Segunda parte

O Contexto de Quentin Skinner

 

Art of Theory: Chegou a Cambridge como aluno de licenciatura e, tirando uns anos no Institute for Advanced Study, em Princeton, e a sua passagem recente para o Queen Mary, fez grande parte da sua carreira em Cambridge; é conhecido como um dos fundadores da «Escola de Cambridge» na história do pensamento político. Pode falar sobre a importância de Cambridge no seu trabalho? Como é que é estar, agora, noutro sítio?

Skinner: Na verdade, como não pediram que me demitisse quando fui para o Institute for Advanced Study, a minha carreira em Cambridge durou, ininterruptamente, quarenta e seis anos. Quando me reformei, era o docente mais antigo em funções. Isto agora parece muito estranho e estou mais consciente, agora que saí, daquilo que desperdicei por não ter circulado mais; mas não parecia estranho na altura.

Cambridge tinha instalações fantásticas e é preciso lembrar que, nos anos sessenta, saber se uma universidade tinha uma boa biblioteca era muito importante. Também tem estudantes extraordinários, entre os melhores e mais talentosos que se pode encontrar, e foi sempre um grande prazer leccionar lá; mas agora parece, de facto, estranho.

Enquanto aluno de licenciatura frequentei o colégio Gonville and Caius, porque o meu irmão andou lá, por isso foi uma sorte para mim que essa acabasse por ser uma boa escolha para estudar História. Na altura era dirigido pelo Neil McKendrick, que posteriormente acabou por se tornar Mestre do colégio, e que era um professor muito talentoso. Era muito bom a motivar-nos e desejava que fossemos bem sucedidos mas o curso tinha pouco interesse.

Naquela altura Pré-Reforma, o curso de História era quase só alta política, e era fortemente orientado para o Reino Unido, pelo que estudei a alta política do Reino Unido desde 1485 até ao ano de 1961, ou lá quando foi que estava a estudar, e não havia grandes desafios intelectuais. Também era muito orientado para a biografia e não era muito ao meu gosto intelectual.

Tive, no entanto, a grande sorte de, na altura em que lá estive, me ter deparado com uma disciplina especial sobre o Iluminismo escocês, centrada na filosofia de Hume e de Smith, que fiz com um historiador intelectual chamado Duncan Forbes.

Não posso afirmar que ele tivesse grande domínio dos textos quando estava a leccionar a disciplina porque era o seu primeiro ano a leccioná-la; mas era um excelente orador e, claro, os textos eram maravilhosos. Tivemos oportunidade de estudar, para além da teoria política, grande parte dos textos de Hume sobre moral e religião. Portanto, mesmo no meio do que poderia ter sido um curso bem aborrecido, tive um arranque promissor em história intelectual.

Mas houve sempre uma grande tradição de história intelectual em Cambridge e penso que isso pode ser explicado, institucionalmente, pelo facto de Cambridge não ter, até muito recentemente, um departamento de Política. Muito daquilo que, nas universidades americanas, teria sido feito num departamento de Política – qualquer História Intelectual, Teoria Política ou História do Pensamento Político – era feito no departamento de História. Portanto, História era um departamento extremamente amplo que albergava um conjunto de historiadores intelectuais.

Havia vários professores muito bons e tive um conjunto de colegas realmente brilhantes que partilhavam muitos dos meus interesses intelectuais. O mais importante foi, de longe, o John Dunn, que foi meu amigo desde o tempo da licenciatura e que continua a ser um amigo. Penso que provavelmente aprendemos mais com os nossos pares do que com os nossos professores.

Art of Theory: Fez uma transição espectacular em Cambridge de licenciado para docente, sem doutoramento, quando tinha vinte e um anos. Pode falar um pouco sobre essa experiência?

Skinner: Sim, foi um coisa extraordinária que aconteceu embora não fosse assim tão extraordinária na altura.

