O Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico tem à sua guarda álbuns de fotografias de família, em diversas coleções tais como a coleção Família Dores da Cunha, a coleção Leilão José Manuel Rodrigues e a coleção Ana Maria de Sousa Holstein Beck, estando os álbuns da última disponíveis através da Base de Imagens do AML, na internet.

Os referidos álbuns cobrem o período dos finais do século XIX até ao último quartel do século XX, mostrando as várias tipologias de álbuns de fotografia, entre o álbum vitoriano e o álbum de cartolina escurecida, do qual se podem ver os mais antigos sem folha vegetal a proteger as imagens coladas e os outros já com esta proteção.

O álbum de fotografias surge na década de 1860, no enquadramento da cultura vitoriana. A atribuição álbum vitoriano foi dada àquele que se conhece como o primeiro livro/álbum a guardar as fotografias de família.

Primeiro, na forma de álbum vitoriano, carregado de fotografias carte de visite e cabinet (fotografias coladas em cartões de estúdios fotográficos nos formatos 6.5x10.5 cm e 10.5x16.5 cm), que encaixavam perfeitamente nas ranhuras pré-definidas das folhas do álbum. Este objeto delineava uma história de vida estática e cristalizada, de personagens sujeitas a uma máquina fotográfica de grande formato, pesada, onde era disposta uma chapa de vidro de fraca fotossensibilidade a longos tempos de exposição à luz escassa dos estúdios, que espreitava das superfícies envidraçadas. Numa postura rígida, sólida, quase escultórica, as figuras fotografadas encaravam o aparelho fotográfico, apoiadas em suportes próprios que as mantinham estáticas. Neste álbum, os retratos constituem uma galeria de rostos quase sem expressão, adornados com os seus melhores trajes para que a sua representação fosse digna da posteridade oferecida pela fotografia.

Depois, num ganho substancial, a imagem liberta-se dos espartilhos da representação do estúdio e adquire expressão corporal, modos novos de apresentação, agora também em espaços privados. Nas primeiras décadas do século XX, esta atitude ainda conservava alguns parâmetros e, se o sorriso passa a figurar com facilidade, ainda se mantém num enquadramento ponderado, denotando as regras básicas de fotografar retratos. Com o passar do tempo, as atitudes tornam-se espontâneas e emotivas e os enquadramentos mais criativos.

Os temas representados são os encontros de família à volta da mesa, em práticas de lazer: idas à praia, férias ou passeios; a casa e o automóvel, as cerimónias familiares como o Natal e a Páscoa, havendo uma escassez de imagens de casamentos e batizados, nas primeiras décadas do século XX. Contudo, também há outros temas menos divulgados, como os álbuns do trabalho de uma quinta, de uma oficina ou de uma fábrica, com as atividades e os trabalhadores que fazem parte do quotidiano da família. Por outro lado, os animais de estimação ocupam um lugar de destaque nos álbuns da família, podendo estar ilustrados em várias páginas.

Os álbuns singelos das cartolinas escurecidas em vários tons: avermelhados, acastanhados, esverdeados ou azulados; serviam também para inscrições relevantes como datar, identificar pessoas e locais, bem como dar a conhecer as expressões familiares e os diminutivos entre os elementos da família, revelando o trato íntimo e, por vezes, somente usado “entre portas”. São estas legendas que mais tarde servirão de fio condutor às narrativas criadas e desenvolvidas em família, por vezes algo deturpadas ou exageradas pela interpretação de quem não viveu os acontecimentos.

Nos álbuns vitorianos encontram-se fotografias de estúdio assinadas por fotógrafos profissionais, representados pelos estúdios, mas nos álbuns posteriores são as fotografias de fotógrafos de ocasião e amadores que predominam nas páginas. Neste contexto, o produtor deste tipo de imagens deixa de ser o técnico que conhece bem a prática fotográfica e passa a ser alguém encantado pela fotografia, interessado nas novidades técnicas e atento às novas práticas de lazer, centrando o seu olhar na família e amigos que o rodeiam. Estas novas imagens proliferam e a produção fotográfica é assegurada por esta nova atitude de representar a família. Ainda hoje assim acontece. A progressão técnica de captação de imagens e os modos de a arquivar mantêm-se em atualização devido à produção massificada de imagens de ocasião.

 

Fotografar/Arquivar

Revelar e perscrutar narrativas em álbuns de família abala os cânones do alinhamento conhecido da história da fotografia. Neste caso, paira a interpretação emotiva que se define numa conjugação de várias informações entrelaçadas: a história social, económica e, por vezes, política, com o impulso emotivo de quem fotografou, ou seja, os estímulos que teve para fotografar o grupo representado, para que depois se consiga delinear o significado das imagens guardadas em álbuns - o fotógrafo ou os fotógrafos que partilham estas tarefas (fotografar/arquivar) querem preservar a memória da família, num claro interesse pela passagem de testemunho visual focado nas gerações vindouras e, por isso, insistem nas legendas, em certos casos, bem desenvolvidas. Ao manter o encadeamento das imagens de várias gerações estão a revelar a sua pequena história que, podendo assemelhar-se a outras pequenas histórias, distingue-se pelas subtilezas que o grupo apresenta.

