Entre o número vasto de coisas que se escreveram sobre Fernando Pessoa não existe que eu saiba nenhuma acerca da relação entre Pessoa e certas intuições muito básicas sobre literatura. Por ‘intuições muito básicas’ não entendo nenhuma teoria da literatura consensual. Tal teoria não existe nem provavelmente faz falta. Trata-se antes de intuições muito gerais sobre pessoas, animais vivos, acções humanas e coisas do género. Casos de intuições deste tipo são por exemplo que os escritores são pessoas que escrevem coisas; que existe uma relação, provavelmente causal, entre aquilo que escrevem e vários estados ou disposições que têm ou tiveram e, uma intuição ainda mais básica, que todos os escritores, mesmo os mortos, foram um dia animais vivos. À maior parte das pessoas ocorre justificadamente este tipo de intuições. Isto só é importante porque, a meu ver, Fernando Pessoa nunca as tomou a sério; e disse-o, muitas vezes e de muitos modos. No entanto não posso aqui desenvolver o argumento de cuja falta me queixo; a razão é prosaica: não tenho ideias claras sobre todos os passos requeridos. O que se segue são assim três aspectos de uma nota promissória. 

 

1.

O Barão de Teive é conhecido por ter passado dois dias a queimar todos os seus manuscritos e ter deixado numa gaveta um manuscrito em que descreve a cena. Trata-se do manuscrito de Pessoa chamado sem que se perceba bem porquê A educação do estóico (Pessoa, 2001). Conta aí Teive que, antes de se ter suicidado, andava a passear pelo campo e ouviu «um rebate de fogo que me pareceu na freguesia» (45). «Seria o fogo em minha casa?» (46), pergunta. Não era. O motivo principal dos cuidados de Teive parece ser os seus manuscritos. «Correriam o risco de arder todos os meus manuscritos, toda a expressão de toda a minha vida?» (46) Como o fogo era noutro lado, os manuscritos não arderam. Do sobressalto, porém, Teive retira uma observação:

Sempre que esta ideia, antigamente, simplesmente me ocorrera, um pavor enorme me fazia estarrecer. E agora reparei de repente, não sei se já com pasmo se sem pasmo, não sei dizer se com pavor ou não, que me não importaria que ardessem. Que fonte – que fonte secreta mas tão minha – se me havia secado na alma? (46)

A observação contrasta um pavor antigo com a indiferença actual e descreve uma mudança de atitude em relação a «toda a expressão de toda a minha vida,» isto é, em relação aos seus manuscritos. A possibilidade de fogo em sua casa parece ter feito Teive mudar de ideias, o que aliás acontece. Acontece menos porém descrever uma mudança de ideias como Teive o faz. Secou-se-lhe, diz, uma fonte na alma, uma «fonte secreta mas tão minha.»   

Uma explicação naturalizada, à primeira vista plausível, é aqui insuficiente. É verdade que não há como o fogo para fazer secar as fontes, mesmo as que ardem sem se ver. Mas como não houve incêndio, o que aqui as fez secar foi a possibilidade de fogo. A possibilidade de ter fogo em casa, diz Teive, fez secar uma coisa muito «minha» e «secreta». O que parece ter secado é a relação que me une à «expressão de toda a minha vida,» isto é, a relação entre Teive e os seus manuscritos. Tal relação não é simplesmente a relação que liga alguém à continuidade dos movimentos de consciência com que se descreve, não é uma relação psicológica. Muito menos parece ser uma relação existencial.

O caso é que, como muitos outros escritores, e até ter pensado que tinha fogo em casa, Teive se imaginava instintivamente como um animal com um apêndice de manuscritos, um animal sempre, como diz Platão, τὰ ποιήματα βουλόμενος ἐπιδείξασθαι, desejoso de exibir os seus produtos. Dizer ‘lá vem o escritor com os seus manuscritos’ é para estes animais tão ocioso como dizer ‘lá vem o elefante com a sua tromba.’ Tal como não há água sem duas moléculas de hidrogénio assim um escritor, pensava Teive como pensa a maioria dos que sofrem de inclinações literárias pronunciadas, depende necessariamente de manuscritos. Trata-se, sabe agora Teive, de um erro: a possibilidade de fogo em casa basta-lhe para perceber que a relação entre escritor e manuscritos, entre vida e expressão, é uma relação não-necessária. Depois de a fonte se lhe ter secado, Teive passará a descrever manuscritos e expressão como ornamentos opcionais do escritor. Ao perceber isso, terá também percebido que pode ser escritor sem escrever uma única linha.

