É certamente mais comum e interessante fantasiar com a abundância de dinheiro do que com a falta dele. Talvez assim se expliquem duas coisas: a falta de importância oferecida ao tema do dinheiro para Bernardo Soares e a existência dele, não necessariamente nesta ordem.

O esforço para dissolver a aparência paradoxal da relação entre dinheiro e liberdade esboçado em O Banqueiro Anarquista não encontra continuidade no relato de Soares. O trecho 145, sobre as diferenças entre o ajudante de guarda-livros e um milionário americano, ajuda a assinalar as diferenças.

 

Quanto mais alto o homem, de mais coisas tem que se privar. No píncaro não há lugar senão para o homem só. Quanto mais perfeito, mais completo; e quanto mais completo, menos outrem.

Estas considerações vieram ter comigo depois de ler num jornal a notícia da grande vida múltipla de um homem célebre. Era um milionário americano, e tinha sido tudo. Tivera quanto ambicionara — dinheiro, amores, afectos, dedicações, viagens, colecções. Não é que o dinheiro possa tudo, mas o grande magnetismo, com que se obtém muito dinheiro, pode, efectivamente, quase tudo.

Quando depunha o jornal sobre a mesa do café, já reflectia que o mesmo, na sua esfera, poderia dizer o caixeiro de praça, mais ou menos meu conhecido, que todos os dias almoça, como hoje está almoçando, na mesa ao fundo do canto. Tudo quanto o milionário teve, este homem teve; em menor grau, e certo, mas para a sua estatura. Os dois homens conseguiram o mesmo, nem há diferença de celebridade, porque aí também a diferença de ambientes estabelece a identidade. Não há ninguém no mundo que não conhecesse o nome do milionário americano; mas não há ninguém na praça de Lisboa que não conheça o nome do homem que está ali almoçando.

Estes homens, afinal, obtiveram tudo quanto a mão pode atingir, estendendo o braço. Variava neles comprimento do braço; no resto eram iguais. Não consegui nunca ter inveja desta espécie de gente. Achei sempre que a virtude estava em obter o que não se alcançava, em viver onde se não está, em ser mais vivo depois de morto que quando se está vivo, em conseguir, enfim, qualquer coisa de difícil’, de absurdo, em vencer, como obstáculos, a própria realidade do mundo.

Se me disserem que é nulo o prazer de durar depois de não existir, responderei, primeiro, que não sei se o é ou não, pois não sei a verdade sobre a sobrevivência humana; responderei, depois, que o prazer da fama futura é um prazer presente — a fama é que é futura. E é um prazer de orgulho igual a nenhum que qualquer posse material consiga dar. Pode ser, de facto, ilusório, mas seja o que for, é mais largo do que o prazer de gozar só o que está aqui. O milionário americano não pode crer que a posteridade aprecie os seus poemas, visto que não escreveu nenhuns; o caixeiro de praça não pode supor que o futuro se deleite nos seus quadros, visto que nenhuns pintou.

Eu, porém, que na vida transitória não sou nada, posso gozar a visão do futuro a ler esta página, pois efectivamente a escrevo; posso orgulhar-me, como de um filho, da fama que terei, porque, ao menos, tenho com que a ter. E quando penso isto, erguendo-me da mesa, é com uma íntima majestade que a minha estatura invisível se ergue acima de Detroit, Michigan, e de toda a praça de Lisboa.

Reparo, porém, que não foi com estas reflexões que comecei a reflectir.

O que pensei logo foi no pouco que tem que ser na vida quem tem que sobreviver. Tanto faz uma reflexão como a outra, pois são a mesma. A glória não é uma medalha, mas uma moeda: de um lado tem a Figura, do outro uma indicação de valor. Para os valores maiores não há moeda: são de papel e esse valor é sempre pouco. Com estas psicologias metafísicas se consolam os humildes como eu.
(Pessoa, Fernando. Livro do Desassossego. Edição de Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009.)

 

As consequências absurdas do raciocínio do banqueiro contrastam com a resigna­ção pela qual o semi-heterónimo vislumbra outra forma de liberdade. Sejam embora absur­das, as conclusões de um não são o absurdo com que o outro vence a realidade do mundo, mas o contrário disto: um absurdo parece-se com redução e outro com elevação. A ironia do contraste é intensificada quando somadas as intenções presumivelmente de um revolucionária e anti-revolucionária de outro.  A redução ao absurdo do argumento do banqueiro contempla duas possibilidades tendo como fim a libertação daquilo a que chama ficções sociais: ser o banqueiro anarquista ou ser Timon de Atenas.  A elevação do absurdo de Soares consiste por outro lado em interromper o argumento. Chama a esta interrupção sabedoria e consolo, como se encontrasse identidade entre estes conceitos e mais liberdade na sua possibilidade de ser vislumbrada do que na impossibilidade de ser adquirida.

Entre estas duas posições, o Barão de Teive parece exemplificar outra descrição: não a daquele que adquire nem a daquele que se resigna, mas a daquele cuja impossibilidade o leva ao suicídio. Esta impossibilidade não é somente a de fazer arte superior, mas principalmente de não ter o consolo que permita que a possibilidade sobreviva. Deste modo estranho, talvez possamos perceber nas pequenas e episódicas descrições de liberdade a que Soares chamou Livro do Desassossego uma ideia segundo a qual esta liberdade pequena e interrompida pode ser mais libertadora do que outra, herdada ou adquirida ou mesmo plena. 

Partilhe:
Facebook, Twitter, Google+.
Leia depois:
Kindle