade natural. Mais ainda, acredita-se que regulamentar a inovação é fonte dela. Seguindo as verdadeiras e humorísticas palavras de Fernando Gil: “É suposto que a inovação resolva os problemas que nos afligem. Porém, se se tivessem descoberto novas soluções, isso saber-se-ia”. Já se fez o elenco que preenche a inovação? Se pensarmos na filosofia, e também em literatura, e também em física, a inovação terá sempre a ver com esforço conceptual, com a expansão e a concentração da energia das palavras, com a descoberta de novos objectos. E como se chega aí, quais são as condições? Seguramente nem nas estatísticas, por exemplo, o número de publicações integradas nos códices de serviço, nem na multiplicação desenfreada de tudo o que tenha um cheirinho a internacionalização. Nalguns casos, serão precisos laboratórios, trabalho de grupo controlado; noutros, ao invés, sabática de silêncio. Mas esta também fará falta no laboratório, como as águas profundas onde a dúvida, o erro, o acaso, o otium poderão provocar um salto compreensivo por regulamentar e insusceptível de programação. Como diz Fernando Gil: “Será preciso cavar mais fundo”.

Sabemos como grassa no ensino uma fúria pedagógica, que atribui poderes normativos salvíficos às ciências da educação, associada a uma fúria de avaliação, que também fora da Universidade e do ensino em geral não deixa nenhum campo da nossa vida em paz, incluindo países inteiros. Como faria falta conhecer aqui o argumento aristotélico do “terceiro homem” e a evidência wittgensteiniana de que a justificação tem de chegar a algum termo. É o que faz a ignorância filosófica e torna tão promissores os nossos governantes, livres de pensar para se empenharem nas suas delicadas estatísticas, nos seus acarinhados indicadores, nos seus omniservientes objectivos, aprendizes de feiticeiro sem rumo, exercendo a torto e a direito as varinhas mágicas do “empreendedorismo"6e da inovação.

Aprender a pensar por si próprio (como disse Kant: não aprender a ser filósofo, mas aprender a filosofar) é aplicável como desígnio a qualquer saber disciplinar. Um dos ingredientes dessa aprendizagem tem a ver com uma disposição para estar um pouco de lado, um pouco à margem, um pouco desviado, das regulamentações, dos programas, dos projectos. No momento presente, é o que me ocorre dizer para dar início a uma conversa sobre como responder-lhe.

Notas

1 Título de uma canção de Sérgio Godinho, que vai directa ao assunto.

2 Imagens — fortaleza e sítio — presentes igualmente no ensaio de Fernando Gil, só que num contexto que, embora passados tão pouco anos, já não é o nosso, porque a questão educação/instrução sofreu tais pressões das mais diversas origens, enredou-se em tanta legislação obscurantista, que a grande questão da autoridade e da falta de nitidez entre o plano público e o plano privado, o estatal e o civil — de que o artigo se ocupa em grande parte —, tomou formas que não seria possível prever inteiramente. Consideremos, por exemplo, a tortura em que se tornou a vida de um professor, sobretudo no Ensino Secundário

3 E isto sem prejuízo da competência individual e da dignidade dos cargos respectivos.

4 “A escola e a sociedade civil: a responsabilidade pública e os seus limites” (2004), in Acentos, IN-CM, Lisboa, 2005, p. 217.

5 Desta preocupante situação temos aqui uma variação exemplar: “Num tempo de mudança, em que só sobrevive quem é capaz de antecipar as expectativas do mercado e de gerir em rede, numa lógica de competitividade aberta, as empresas têm que se assumir como actores ‘perturbadores’ do sistema, induzindo na sociedade e na economia um capital de exigência e de inovação [...] Assumido o compromisso estratégico da aposta na inovação e conhecimento [...] compete às empresas o papel simultâneo de actor indutor da mudança e agregador de tendências”, Francisco Jaime Quesado, “Um choque de gestão”, Jornal O Público, 10 de Dezembro de 2012. A linguagem não nos é vagamente familiar, bem pelo contrario, é ela que preenche as páginas e páginas que, enquanto universitários, temos de ler para sobreviver e teremos de esquecer para não soçobrar.

6 Fiquemos por um acto recente de resistência crítica ao “empreendedorismo”, desencadeado pela abertura de um concurso na Universidade de Sussex para recrutamento de um Lecturer/Senior Lecturer em Filosofia, cujo fecho está marcado para 15 de Fevereiro deste ano. Agradeço a Nuno Venturinha por me ter dado a conhecer o texto de abertura do concurso e algumas das reacções a um dos requisitos. Primeiro, o requisito: “S/he will possess a profile of high quality published work; clear plans for future research; demonstrable excellence as a teacher; and an entrepreneurial attitude to generating research grant income.” A seguir, uma das reacções que reza assim: “Am I alone in being perturbed that a university should regard ‘an entrepreneurial attitude to generating research grant income’ as a necessary condition of being qualified to work for the university a teacher of, and researcher in, Philosophy?”. Assinado Bob Brecher. Não está sozinho. Vamos escrever-lhe?!