 

2.

No dia em que ao que se diz nasceu Alexandre o Grande, Heróstrato, um cidadão particular de Éfeso, deitou fogo ao Templo de Diana. A muita gente ocorreu depois perguntar pelos motivos, e a quase todos ocorreu responder. A resposta mais frequente é a de que queria ser famoso. Este tipo de explicação pareceu implausível a Pessoa, ao que talvez não fosse estranha a probabilidade nítida de, por volta de 1929, quando compôs o ensaio Erostratus, poder vir a ficar conhecido ele próprio como um poeta sem obra ou fama. Para Pessoa, no entanto, a grandeza de Heróstrato é «a greatness which he does not share with lesser crashers into fame» (142) e não simplesmente a grandeza que define a classe dos «crashers into fame.»

Trata-se de uma grandeza, sugere Pessoa, de natureza psicológica. «There are,» escreve, «only two types of constant mood with which life is worth living — with the noble joy of a religion, or with the noble sorrow of having lost one» (id.)   As acções de Heróstrato parecem exprimir para Pessoa um estado psicológico, de que seria exemplo «o nobre desgosto» de se ter perdido uma religião. A ligação entre uma grandeza sem fama e tal nobre desgosto não é evidente. Eis a interpretação de Pessoa:

We may fitly conceive him [Erostratus] as having overcome the toils of a remorse of the future, and facing a horror within himself for the stalwartness of fame. (143)

Esta passagem é difícil de traduzir e de perceber, e nessa medida um poderoso incentivo para que procuremos outras mais fáceis. É aliás o que acontece no manuscrito em questão, onde logo a seguir somos recompensados por um elogio da blasfémia mais ao gosto do grande público.

Voltemos no entanto à passagem, agora na tradução de Manuela Rocha: «Podemos legitimamente conceber que tivesse superado os apertos de um remorso futuro, e enfrentado um horror íntimo para alcançar uma fama duradoura.» (64)  A sua excelente tradução sugere aqui um negócio e uma troca. Heróstrato terá trocado a auto-estima pela fama. Não estou no entanto seguro de que seja isso que a passagem queira dizer. De facto, não é de excluir que o Heróstrato de Pessoa esteja antes, noutra tradução possível, a «enfrentar dentro de si um horror pela robustez da fama.»   A diferença entre as duas traduções é que no segundo caso a consequência da sua acção incendiária (a fama) não é o seu objectivo. A fama é superveniente em relação ao fogo, quer dizer, pode haver fogo sem fama, mas não há fama sem fogo.

Esta segunda interpretação (mas não a primeira) vai ser retomada pelo próprio Pessoa no fim da passagem:

. . . if Erostratus did this, he comes at once into the company of all men who have become great by the power of their individuality. He makes that sacrifice of feeling, of passion, of which distinguishes the path to immortality. He suffers, that his name may enjoy, like Christ who dies as the man that he may prove himself the Word. (143)

Nesta altura do tratado, mesmo o leitor menos experimentado terá já ideias sobre a natureza do interesse de Pessoa pelo particular de Éfeso. Isso ajuda, porque a passagem é desajeitada, e ainda por cima não se consegue ler bem. Ao que se percebe, no entanto, o sofrimento de Heróstrato, comparado ao de Cristo e à apoteose do Seu nome, dificilmente pode ser visto de modo naturalizado como uma troca determinada por uma ambição de fama. Antes, a fama é de novo descrita como um efeito não-intencionado do objecto do sacrifício. Manuela Rocha parece pelo contrário voltar a subscrever uma explicação naturalizada quando traduz que Heróstrato «morre como homem para provar que é o Verbo» (65). A teoria implícita é a de que a fama (e, no caso de Pessoa, a arte) resulta de uma aposta transcendental, de uma troca com os deuses.