Quando me licenciei, o governo tinha adoptado uma coisa sobre educação universitária chamada Relatório Robbins, e isso teve o efeito de, num muito curto espaço de tempo, aumentar de 4% para 14% o número de alunos elegíveis que se inscreviam por ano numa universidade.

Foram fundadas seis universidades novas e o corpo docente que as compôs vinha maioritariamente das universidades com melhor investigação – sobretudo Oxford, Cambridge e Londres. Como resultado, em Oxford e Cambridge houve uma limpeza de docentes a meio da carreira que deixou um buraco no corpo docente que as pessoas da minha geração puderam preencher. Fomos uma geração muito afortunada.

Art of Theory: Começou a leccionar desde o primeiro minuto?

Skinner: Dava aulas de licenciatura, sim. Isso sempre quis fazer. Tinha sido professor por um período breve, antes de ir para Cambridge, numa escola secundária moderna de um bairro urbano; essa foi uma experiência dura mas não era por isso que deixava de querer ser professor.

Enquanto aluno de licenciatura tinha tido muitas ditas «supervisões», ou sessões individuais de tutoria, e pude formar muitas ideias acerca de como deveriam ser feitas. Também assisti a um grande número de seminários mas o nível – com algumas excepções honrosas e, de facto, espectaculares – não era alto.

E começas a pensar: porque é que não é alto? E: podes fazer isto e podes fazê-lo ainda melhor? Por isso estava de olho neles.

Estava satisfeito por começar a fazer sessões individuais de tutoria de licenciatura mas aborreci-me rapidamente. Tinha-o feito durante doze anos, quando troquei Cambridge por Princeton, e fiquei muitíssimo satisfeito por ter uma pausa. E porque quando voltei regressei como professor catedrático, nunca mais fiz isso. Não posso declarar que tenha tido saudades. É como estar numa loja onde passam uma lista curta de canções; estamos sempre a regressar ao princípio e, se ficarmos na loja o dia todo, acaba por nos aborrecer.

Só mais tarde é que comecei a dar aulas de pós-graduação e não penso que o tenha feito muito bem. Quando me dei conta, não tinha experiência, por não ter feito um doutoramento; penso que, logo para começar, não tinha competências para fazê-lo.

Mas, mais uma vez, tive muita sorte por as primeiras pessoas que me foram atribuídas, em Cambridge, serem jovens alunos muito talentosos – e isso acabaria por ser evidente. Um deles era o Mark Goldie, e o outro o Richard Tuck, e ambos sabiam o que andavam a fazer. Não era um problema muito grande garantir que tiravam o doutoramento; tê-lo-iam feito de qualquer maneira. 

Art of Theory: Fez referência, noutro local, à sua frustração por ter demorado muito tempo a começar a trabalhar na sua própria investigação.

Skinner: Sim, isso foi um problema porque o trabalho que tinha era muito exigente. O John Dunn arrancou com uma velocidade surpreendente, muito mais depressa do que eu. Ele era um académico muito imaginativo mas também não tinha o mesmo tipo de responsabilidades. Por outro lado, eu tive um contrato sem termo desde o princípio e isso permitiu que seguisse o meu caminho naquilo que estava a fazer. Embora tenha começado de forma lenta, depois de começar consegui produzir o tipo de coisas que queria. Não estava atado de forma alguma pelas formalidades de um doutoramento, o que acho que me ajudou.

Art of Theory: Um dos seus maiores contributos académicos foi a recuperação de um terceiro conceito de liberdade: o conceito republicano ou neo-romano de liberdade como não-dependência. Determinou que este conceito de liberdade remonta ao direito romano e argumentou que a subsistência da retórica clássica e de uma cultura e currículo jurídicos na Europa Ocidental podem justificar o seu reaparecimento na cultura humanista da Renascença.

Pode falar um pouco sobre a sua descoberta do contexto particular dos studia humanitatis? Acredita que os historiadores intelectuais tenham dado o crédito devido à história da educação?

