A minha escolha é estapafúrdia. Jamais António Franco Alexandre ganharia o Prémio Nobel da Literatura. Ainda assim, a recente atribuição do Nobel a Bob Dylan levou-me a pensar no prémio, em prémios literários, aliás, de uma forma para mim inusitada, e acredito que essa atribuição tenha levado muitas outras pessoas a pensar como se chegam a tais conclusões. É estranho (se calhar saudável) pensar que me lembro do Prémio Nobel só quando o mesmo é atribuído, uma vez por ano, tal como nos lembramos de certos familiares só quando chega a altura do seu aniversário. Na verdade, não interessa muito. Ainda assim, é um acontecimento, e é como se o mesmo voltasse a ter para nós uma realidade e uma importância que tristemente definham no resto do ano. A arte de Dylan, que muito prezo, ganhou o Nobel. Os limites da noção de literatura foram testados, ultrapassados? Não dá essa ideia. Não acredito que um escritor resolvido se empenhe num fundo trabalho de revisão da sua ordem de prioridades criativas depois da atribuição do Nobel a um músico e escritor de canções. Os leitores não levarão a literatura verdadeiramente a sério depois da inesperada atribuição? Seria tão-só sintoma de prévio desinteresse. Os padrões de selecção da academia sueca são-me tão estrangeiros como a repartição das tarefas e as horas de refeição da família na casa vizinha. Não há como entender semelhante engrenagem. Profícuo mistério, esse, que de um momento para o outro nos leva a debater literatura nas escadas dos prédios e dos escritórios. Nunca tantas opiniões terão rompido a arrepiante atmosfera dos open-spaces das redacções de cultura dos jornais. De repente, toda a gente sabe traçar a fina distinção entre literatura e música, entre poema e canção. Depois do caldo entornado, o escritor senta-se e escreve, abstraído, o leitor senta-se e lê, abstraído. Um novo premiado substituirá Dylan este ano, e se tudo correr bem a conversa acerca do Nobel resumir-se-á a um dia e meio de debate, não mais do que isso. Assento a poeira aqui e nela estendo o nome de António Franco Alexandre. Impossível, dir-me-á qualquer pessoa que saiba como estas coisas funcionam. E é mesmo. Mas não deixa de ser o nome que me veio à cabeça, antes de todos os Murakamis deste mundo. No contexto sueco, Franco Alexandre tem tudo a seu desfavor: nunca constou nos quadros de honra da Ladbrokes’, não está traduzido, salvo em esforços pontuais, é um grande poeta, português ainda por cima, e não publica um livro há mais de dez anos. Para além disso, é um autor bastante ignorado por cá, de lavra difícil e espectacularmente fora de moda. O seu exotismo não se relaciona com remotas geografias ou tópicos de inflamada actualidade, mas com o modo de fazer do seu poema um virar de costas sedutor e, em suma, de pensar cada livro como especial recanto em que inteligência e subtileza de expressão luzem em igual medida. («Not much», dirá o atento apostador.) Tem parte da obra reunida na Assírio & Alvim, no volume Poemas. Quatro outros livros foram depois publicados na mesma editora. Este é o meu premiado. Suspeito que só se possa falar nestes prémios num sentido individualizado, e nunca mencionando porquês alheios. São os nossos prémios. Atribuímo-los em nome individual. Estamos sempre a fazê-lo. Até quando pensamos nomes em voz alta. É isso o que agora faço. Um nome.

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