Parece-me isto confundir uma certa descrição de Prometeu com uma certa descrição de Heróstrato. Pessoa escreve que Heróstrato, como Cristo, morre como homem «that he may prove himself the Word.»   ‘To prove oneself’ convida a mais atenção. De facto, Heróstrato, o herói grego de Pessoa, não precisa de provar nada de especial, nomeadamente porque não tem à mão quem peça ou precise de tais provas. Esta é aliás a condição normal de quem não é famoso. Como Jesus Cristo, que para Pessoa é seu filho adoptivo, parece antes querer morrer como homem para se mostrar como Verbo. Significa isto que teve de se separar de todas as suas disposições e estados psicológicos, e mesmo do nobre desgosto de ter perdido uma religião: daquilo a que Teive noutro lado chama uma «mágoa lenta» (18), e que S. Paulo, que também escreveu aos seus efésios, chamava «lembrar-vos  . . .  desse tempo em que estáveis sem Cristo» (Ef.2:12). O uso intransitivo do verbo «enjoy» na passagem descreve justamente essa separação.

O que ardeu para Heróstrato não foi o templo de Diana mas a continuidade entre Heróstrato e quaisquer sentimentos ou disposições que pudesse ter, a continuidade, em suma, entre Heróstrato e a aquilo a que comummente se chama a sua personalidade. A simpatia de Pessoa por Heróstrato parece ser a simpatia pela possibilidade de se poder ser o que se é sem que tal seja atribuível a uma personalidade. A destruição da personalidade implica um crime. A pena prevista, aliás incomutável, é a fama.

 

3.

Por volta de 1907 o Dr. Faustino Antunes, a quem só por decoro não se chama directamente Fernando Pessoa, escreveu uma carta a Clifford E. Geerdts, antigo colega de Pessoa em Durban, que se encontrava em Oxford. Da carta sobreviveu um rascunho e, alguns dizem, uma resposta (a resposta, porém, é a outra carta.)* No rascunho, o Dr. Antunes informa Geerdts que Pessoa fez explodir uma casa de campo em que se encontrava, morrendo ele e várias outras pessoas. Eis a passagem relevante do rascunho:

Late F A N Pessôa who is thought to have committed suicide: at least he blew up a country-house in which he was, dying he and several other people. (22)

Apreciado segundo critérios normais de expediência, o método de suicídio descrito é laborioso e de resultados incertos. Não obstante, o incidente tem semelhanças e diferenças com os outros incidentes ígneos já discutidos. Ao contrário da casa Teive esta casa de campo arde ou pelo menos explode. Como no caso de Heróstrato, não é prima facie claro aquilo que morre.

Com o rascunho, sobreviveu uma espécie de nota prévia que contém a indicação de quatro cartas a assinar por F. Antunes:

Letter for Information as to character of myself: 

1. Registrar (Essays) Self as mentally ill.

2. Geerdts. Oxford (Lincoln College) giving self as dead. 

3. Beicher - giving self as mentally ill.

4. Dr. Haggar - self as mentally ill.

Signature F. Antunes. 

Cada uma destas cartas é seguida de uma breve epítome. Três delas (a primeira e as duas últimas) são muito parecidas: «self,» ou «giving self,» «as mentally ill.»  A segunda carta, cujo rascunho nos ocupa, tem um resumo diferente: «giving self as dead.»

Não temos neste caso a ajuda de Manuela Rocha para traduzir a expressão. «Apresentando-me como morto», «dando-me como morto», «mostrando-me como morto», no sentido de ‘proving myself dead’? «Self,» seja como for, parece ser a versão estenográfica do «myself» do título e não um espasmo hegeliano, o que seria aliás incaracterístico. Tal aliás em nada diminui a pungência das epítomes. E, traduções aparte, o resumo da carta sugere que o propósito desta é dar-se ou mostrar-se Pessoa a si próprio como morto (como o das outras é dar-se por doido). O método ou as causas da morte podem ficar por conta de Heróstrato e Teive e ser deixada a sua determinação ao Inspector Quaresma, a quem nem faltarão aqui crime e quinta. Não é difícil, por exemplo, imaginar o futuro suicídio de Teive sob a espécie de uma feerie herostrática, Aveiro a falar grego (como num romance de Joseph Conrad), nem imaginar um incêndio do Templo de Diana em Éfeso como uma ocorrência na Évora da Grécia antiga (e.g. num romance de Walter Pater).

