John Perry, The Art of Procrastination: A Guide to Effective Dawdling, Lollygagging and Postponing, Nova Iorque: Workman Publishing, 2012.

Todos adiamos tarefas, mas os procrastinadores fazem-no de modo crónico, procurando distracções que os levem a protelar o trabalho que têm em mãos. A capacidade de se adiar indefinidamente uma obrigação pode, todavia, ser produtiva se considerarmos, como John Perry, que no acto de se evitar uma tarefa se realizam muitas outras igualmente importantes. A esta particularidade chama o filósofo "procrastinação estruturada", um conceito descrito no seu mais recente livro, cujo título parece conter um programa de adiamento da leitura: The Art of Procrastination: A Guide to Effective Dawdling, Lollygagging and Postponing... Or, Getting Things Done by Putting Them Off. 

A obra surge a partir de um artigo escrito para The Chronicle of Higher Education, republicado mais tarde no blog do autor, e rapidamente transformado em êxito. Deste conjunto de circunstâncias resultam, parece-me, a maior virtude do livro, i.e., a descrição de uma boa ideia sobre o conceito de procrastinação, e o seu pior defeito, ou seja, a substituição de um argumento filosófico sobre o tema por um guia de auto-ajuda para procrastinadores. 

O mérito de The Art of Procrastination consiste, assim, na redescrição da procrastinação, tantas vezes caracterizada enquanto comportamento akratico ou resultante da falta de vontade do sujeito. Como o autor indica, procrastinação implica fazer um plano, adiá-lo para um momento futuro, não o cumprir, replaneá-lo e voltar a adiá-lo. Contudo, este prorrogar da acção inclui igualmente a concretização de uma série de pequenas tarefas. Deste ponto de vista, o procrastinador difere do preguiçoso —distinção que Perry não aborda — na sensação de culpa que o leva a ser muitíssimo competente no conjunto de actividades realizadas durante a protelação. 

O autor relaciona procrastinação com perfeccionismo e com a incapacidade de se perceber que, por vezes, é melhor terminar um trabalho de modo imperfeito do que nunca o completar. Para este efeito, e aqui surge o lado menos feliz de The Art of Procrastination, Perry sugere a criação de listas de tarefas diárias com o propósito de “dar ao procrastinador a experiência de ir riscando os itens da lista à medida que as tarefas vão terminando. Assinalar o item, ou riscá-lo com um floreado, dá-nos um pequeno empurrão psicológico”. Outros conselhos incluem a descrição de como a música pode auxiliar os procrastinadores nos seus momentos de neura, a caracterização dos cuidados que devemos ter com o computador enquanto elemento de procrastinação por excelência, a necessidade de colaborar com não-procrastinadores, entre outras sugestões prosaicas. Todavia, a frase citada merecia desenvolvimento ao descrever o importante problema, mencionado, mas não tratado pelo autor, de uma pessoa se enganar a si própria. A capacidade de redigir listas de afazeres pressupõe que o procrastinador se consegue enganar, nem que seja por momentos, e que nessas ocasiões felizes ultrapassa a procrastinação. Perry afirma: “Como virtualmente todos os procrastinadores têm excelentes capacidades de se enganarem a si próprios (self-deception) — que poderia ser melhor do que usar um defeito para aniquilar as consequências do outro?”. Deste ponto de vista, julgo que seria interessante ponderar se a procrastinação resulta de uma desadequação de vontades (entre o que sabemos ser bom para nós, o que nos apetece fazer e o que queremos ser no futuro); de um modo de interpretação erróneo das nossas deliberações; ou de por vezes termos de cumprir tarefas que não desejamos realmente concretizar (critério aparentemente mais racional do que os restantes). Dependendo de cada uma destas respostas a lista de afazeres adquire sentidos distintos, que o autor ignora. 

Creio que uma das particularidades da procrastinação reside no facto de, na maioria das vezes, as tarefas acabarem de facto por ser realizadas, mesmo que ligeiramente depois do prazo e mesmo que não tão bem executadas como ambicionado. Deste modo, seria interessante que Perry tivesse pensado na procrastinação enquanto modo de evitar uma acção ao longo de um determinado período de tempo, visto que sem essa dimensão temporal não se pode verdadeiramente falar em procrastinar — também neste ponto é o autor omisso. 

Por fim, a descrição do tema é incompleta ao não distinguir objectos de procrastinação. Adiar actividades como fazer uma dieta ou exercício físico parece ser diferente da protelação académica. Quando o autor lê um livro para evitar corrigir os trabalhos dos seus alunos parece estar a contribuir para o acumular de conhecimentos necessários na sua profissão. Se, pelo contrário, decidir arrumar a casa sempre que tem de corrigir exames, isso poderá ser benéfico para o seu bem-estar, mas não o tornará um melhor professor. 

O argumento de Perry sobre “procrastinação estruturada” podia ser desenvolvido no sentido de se considerar que a perícia interpretativa depende do acumular de conhecimentos realizados até uma acção ter lugar, e não necessariamente na ocasião em que esta acção se cumpre, i.e., o momento em que um livro é terminado. Para esse conhecimento terão contribuído alguns, mas não todos, objectos de protelação. Contrariamente ao que Perry parece pensar, existem necessariamente diferenças entre uma procrastinação bem ou mal estruturada, entre seres relapsos e seres competentes. Ainda assim, julgo que a procrastinação em arte ou na academia nos permite perceber coisas sobre as nossas acções ao longo de determinado tempo, bem como sobre a natureza da própria arte e das suas teorizações, i.e., sobre a existência de histórias que levam tempo a ser contadas, o mesmo tempo que levamos a descobrir coisas sobre nós próprios e a criar argumentos filosóficos sobre um determinado tema. Se assim for, talvez haja esperança de que este livro seja o prenúncio de um outro, mais ao estilo da obra académica do autor, no qual se substitua a arte da procrastinação por procrastinação enquanto arte.