Das muitas e variadas coisas potencialmente destrutivas que existem no mundo, há as possíveis e as inesperadas, as conhecidas e as desconhecidas. Pouco ou nada podemos fazer para combater ou prevenir o que nos acontece. Parece tão assustador quanto é realmente, mas as más notícias não acabam aqui. Mesmo as possibilidades conhecidas nem sempre são esperadas. Dir-se-ia que o conhecimento atenuaria o sofrimento, mas na verdade isso quase nunca acontece. Não acontece com a certeza da morte, que tememos e com a qual lidamos com dificuldade, e não acontece com a possibilidade que conhecemos, mas que nunca esperamos que nos aconteça a nós. Não é por soberba. É só uma questão de sobrevivência. Afinal que vida é aquela em que se espera que todos os males do mundo aconteçam? E não será esperar o mal já viver com ele de alguma forma? Pensemos no caso das doenças. Os hipocondríacos conhecem todas as doenças ao pormenor, muitas vezes à excepção da própria doença que se chama hipocondria, e temem ou chegam a desejar que todos os males os afectem. Mas o comum dos mortais não vive à espera de dores crónicas e ataques cardíacos. Sabe que existem, estão aí, mas não pensa nelas e neles até aparecerem. 

Pretendo chamar a atenção para a nossa desprotecção inevitável porque penso que é mais benéfico descontrair quanto à possibilidade de experimentarmos o sofrimento. Mesmo quando julgamos saber tudo sobre tudo, mesmo quando sabemos muito acerca de possibilidades concretas e problemas reais que nos podem bater à porta, não deixamos de sofrer quando acontecem. Nada nos protege contra a dor. Mas as más notícias — ou nem tanto, depende de cada um — não acabam aqui. Além das ditas coisas más que acontecem e que conhecemos ou esperamos ou conhecemos e esperamos ou conhecemos e são inesperadas, há ainda as inesperadas e desconhecidas. Aos acontecimentos maus, raros e que ignoramos chamo “dragões”. 

A designação apareceu numa cena do sétimo episódio da segunda temporada da série televisiva Game of Thrones. Nessa cena, o rei Tywin Lannister fala com Arya Stark, filha de Eddard Stark, que ali se encontra com o maior inimigo do pai, disfarçada de rapariga humilde. Lannister não sabe com quem está a falar, mas desconfia da rapariga que fala demasiado bem e sabe demasiado de história para ser filha de um pedreiro, como afirma. A dada altura da conversa, Lannister explica a Arya o significado da palavra “legado” e para isso conta a história de Harrenhal, o castelo onde se encontram. Harren the Black, o proprietário original, acreditava que deixaria o castelo aos seus filhos, que o passariam aos seus filhos, mas o plano acabaria por não ser cumprido. “Sabes o que aconteceu?”, pergunta Lannister. “Dragões?”, tenta Arya. “Aconteceram dragões”, confirma. Para Arya Stark, “acontecerem dragões” é uma possibilidade conhecida e esperada. Os dragões dela equivalem às nossas dores de cabeça. Para nós, “acontecerem dragões” é simplesmente impensável.

Os efeitos de “acontecerem dragões” são devastadores ao ponto de perguntarmos se haverá vida depois de tal evento. Depende do que resta depois dos estragos. No caso de Jeff Bush, engolido por um buraco de seis metros enquanto dormia na sua casa na Florida, não há nada a fazer. Apesar de a casa ter sido construída numa zona de rocha porosa, que se dissolve em água, nada fazia prever que uma pessoa pudesse ser engolida pela terra e desaparecesse por completo. Nunca ninguém desaparecera assim, embora a formação destes buracos não seja uma novidade na Florida e de até ter havido um caso de morte de uma rapariga de 15 anos na sequência de um acidente de carro provocado pelo colapso repentino da estrada. Mike Merrill, representante do condado de Hillsborough, confirmou que se tratava de “um buraco muito pouco usual”. Ou como diríamos agora que sabemos, “aconteceram dragões”.  

No caso irreversível de Jeff Bush, os dragões tiveram a última palavra. Mas outros casos de acontecimentos maus que ignoramos e não esperamos não produzem um resultado tão definitivo. Há vida além dos dragões que acontecem e nada mais há a fazer a não ser vivê-la. Uma maneira de o fazer é não permitir que sejamos definidos por aquilo que nos aconteceu. A tentação para definir o próximo por o que lhe acontece é grande e injusta. Jeff Bush não merece ficar para a história por ter sido vítima de um dragão especialmente mortífero, do mesmo modo que nenhuma pessoa merece ser definida pela condição que a acompanha e pela qual não é responsável. Ninguém tem culpa de lhe “acontecerem dragões”. Mas toda a gente é responsável, cada um à sua maneira e de alguma forma, por se deixar derrotar por eles.  