As poucas pessoas que se referiram a estas cartas puseram-nas por conta do espírito reinadio do vate. Não admira que C. J. Jennings, um dos primeiros a escrever sobre Pessoa na África do Sul, tenha chamado às tentativas «farsa.» (58)  Desde pequeno, ou pelo menos desde novo, que Pessoa seria dado a partidas. Geerdts aliás pode ter sido o primeiro a entender assim a prosa do Dr. Antunes, porque lhe respondeu de um lugar suspeito na Prússia Ocidental.

A expressão «giving self as dead», todavia, é curiosa a outros títulos. O mais evidente, e aquele que interessa mais, é simplesmente a noção de que alguém possa escrever uma carta em que se faz passar por morto. Bem entendido, para o fazer terá também de se fazer passar por outra pessoa. O autor desta carta é um escritor que se faz passar por outra pessoa para se mostrar como morto. A ênfase não cai aqui na acrobacia pseudonímica, caricaturada na designação ‘Faustino Antunes,’  mas antes naquilo a que alguém chamou uma vez «uma antiga pessoa,» alguém, neste caso um escritor, que já não está vivo. Se não está vivo, claro, não pode sob tal descrição ter sensações, sentimentos ou disposições, e muito menos exprimir aquilo a que normalmente se chama atitudes proposicionais. Não pode crer, desejar ou duvidar. Podendo provavelmente ter aquilo a que os antigos chamavam alma, não pode, no entanto, ter o desejo de exibir os seus produtos. 

Ao sobrepor a quase-carta a Clifford Geerdts às duas outras anedotas discutidas obtêm-se uma série de auto-descrições de um escritor em que este se caracteriza de modos diversos por não arrastar consigo uma obra, uma mente, ou uma vida. Ao que não se obtém chamei no início intuições básicas sobre literatura. Pouco em Pessoa dá de facto conforto a tais intuições. E isto suscita-me um pressentimento. Passar-se por outra pessoa para se mostrar como morto talvez seja uma explicação para aquilo a que no ramo se costuma chamar a génese dos heterónimos. Se for assim, a carta a Clifford Geerdts é o mais antigo programa sistemático da génese dos heterónimos, já não explicada como o resultado de uma tendência para «me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram» (341) mas como uma operação em que Pessoa começa por se fazer explodir (numa casa de campo) para que se possa mostrar como escritor. A estrutura parece-me recorrer de muitos modos: no testamento de Teive e no panegírico de Heróstrato, bem entendido; na iterada afeição de Pessoa pelos Pickwick Papers, que está por perceber; nessa sua outra afeição pelo espiritismo, que tanto precisa de ser resgatada dos seus actuais inquilinos; e na quase-carta a Clifford Casais Monteiro, a que aludi acima, onde as explicações por tendências são sombriamente esvaziadas. «Não sei,» escreve com efeito aí Pessoa «se sou eu que não existo.» (id.) A todo este programa, que requer ser descrito em mais pormenor, podia em qualquer caso chamar-se fogo posto.

 

* Uma tradução desta resposta foi publicada pela primeira vez por Yara Frateschi Vieira. «A carta de Clifford Geerdts sobre Fernando Pessoa». Colóquio/Letras. (104-105). 1988. 117-123, esp. 121-123.

OBRAS CITADAS

JENNINGS, C. J. Os dois exílios. Fernando Pessoa na África do Sul. Porto: Centro de Estudos Pessoanos. 1984.

PESSOA, Fernando [Faustino Antunes].«Letters for Information as to Character of Myself». T.R. Lopes ed. Pessoa por conhecer. Textos para um novo mapa. Lisboa: Estampa. 1990. 2:22

PESSOA, Fernando.«A Adolfo Casais Monteiro. 13 de Janeiro de 1935». Correspondência. 1923-1935. M. Parreira da Silva, ed. Lisboa: Assírio & Alvim. 1999. 337-347.

PESSOA, Fernando. Heróstrato e a busca da imortalidade. R. Zenith ed. & M. Rocha trad. Lisboa: Assírio & Alvim. 2000

PESSOA, Fernando [Barão de Teive] A educação do estóico. R. Zenith, ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001

 
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