Geoffrey Batchen, numa entrevista ao jornal Público em 11 de junho de 2008, aquando da sua passagem por Lisboa, afirma: «Acho que uma parte da história da fotografia tem de situar a fotografia numa rede mais vasta – de relações sociais, de trocas económicas e políticas. Enquanto historiadores, vamos ter de saber lidar com o sentimento. Que é uma coisa que a história tem tendência a ignorar. Mas não se pode falar dos instantâneos sem falar das emoções que induzem nas pessoas. Se calhar, isso significa que temos de começar a escrever histórias da fotografia mais parecidas com romances».

Talvez a emoção seja transversal a várias disciplinas e o óculo não deva ser o da história, mas o entrelaçado das várias ciências com os diversos contributos que ajude a perscrutar este elo, que tanto nos encanta. A emoção paira na fotografia de família e é ela que nos cativa, quer seja pelos laços estabelecidos com os representados ou com os significados apresentados, quer seja pela similitude que encontramos nas fotografias dos outros que acionam a nossa memória num enquadramento aproximado que fazemos com as nossas imagens. Talvez ainda seja necessário recorrer ao nosso reservatório emotivo para nos ligar às fotografias de família e, consequentemente, aos álbuns que desencadeiam narrativas visuais, numa mostra de gestos e modos de estar.

O álbum vitoriano exige manuseamento cuidado e torna-se num objeto de culto, pouco consultado, mais adequado à decoração de uma sala vitoriana, partilhando o espaço com outras peças decorativas enquanto o álbum de fotografias, a partir do século XX, mais ligeiro e maleável, normalmente guardado em gavetas ao lado da correspondência familiar, liberta facilmente histórias, quando folheado.

Os álbuns de fotografia encerram igualmente uma seleção fotográfica. Esta é feita tendo em conta o significado da imagem, mas também a relação entre as várias imagens de uma página. Desta forma, a fotografia ganha mais valor: acresce ao seu valor intrínseco, o significado relacional.

A preservação da imagem, fixada na página do álbum por pequenos cantos, cortes embutidos na folha ou fita-cola na parte posterior, pode estar comprometida pelo dano que pode provocar ao suporte fotográfico, agravado pelas folhas de papel ácido do álbum, mas é a forma de conservar o significado relacional entre as fotografias e assim destacar este objeto como referência para a história da fotografia.

O tratamento institucional nunca desagrega as imagens do seu álbum, conservando a sua forma original como um documento composto, e enumera todas as imagens sequencialmente. Quando estes álbuns são incorporados num acervo institucional, tornam-se plataformas de informação imagética e textual.

Como objeto destaca as imagens de ocasião, estando entrelaçadas com o registo da fotografia popular, que tem entusiasmado investigadores de distintas áreas, por ser produção de todos, por revelar a privacidade só possível através de alguém que pertence ao grupo e, por se verificar uma analogia temática e de abordagem técnica repetida, vezes sem conta, em todos os álbuns de fotografia de família. Uma tendência comportamental de fotografar da mesma forma, os mesmos assuntos e com as mesmas atitudes. Uma representação da sociedade contemporânea acessível a todos.

Desta forma, o álbum de fotografias torna-se o objeto de estudo para investigadores, manifestando a sua relevância nos textos sobre a história da fotografia.

A fotografia de alguém em frente da Torre Eiffel é incomensuravelmente registada, dando prova da sua presença, mas a sua história é sempre diferente quando colocada num álbum ao lado de outras imagens. Ganha outra interpretação e uma história própria.

Folhear as páginas e revelar as imagens encerradas num álbum pode ser o impulso para histórias, que alguém já contou, mas que ganham outras formas quando passam para outras mãos.  

 

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LEGENDAS DAS IMAGENS

Autor das imagens: Nuno da Fonseca

 

  • FOTOGRAFIA colec FDC1 – Coleção Família Dores da Cunha, álbum 3, 25.5x34.5x4.5 cm (entre 1920 e 1930). PT/AMLSB/FDC
  • FOTOGRAFIA colec FDC2 - Coleção Família Dores da Cunha, álbum 7, 29.5x26x9 cm (entre 1940 e 1960). PT/AMLSB/FDC
  • FOTOGRAFIA colec FDC3 - Coleção Família Dores da Cunha, álbum 7, 29.5x26x9 cm (entre 1940 e 1960). PT/AMLSB/FDC
  • FOTOGRAFIA colec LJM1 – Coleção Leilão José Manuel Rodrigues, álbum vitoriano, 17x14x6.5 cm (entre 1890 e 1910). PT/AMLSB/LJM
  • FOTOGRAFIA colec LJM2 - Coleção Leilão José Manuel Rodrigues, álbum vitoriano, 17x14x6.5 cm (entre 1890 e 1910). PT/AMLSB/LJM
  • FOTOGRAFIA colec LJM3 - Coleção Leilão José Manuel Rodrigues, álbum vitoriano, 17x14x6.5 cm (entre 1890 e 1910). PT/AMLSB/LJM
  • FOTOGRAFIA colec ANHB1 – Coleção Ana Maria Holstein Beck, álbum 17, 31x45x11 cm (entre 1942 e 1973). PT/AMLSB/BEK
  • FOTOGRAFIA colec ANHB2 – Coleção Ana Maria Holstein Beck, álbum 17, 31x45x11 cm (entre 1942 e 1973). PT/AMLSB/BEK
  • FOTOGRAFIA colec ANHB3 – Coleção Ana Maria Holstein Beck, álbum 17, 31x45x11 cm (entre 1942 e 1973). PT/AMLSB/BEK