Skinner: Oh, pois, essa é uma excelente pergunta. Não estou, de uma maneira geral, muito interessado em biografia. E suponho que um dos meus pontos fracos óbvios enquanto historiador seja a minha falta de interesse por pessoas. Quero dizer, estou muito interessado em ideias, mas o que as pessoas comeram ao pequeno-almoço não tem grande interesse para mim.

A educação é a excepção. Estou constantemente a ser surpreendido pela forma como a história da educação é posta de parte na história da Filosofia. Se há uma coisa que sabemos por experiência própria é que aquilo que nos foi dado a ler e a aprender nos nossos anos de formação inicial é importante para nós de várias formas. Podem ser formas difíceis de recapturar, mas muitas vezes podem ser recuperadas pelo vocabulário usado, pelo conjunto de questões estudadas, pelas preocupações e por aí fora.

De qualquer maneira, é muitas vezes o melhor que temos e penso que é sempre útil questionarmos com grande detalhe aquilo que pudermos sobre a educação que os pensadores tiveram; ficaremos, no mínimo, com uma ideia sobre o que eles leram e isso é extraordinariamente importante.

Art of Theory: Sublinhou a relevância que certos acidentes na sebenta de Cambridge tiveram para o seu próprio desenvolvimento intelectual.

Skinner: Sim, isso é verdade.

Art of Theory: Os seus recentes seminários Clarendon, em Oxford, eram sobre a importância da teoria clássica da invenção retórica para Shakespeare. Podemos pensar, então, que se está a afastar da História do Pensamento Político? Ou vê o trabalho sobre Shakespeare como parte de um projecto contínuo?

Skinner: Bem, é uma parcela de um trabalho sobre Retórica, do qual já houve outras parcelas. Há muito tempo que ando interessado em História e Teoria da Retórica. No primeiro volume de Foundations of Modern Political Thought tentei aprofundar a importância de uma educação retórica nas primeiras comunas italianas para a produção de um tipo de Teoria Política neo-romana.

Essa foi a minha primeira tentativa de estudar a Retórica na Renascença. A segunda foi quando escrevi Reason and Rhetoric in the Philosophy of Hobbes, cujo pano de fundo era a hegemonia da Retórica na educação escolar e universitária na juventude de Hobbes. Concentrei-me na sua refutação do argumento da retórica dos lugares-comuns como forma de chegar à verdade, e na sua insistência de que isso simplesmente nos faz regressar à opinião comum. Aquilo que se tem de fazer é encontrar um ponto argumentativo a partir do qual questionar a opinião comum – mas mais tarde, claro, ele vai questionar se é assim tão simples quanto isso.

Pode dizer-se que o projecto de Shakespeare se segue a esses dois anteriores: primeiro estudei Retórica e Política, depois estudei Retórica e Filosofia e agora estou a estudar Retórica e Teatro; mas é evidente que é estou a puxar a brasa à minha sardinha ao pôr as coisas assim, porque houve, de facto, um afastamento.

Sempre quis escrever mais sobre Literatura mas senti sempre um certo constrangimento profissional. Agora que sou professor de Humanidades no Queen Mary e não sou professor de História em Cambridge, sinto-me certamente mais liberto para fazer as coisas que quero fazer e isto é, sem dúvida, o que quero fazer. De facto, tenho trabalhado estas questões nos últimos quatro anos e publiquei vários artigos sobre Shakespeare pelo caminho. Mas agora estou a tentar escrever um trabalho de grande escala, do qual saíram os seminários Clarendon, algo que eu espero possa vir a ser um livro.

Por outro lado, espero não perder o meu interesse por questões sobre liberdade e sobre o estado. Tenho muitos ensaios sobre esses tópicos, que me foi pedido que juntasse numa colectânea, e que gostaria de rescrever e transformar em livro. Se eu me for aguentando e a sanidade resistir, o que não é sempre o caso, voltarei a isso.

Art of Theory: Situar Shakespeare e o seu público num tipo particular de cultura retórica neo-romana tem alguma consequência para o nosso entendimento da política cultural isabelina?

