Ora, um pouco de conversa de mesa nunca fez mal a ninguém. Jogava ténis, eu, em rapariga. De acordo com o género, épico, a coisa havia de se desenvolver por etapas até ao topo. E eu iria vencendo obstáculos — a vida em geral, falhas de carácter e lesões nos membros — para, por meio da determinação e da força de uma vontade que ora se impunha ora se não impunha para ser mais dramática, chegar ao cúmulo do serviço e da passada. Basta dizer que até hoje não consegui fixar a forma de contagem dos pontos no tal jogo do ténis, nem tive o gosto de saber como é que se ganha uma partida. A minha geração, valha-nos Deus, viveu no desprezo de toda a actividade física que não fosse bibícola, prandial ou sexual. Nem sequer passeávamos, a não ser em termos peripatéticos! Era tudo intelectual de café, e a esta distância me parece que era cafeína bem mal empregada. Os homens, posto que poetas, ainda se permitiam achar o futebol um jogo de grande beleza estética (dizia-se beleza estética, para a distinguir de outras), uma coisa linda, mas deviam ler primeiro o Edgar Morin (algo sobre a tribo) e admirar o Hemingway das armas de fogo e das touradas. E que escrevia de pé, como as árvores. Suicídio viril e por aí adiante. O desporto favorito destes homens, posto que poetas, posto que republicanos, ou de esquerda, eram as mulheres. Esse continente misterioso. O eterno feminino. Aceitável era ser-se da Académica, aqueles futebolistas eram mais cultos, pontapeavam, sábios, um deles até publicou poemas, o que entorpecia a nossa consciência de que o futebol era, e ainda é, o ópio do povo. O ópio é que já não tem a má imprensa que tinha então. Não digo que não se desse já atenção estética ao futebol (e que bem que se escrevia n´A Bola era a opinião aceite) e a desportos elitistas como o ténis, mas a gente só via de longe, não praticava. Sabia como se velejava, mas não se metia à besta dentro de água. E volto à autobiografia, breve, sem delongas. No meu caso, censuro o joelho esquerdo, que me falhou sempre que precisei dele para o desporto, vítima de um acidente de bicicleta parada (mas a bicicleta ficou para a vida, só para verdes a falta de justiça que rege as coisas) e acabei por nunca ser atleta. Não me preocupou o joelho, não me passava pela cabeça o joelho e não tratei. O joelho não fazia parte da maquinaria do intelectual. (Ponho aqui uma graçola sobre o “escrito em cima do joelho”?). E não me fez falta no currículo até começar a ver os currículos destes novos escritores que correm, jogam futebol, praticam desportos de competição. Esqui, aqueles que saltam a voar de alturas descomunais! Oh, quem me dera! Mas o preconceito aliou-se à lesão e despreocupou-me o que me devia ter preocupado. E hoje quando deito os olhos ao mar e o vejo salpicado de surfistas, ou vejo gente a jogar râguebi, ou boxe, penso, foste burra!, não te preparaste. Agora olha: ioga e viva o velho. Quem sabe se não falhei uma vocação de pugilista, pelo mero preconceito de que um intelectual não anda à pancada e não pratica desportos de combate ou competição? Figurões pálidos do passado, ó intelectuais de café, fumadores, alcoolizada gente sentada, a responsabilidade é vossa, mas a culpa, infelizmente, é minha.

Conversa de Mesa

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