A melhor canção que conheço para a vida que recomeça depois da devastação dragónica tem o título “Pick Yourself Up”. Dorothy Fields escreveu os versos e Jerome Kern compôs a música, por esta ordem, para Fred Astaire e Ginger Rogers a cantarem num dueto desencontrado em Swing Time, de 1936. O filme está longe de ser uma obra-prima. Já o mesmo não pode ser dito dos temas compostos por Fields e Kern para Fred e Ginger, como os clássicos “A Fine Romance” ou “The Way You Look Tonight”. A história é fraca, as interpretações deixam muito a desejar e nem o guarda-roupa se salva. Calças de riscas com dobra nunca devem ter estado na moda.  Fred é um aluno que finge não saber dançar e Ginger é uma professora de dança que finge ensiná-lo. O enredo é tão credível quanto isto. É uma desculpa para o que há de sublime em Swing Time: as canções de Fields e Kern e a dança de Astaire e Rogers.

“Pick Yourself Up” começa com Fred a implorar a Ginger que o ensine a dançar: “Please teacher, teach me something/ Nice teacher, teach me something”. E faz uma apresentação de si que faz lembrar uma estratégia de comparação usada por Cole Porter: “I’m as awkard as a camel/ That’s not the worst/ My two feet haven’t met yet/ But I’ll be teacher’s pet yet”. Em “You’re the Top”, de 1934, o pior do mundo, mais desajeitado e inútil, “I’m a worthless check, a total wreck, a flop”, serve para enaltecer o melhor que é o outro. Em Swing Time, the top é Ginger Rogers, que não se aproveita por ser o salário de Garbo ou celofane e responde a Fred com exortações alegres e optimistas. Mais do que exortações, a professora de dança dá ordens claras para recuperar o ânimo e começar de novo: “Pick yourself up, dust yourself off, start all over again”. Fred está sentado no chão depois de ter escorregado a “aprender” um passo de dança. E ela insiste: “Don’t lose your confidence if you slip/ Be grateful for a pleasant trip”. Não só manda que se levante, que se sacuda e comece de novo, como recomenda que não perca a confiança e que até seja grato pela queda agradável. O tema é de uma força inspiradora para quem se encontra caído e desanimado. A receita para os maus momentos passa por pegar em si próprio, naquela massa disforme caída no chão, sacudir o pó que entretanto se pegou à roupa e depois de devidamente levantado e sacudido, começar de novo, neste caso a aprender os passos de dança. Há aqui muitas sugestões animadoras. Primeiro a de que a queda não é o fim, depois que faz parte da vida, depois ainda que a aprendizagem é possível. Mas é claro que o aluno é Fred Astaire. Seja como for, imaginemos por momentos que não era. Porque não é realmente de dança, nem de alunos que se está aqui a falar, mas de perceber que levantarmo-nos, sacudirmo-nos e recomeçarmos estão ao nosso alcance nos casos em que não somos engolidos pela terra quando estamos a dormir.     

O trabalho é árduo, por isso o tom nos versos que se seguem é autoritário e militar: “Work like a soul inspired/ ‘Till the battle of the day is won”. Ninguém se torna um bailarino profissional sem trabalhar como se estivesse numa guerra. Adrienne Angel, numa versão de apenas um minuto do tema em An Evening With Dorothy Fields, acentua a diferença entre o ânimo nas ordens e a necessidade de disciplina. O discurso acaba com uma referência ao poema If, de Rudyard Kipling. “You may be sick and tired/ But you’ll be a man, my son”. Depois de todas as quedas, de se levantar, de se sacudir e começar mais uma vez e ainda outra, há uma certeza: seremos adultos, ou, segundo Swing Time, seremos capazes de dançar como Fred Astaire na cena final. O aluno está convencido. Se seguir todas as indicações, lá para os cinquenta pode chegar a fazer um brilharete: “Maybe by the time I’m fifty/ I’ll get up and do a nifty”. 

São poucas as versões de “Pick Yourself Up” que incluem a parte originalmente cantada por Fred Astaire. A canção passa a ser um tema de ânimo e boa disposição, como outros que Dorothy Fields escrevera, como “On the Sunny Side of the Street”, com Jimmy McHugh (1930), e escreveria, como o notável “It’s Not Where You Start”, com Cy Coleman (1973), no ano que antecederia a sua morte. 

“Pick Yourself Up” é uma resposta muito poderosa a dragões. É também uma boa banda sonora para o mito de Sísifo em que a vida se poderia tornar depois de aparecerem. Dorothy Fields lembra que não tem de nem deve ser assim. 

 

REFERÊNCIAS

• A cena de Game of Thrones

• Os dragões de Jeff Bush

• If, de Rudyard Kipling. 

• On the Sunny Side of the Street

• It’s Not Where You Start.

• You’re the Top.

• Sísifo, por Tiziano 


 

"Dragões e Dorothy Fields" é o segundo de uma série de ensaios sobre musicais, intitulada A minha vida dava um musical.

 

Versões de Pick Yourself Up

• A original, de Swing Time (1936), com Fred Astaire a fazer de conta que não sabe dançar e Ginger Rogers a fazer de conta que acredita;

• A frívola de Frank Sinatra;

• A rapidíssima de Anita O’Day;

• A celebrada, gloriosa, em tom de marcha de Adrienne Angel;

• E, para terminar, uma versão sem letra.