Skinner: Sim, penso que tem. Não é algo que eu esteja a planear aprofundar mas a prevalência muito forte da Retórica na elite que governava a Inglaterra isabelina ajuda a explicar, certamente, uma boa parte da maneira como são conduzidas tanto a discussão legislativa como a parlamentar. A discussão parlamentar era deliberadamente retórica, e seguia habitualmente as regras de deliberação, e o argumento legislativo é retórica judicial e, como tal, segue invariavelmente essas regras – isto equivale a dizer que seguia as regras do argumento e não as regras de prova.

Portanto haveria uma grande quantidade de investigação deste tipo a fazer. Só estou a lidar com o caso do Teatro mas há muitos casos que poderiam ser escolhidos. É extremamente influente na cultura e é difícil recuperar o quão fulcral era para a apresentação e organização de argumentos.

Art of Theory: Sob influência da sua metodologia, um conjunto de académicos, incluindo alguns dos seus antigos alunos, tentaram pôr a religião novamente em cena como parte crucial do contexto intelectual no qual estes textos devem ser compreendidos; até o senhor, em Foundations of Modern Political Thought, enfatizou a importância da Teologia. No entanto, tem sido criticado por desvalorizar a importância das considerações religiosas no seu trabalho mais recente; como entende estas críticas?

Skinner: Sim, é um ponto muito interessante para mim porque penso que não lhe tenho sido sensível. Uma das coisas mais extraordinárias para alguém da minha idade é a ressacralização do mundo. Se formos criados com filosofia social weberiana – já para não falar de marxista – então a imagem secularizada da modernidade é absolutamente vital para a ideia de quem somos. E isso tem vindo a ser invertido de uma maneira completamente misteriosa para mim.

É verdade que no livro Foundations of Modern Political Thought há uma quantidade grande de Teologia e muita discussão sobre princípios religiosos em relação a mudanças políticas. Há capítulos inteiros dedicados à Teologia Luterana, Calvinista e Escolástica e tento contar uma história na qual estas estão imiscuídas na política. Lembro-me de a minha mulher, Sue [James], dizer, quando eu estava a escrever esse livro, que estava a começar a preocupar-se que eu me tornasse um convertido! Por isso não acho que tenha desvalorizado o papel da religião nesse texto, embora a religião se tenha tornado outra vez tão importante para a sensibilidade das pessoas que isso é algo que é vulgarmente dito sobre esse livro.

Quanto ao meu trabalho mais recente, estou consciente, e até auto-consciente, sobre o facto de que tento focar a minha atenção histórica em assuntos a respeito dos quais os meus sentimentos sobre religião e teologia não tenham que afirmar-se.

Não sou uma pessoa religiosa. Naturalmente que isso não significa que não seja uma pessoa espiritual. Ofende-me a presunção de que não se é uma pessoa espiritual a menos que se seja uma pessoa religiosa. Mas não tenho qualquer tipo de crença religiosa e, pior ainda, sou uma espécie de ateu enfadonho.

Acho que há dois tipos de ateus interessantes. Há aqueles que pensam como Feuerbach, que a religião é uma deformação de sentimentos e aspirações humanas muito profundas; ou então, há aqueles que pensam que, apesar de a religião poder ser falsa, pode ser uma força agregadora na sociedade, à maneira de Hobbes. Eu penso apenas que, tanto quanto me é dado ver, não há nenhuma razão boa para abraçar qualquer dos fundamentos da hipótese religiosa, pelo menos nas formas que eu conheço. Para mim, não passam de balelas. 

Era isto que eu dizia sobre ser um ateu enfadonho e, como consequência, não tenho muito interesse pela história da religião; é difícil interessar-me pela história de algo que acho serem balelas.

