David Antunes

 

Este livro reúne, revistos e ampliados, vários ensaios sobre Fernando Pessoa e um texto sobre Teixeira de Pascoaes, anteriormente publicados pelo autor, resultando numa composição final de sete capítulos, precedidos de uma nota introdutória e seguidos de bibliografia e índices. A disposição estrutural dos capítulos é tudo menos desprovida de significado, bastando considerar, por exemplo, a centralidade do Capítulo IV sobre Pascoaes e a natureza conclusiva do último capítulo, «Livro do Desassossego», no qual se considera que o Livro, de Bernardo Soares, «é parte do propósito sistémico de estabelecer as condições iniciais da Literatura» (p. 157). Igualmente notório, se tivermos em consideração os títulos anteriores destes textos (cuja proveniência é referida no final do volume), é um certo laconismo na nomeação de cada capítulo — «Alberto Caeiro I», «Alberto Caeiro II», respectivamente capítulos II e III —, com excepção do primeiro: «A impessoalidade e o “Dia Triunfal” de Fernando Pessoa». Estes aspectos, em particular o primeiro, são relevantes porque, sendo clara a autonomia relativa de cada capítulo, herdeira de um passado editorial independente, é, porém, especialmente evidente o carácter assertivo da tese de António Feijó e a progressão cumulativa de um argumento acerca daquilo a que o autor chama o «sistema de Pessoa» e o «sistema de Pascoaes».

De facto, a grandeza deste livro, para lá de outras qualidades não negligenciáveis do seu autor, da fluência gentil de uma prosa aristocrática à erudição analítica e literária, da sofisticação de uma revelação inusitada, em nota de rodapé, à asserção sintética e contundente, entre outras, reside no propósito crítico do argumento de António Feijó. Felizmente, o leitor só tem de esperar cinco linhas para conhecer esse argumento: trata-se da «recusa de algumas noções correntes sobre Pessoa, da impessoalidade dramática do autor ao estado fragmentário da obra» e da defesa da «autoridade plena de Pessoa sobre tudo o que escreveu» (p. 7). Como se perceberá, estas posições encontram-se, sobejamente, reafirmadas ao longo do livro, com modulações particulares, na sequência de desenvolvimentos argumentativos específicos, relacionados com o âmbito de cada capítulo. Percebe-se que seja impossível ficar indiferente a esta propositio uma vez que estas «noções» parecem mais do que «correntes» e, tutelando interpretações e comentários, agora aparentemente erróneos, dominam uma boa parte da crítica pessoana, parecendo, aliás, colher evidência do próprio Fernando Pessoa e da exuberância heteróclita do seu colégio de autores, se considerarmos textos incontornáveis acerca da legibilidade da sua obra, como a Carta sobre a génese dos heterónimos.

Em Uma Admiração Pastoril pelo Diabo, o leitor depara-se, assim, com duas tarefas principais que, em qualquer dos casos, contribuem para uma visão crítica que esclarece Pessoa exactamente porque o torna estranho: por um lado, um percurso no território textual de Pessoa, vendo aí o que, de uso, não foi visto ou lido ou que foi negligenciado e, sobretudo, a exibição da «fertilização mútua de todos os textos de Pessoa, independentemente do “género” a que putativamente pertençam» (p. 156); por outro, a consideração e debate analíticos de um corpus crítico que, em todo caso, formou um entendimento de Pessoa, ou uma arte poética do autor, incluindo-se aqui, novamente, textos do próprio. António Feijó debate, portanto, reescrevendo-a e corrigindo-a, uma tradição crítica do autor maior de Orpheu, pelo que não admira que, frequentemente, o mote de um capítulo seja, a par da discussão de uma noção corrente, a leitura incisiva de um texto conhecido e de uma tese capitais na formação ou eco dessa noção corrente.

Um caso eloquente do que se acaba de dizer é, por exemplo, o primeiro capítulo em que, no que só pode ser um elogio a Jorge de Sena, António Feijó propõe demonstrar como o «autor de algumas das páginas mais penetrantes sobre Pessoa» escreve, porém, um ensaio «errado em tudo o que diz» (p. 12), «The Man Who Never Was» (1977). Seguindo uma posição modernista típica, Jorge de Sena vê em Fernando Pessoa um movimento extremo de aniquilação autoral, de vazio heteronímico de si e de impessoalidade, que se estenderiam à sua própria «vida privada». A tese, bem conhecida e difundida, enfatiza a estrutura dramática compósita de Pessoa que, plurivocal, o destitui de um self autónomo e suficientemente estável, permitindo esta situação ramificações interpretativas com outros tópicos, como o fingimento ou a natureza fragmentária da obra ou de partes dela. Sendo provavelmente a «noção corrente» mais debatida de todo o livro, neste primeiro momento, o autor limita-se, essencialmente, a assinalar e a descrever o significado da impressão que terá causado a Pessoa o capítulo que João Gaspar Simões dedica à sua obra, no volume Temas, de 1929, impressão essa que terá levado Pessoa a escrever uma carta de agradecimento a Gaspar Simões (na sua versão inicial, dactilografada, e na enviada, manuscrita (!)) onde, reconhecido pelo «augúrio de celebridade», manifesta sentimentos e considerações, relativamente à magnitude da sua obra, à vida e à posteridade, «que desconcertam qualquer descrição do seu vazio essencial» (p. 14).

