XII


E disse
“Dá-me uma hora entre quatro paredes
E terás a lesma — palavra na borda da chávena
                     O fio de cuspo na janela comum
Verás um homem com uma agulha nos olhos
                     Os lábios brancos
Como um suicídio em rima pobre

Supõe que chegámos a este quarto
Com aluguer de memória no serviço
Supõe um modo único de despedida
Sem naperons ou devoluções
Tão pouco inconveniências de bidé

Supõe ainda um esquecimento consentido
                     Destinado ao aterro
Em desmedida violência só porque sim
                     Coração míope e pedra no coração
E será outra a biografia ao nascer do dia”
Ainda disse

 

XIII


Chegámos aqui de óculos escuros, ventres inchados
Prestes à consolação
                     Em obediência aos panfletos
E às promessas esquecidas
Do alto absoluto para o absoluto esquecimento
Na quase coincidência

Ou quase evidência do cascalho derredor
Com a dormência dos pequenos cadáveres
De um lado a carne desprendida
Do outro a maçada de não chegarmos a horas
Culpa e silêncio confortável
Serão a última ceia num dialecto invisível ou
Mais confortável ainda

Posfácio a dispensar índice num cais onde os comboios
São navios parados
Sem vento
Sem terra no mar

 

XIV


Digo
Soubesse o que me esperava
E a certeza de te olhar seria como uma chuva
Sobre morada injusta
                     No caminho deixando breves recados
                     Minúsculas doenças
Na infame maneira de regressar a casa

Jurei ser poeta de canivete no bolso
                     Com a maldade escondida
Pronto a um destino sem dignidade
                     Como laranja esquecida

Capaz de uma dor fora de horas
                     Ou álcool inacabado
À primeira chuva
Um rato ou talvez a parede subtil
Repartiram os ténues versos
De súbitas indecências

 

NUNES DA ROCHA, AMADORA, 2014

Partilhe:
Facebook, Twitter, Google+.
Leia depois:
Kindle