Tento mesmo escolher cuidadosamente tópicos sobre os quais não interesse que seja assim que eu penso. Por causa disso, é possível que eu deixe escapar alguns aspectos acerca do que estou a escrever, e essa tem sido uma acusação que me tem sido feita recentemente na qual tenho tido que pensar. Não consigo perceber se é justa de todo, porque na discussão sobre republicanismo me interessei exclusivamente por teorias da liberdade e pelo constitucionalismo que se lhes segue e não consigo perceber como é que isso pode ser enformado por crenças religiosas; mas é bem verdade que me mantenho longe da religião.

Art of Theory: Nos seus ensaios enfatiza a importância do contexto político para a interpretação mas o contexto político relevante para os seus próprios ensaios e as consequências políticas deles podem ser algo obscuras. Por exemplo, é conhecido por estar fortemente comprometido com a igualdade de género e tem feito muitas coisas, na prática, para o progresso das mulheres em Cambridge; no entanto, assuntos sobre género nunca tiveram muita relevância no seu trabalho filosófico e histórico. Pode falar um pouco sobre a relação entre trabalho académico e contexto político? E sobre se vê problemas de justiça social ou assuntos como a desigualdade de género como sendo assuntos de natureza mais prática do que filosófica?

Skinner: Isto é muito interessante. A promoção da igualdade de género é algo que me interessa muito e tenho ficado chocado, na minha própria profissão, pela forma como os aparentes ganhos dos movimentos feministas dos anos setenta se transformaram numa mera espécie de quotas percentuais nas profissões.

Tudo continua a ser mais difícil para as mulheres, em todas as etapas, e na minha cabeça continua a ser um escândalo que em Cambridge, pelas minhas últimas contas, houvesse 54 membros do corpo docente de História e apenas 16 fossem mulheres. Lembro-me de mencionar isto no meu discurso de despedida aos docentes e de a Melissa Lane me dizer, depois: «Tem a certeza de que são apenas 16? Parece que são muito mais.» Eu respondi-lhe: «Isso é porque as mulheres são espantosas!» É óbvio que parecem mais porque elas têm de ser muito mais espertas, mais reconhecidas, mais empenhadas, mais tudo. Mas 16 em 54 é realmente injusto. Sinto fervorosamente que temos de continuar a forçar estas portas que não estão abertas da forma que deveriam.

De qualquer maneira, não era este o seu ponto. O seu ponto era, parece-me, um que Max Weber levantou belissimamente nas suas discussões sobre vocações.

Sou certamente alguém que tem posições muito fortes, quer políticas, em termos nacionais, quer em relação à carreira. Mas esse sempre foi um princípio meu – não estou certo de que o tenha conseguido manter sempre – adoptar algo desse tipo da visão de objectividade do Weber e manter a política, no sentido partidário, fora da esfera profissional. Isto parece-me ser muito importante. O nosso trabalho académico tem de ter a sua integridade própria. Sentir-me-ia chocado se fosse evidente para os meus leitores que a minha maneira de lidar com os temas de que falo reflectisse as minhas posições políticas.

É claro que a escolha de tópicos de que falo não pode deixar de reflectir os meus valores – de que outra pessoa poderiam ser esses valores? Todos temos de aceitar que quando passo muito tempo a criticar posições liberais sobre liberdade, por exemplo, a dizer que estas absolvem o estado muito facilmente e que poderíamos fazer melhor no que diz respeito às relações entre liberdade e igualdade, que isso é uma posição política; mas é uma posição que eu tento defender em termos estritamente filosóficos.

A política entra na escolha do tópico mas tenho esperança que não entre no trabalho sobre o tópico; espero que esse seja trabalhado com um espírito filosófico escrupuloso.

Art of Theory: Que características da vida política moderna mais o intrigam?

Skinner: Ah! Bem, quando vejo a palavra intriga penso sempre na palavra explicar. O que é que eu não consigo explicar sobre a vida política moderna?

Bem, todos pensamos que conseguimos explicar facilmente os nossos líderes políticos e os seus comportamentos. Chegámos à conclusão de que eles são frequentemente pessoas irracionais, que se guiam pela vontade de poder e que às vezes são loucos. É seguro assumir que têm um cinismo sem fim.

Na América é uma piada gasta dizer que se tem o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar. Veja como isso mostra o tipo de cinismo que temos; pensamos que o percebemos. Neste país, em particular, os políticos são vistos com um nível de desdém extraordinário, muito maior do que nos Estados Unidos.

Suponho que o que mais me intriga acerca da vida política moderna é a vontade de poder; não consigo imaginar não ter a integridade como um dos valores centrais de conduta na minha vida.

Não significa que seja bem-sucedido, mas que isso seria uma ambição. Mas não vejo como é possível comprometer-me durante muito tempo na política moderna, onde a disciplina partidária é tão forte e onde há mentiras necessárias e hipocrisias inevitáveis, e conseguir, ao mesmo tempo, manter a minha imagem de integridade enquanto fundamental.

Soa um pouco pedante mas isso é mesmo intrigante para mim. Não estou a dizer que sou um moralista mas apenas que seria estranho que te posicionasses numa profissão na qual não pudesses ser um moralista.

Art of Theory: Pode falar um pouco sobre o seu método de trabalho?

Skinner: Quando tento fazer pesquisa só estou mesmo feliz com a intertextualidade, a trabalhar com um texto no qual ouça os ecos de outros textos de uma forma que me ajude a explicá-lo. Suponho que os meus princípios sejam muito idênticos àqueles de certos críticos literários que estão particularmente interessados no fenómeno da alusão, críticos como Harold Bloom ou Christopher Ricks.

Eu também estou muito interessado no fenómeno da alusão – ou, de facto, em silêncios ensurdecedores. O tipo de hermenêutica que eu tentei praticar sempre é desse tipo, é sobre pôr textos em contacto com outros textos e ver como se enredam, ou não se enredam.

Se depois me perguntar acerca dos meus processos de trabalho, sobre como acontece ter essas intuições – se é que lhes podemos chamar isso – e também como é que isso depois me leva a escrever sobre elas, devo dizer que acho isso algo enigmático. Deve dar-se apenas o caso de que às vezes se está a ler qualquer coisa e isso atiça algo na nossa mente que parece ser interessante seguir. Às vezes é, mas normalmente descobre-se que se chegou rapidamente a um beco sem saída; isso é da natureza de fazer investigação nas Humanidades.

Art of Theory: É reconhecido como um grande professor e como um orador cativante. Tem conselhos para os professores novos?

Skinner: Acho que à medida que tenho envelhecido tenho ganho gosto em dar conselhos. Costumava ficar muito nervoso acerca de dar conselhos mas agora dou-os a toda a hora!

O conselho fundamental que dou aos professores é que reconheçam que o factor chave no sucesso de um professor é ter entusiasmo pela sua disciplina. É isso que passa numa sala de aula. E se pensar nos oradores de que me lembro da minha licenciatura, era essa a qualidade mais importante.

Ora, a paixão por uma disciplina não é algo que se possa simplesmente adquirir se não existir já; mas, uma vez que se ensina aquilo que se investiga, há a pressuposição de que não deve haver um compromisso com uma investigação apenas por esta estar na moda. As modas passam muito depressa. Se o fizermos por estar na moda que nos preocupemos e não por nos preocuparmos realmente, em primeiro lugar, vamos ficar aborrecidos muito depressa e, em segundo lugar, vamos ficar perdidos quando a moda passar. Ao passo que, se nos mantivermos firmes quanto ao que achamos que interessa, descobriremos depressa que as modas vão e voltam.

Já estive na moda e fora de moda várias vezes e a razão para prosseguir com aquilo que te interessa é que te interessa; se há alguma coisa que te torna interessante enquanto professor, é isso.

Acerca de dar aulas tenho cada vez mais a certeza de que tentar manter o nível dizendo aos académicos novos que aquilo que estão a tentar fazer é quase impossível, e que eles provavelmente não vão aguentar, é completamente errado. A maneira certa de manter o nível é motivá-los tanto quanto conseguires para que façam o melhor que podem. Se não os motivarmos é muito fácil que o seu interesse se extinga.

Penso que a consequência – pelo menos é o que me tem sido dito quando sou arguente – é que eu elogio demais os académicos novos. Espero, certamente, que sim! Aquilo que andamos todos a tentar fazer é algo muito difícil e, se os mais velhos não conseguem compadecer-se para motivar os mais novos, eventualmente tudo isto acabará. Portanto acredito ardentemente que os professores têm de ser motivadores.

Mas tenho outro conselho para dar, ao qual acabei por dar importância ao ouvir académicos novos a apresentar o seu trabalho em conferências. O nosso trabalho é, decerto, inerentemente parricida. A profissão só avança por mudar as questões que uma geração mais velha fez ou então a dar novas respostas a essas mesmas questões. Em qualquer dos casos, vai envolver polémicas e será sustentada por uma espécie de agressividade.

O meu conselho é que tem de se manter isso sob o mais rígido controlo possível. Ninguém no público gosta de ouvir académicos a serem só arrasados. Embora pareça soar bem a quem o faz, nunca cai bem; penso que fui muito culpado disso na minha juventude. Se é para criticar alguém, deve-se fazê-lo por se achar que o seu trabalho tem algo de bom. Quero dizer, se achamos que não presta porque é que nos preocupamos a criticá-lo?

Se achamos que tem algo de bom temos de o tornar claro. Acho sempre que o meu próprio trabalho é mais polémico do que eu estou à espera e recebo uma grande quantidade de críticas. Algumas dessas críticas são miseráveis porque não é possível que seja assim tão mau; se fosse assim tão mau porque é que haveriam de ter passado tanto tempo a lê-lo?

Há outra coisa; é verdade que o modernismo mais avançado fez muitas vezes da dificuldade uma virtude mas o pós-modernismo foi mais longe e transformou em virtude uma forma de escrever hermética nas disciplinas de Humanidades. Não consigo imaginar que isto seja para o beneficio de quem quer seja e muito menos para o público de seminários.

Se somos professores numa universidade sinto que não se pode ser demasiado explícito. Será encantador se também pudermos ser subtis e finos, se escrevermos uma bela prosa irónica, se formos profundos e tudo isso, mas o dever fundamental é tentar clarificar coisas complexas.

É essa a empreitada: não deixá-las complexas; complexas são elas.

Art of Theory: Nos últimos anos, vários académicos têm oferecido as suas versões para aquilo que consideram ser o contexto relevante para entender o seu trabalho e o da «Escola de Cambridge» de forma mais geral. Como paladino do contextualismo, como é que se sente a ter de suportar pacientemente a sua própria contextualização? Se a bitola de uma interpretação é ser reconhecida pelo seu autor, como é que tem estado a bitola tendo em conta as várias contextualizações a que tem sido sujeito?

Skinner: É maravilhoso acabarmos com isto. Isto significa algum trabalho muito bom. A contextualização que o Mark Goldie faz do meu Foundations of Modern Political Thought é muito provocadora intelectualmente e, pensando bem, parece-me correcta.

Mas devo acrescentar que aqueles comentadores que pretendem dizer-me de onde vêm as minhas ideias lembram-me apenas como a biografia intelectual está condenada a ser um género literário empobrecido, a menos que esteja nas mãos de alguém com acesso ao tipo de documentos privados que possam realmente permitir transformar o privado em público.

Apesar de as intenções não serem entidades mentais privadas, existem de facto algumas entidades mentais privadas e elas podem ser absolutamente cruciais para explicar as nossas performances intelectuais. Estas serão do tipo de ambições, ansiedades e agressividades que não aparecerão na superfície textual, e que são demasiado estúpidas para um autor confessar, mas que podem ser, todavia, determinantes. E, assim sendo, penso que o projecto de contextualização nunca satisfará a pessoa que for seu objecto.   

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a primeira parte da entrevista.
Tradução de Telmo Rodrigues.
© The Art of Theory.