Pelo contrário e adicionalmente, argumenta António Feijó, Pessoa é tão constitutivamente essencial à totalidade da sua obra e à autoridade plena sobre a mesma que não dispensa, contra a evidência da crítica genética, nomeadamente do estudo de Ivo Castro a propósito de O Guardador de Rebanhos, um Dia Triunfal. Esse dia, 8 de Março de 1914, ainda que filológica e empiricamente infirmado, é requerido justamente como momento em que a totalidade identitária de Pessoa, enquanto poeta, se impõe a si mesmo, como «começo discernível que o torne memorável» (p. 12). Que isso se faça pela ficção de uma data e pela fábula da ejecção poética exuberante de Alberto Caeiro, nessa data, não é substantivamente diferente, por exemplo, de narrativas climáticas acerca da identificação e do aparecimento inicial epifânicos de uma Musa na existência de um Poeta. Não perdendo a sua natureza tutelar de «mestre», repetida em todos os lugares, Alberto Caeiro deve aqui ser entendido como uma função poética que «insemina» Pessoa, replicando-se esta estrutura também em Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Podendo dar-se lugar à discussão de quem engendra quem, o gesto magnânimo e inopinado do aparecimento de uma Musa é, por assim dizer, coincidente com o momento da emergência plena do Poeta, numa espécie de incubação de um movimento que, inicialmente, pode parecer dispersivo ou orientado para o exterior: «a Musa de Pessoa só pode ser severamente interiorizada» (p. 24); «Na ausência de um objeto erótico dotado de existência corpórea com quem entretivesse qualquer relação de influência, Pessoa foi levado a refluir em si mesmo, a criar em si a sua Musa» (p. 26).

A experiência, por sua vez, reúne ingredientes místicos que vão do trauma à conversão, do abalo psíquico à lucidez, da «inércia ou inibição do passado» à mudança de sexo que confere acesso à «expressão sem obstáculo» (p. 110): «Fernando Pessoa fez-se poeta pela intercessão de Alberto Caeiro. Encontrara a sua Musa» (p. 23); «Alberto Caeiro não é apenas a Musa de Pessoa, é também o poeta engendrado na relação entre Pessoa e Musa» (p. 24) e, a julgar pela engenhosa leitura, proposta por António Feijó, de passagens das Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro e do poema Antinous, Alberto Caeiro é «a escultura de um Deus, uma figuração de Apolo. (…) não é um corpo real desejado, mas um Deus por ele conjurado, compelido à existência por uma operação teúrgica» (p. 24). Seja como for, o que aqui se estabelece, para além de um argumento que, na explicação da génese dos heterónimos, atribui uma prioridade analítica maior às Notas de Álvaro de Campos, relegando a Carta de 1935 de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro para um segundo plano, é um entendimento da origem dos heterónimos que se afasta da heteronímia como episódio psíquico, como despersonalização dramática, como evidência de uma impossibilidade identitária, um «drama em gente» e uma fragmentação vácua do eu. António Feijó vê, pelo contrário, «um sistema deliberado e preciso» (p. 29) no qual «todos os escritos de Pessoa, independentemente do género ou modo, devem ser vistos como coincidentes num mesmo plano constitutivo da obra» (p. 115).

Para que isso aconteça, Pessoa tem, por exemplo, de suprir as deficiências do seu contexto de existência e emergência poéticas — «Orpheu expôs, (…), uma marcada diferença de talento dos participantes» (p. 59) —, definindo um lugar e estabelecendo relações de influência, internas e externas, nacionais e transnacionais. Mais uma vez, isto implica uma «unicidade interiorizada» soberana, centrada num indivíduo ou meta-indivíduo, que assimile a vertigem dissipativa de uma vanguarda de ímpeto desigual. Assim, propõe António Feijó, numa passagem que lhe permitirá deduzir uma série de corolários acerca da ontologia heteronímica:

 

a localização de uma vanguarda heroica é menos as escassas páginas, desiguais e moderadamente interessantes, de Orpheu, como uma pouco problematizada posição histórico-literária pretende, do que a atualização do paganismo nos heterónimos de Pessoa. (…) Na criação dos seus heterónimos Pessoa foi compelido pela necessidade de emular o movimento da Renascença Portuguesa, reunido em torno de Teixeira de Pascoaes. O simpósio que reúne os heterónimos foi conjecturado como versão rival de A Águia, a revista em que uma série de discípulos assiduamente celebrava o génio de Pascoaes. Alberto Caeiro e discípulos são uma seita única, um mimetismo interno de A Águia, elevando-a sinteticamente à modernidade. A composição e natureza exuberante dos heterónimos de Pessoa são função da magnitude de Pascoaes. (p. 62)

 

Percebe-se a relevância extrema da descrição do «sistema gnóstico de Pascoaes», que é, igualmente, «rigoroso, nada heteróclito» (p. 80), no âmbito deste livro. Ela apresenta não apenas um grande autor, que «uma dicção poética regressiva e pré-moderna» e «uma noção corrente do que é “poético”» (p. 79), leia-se, metafórico, não favorecem ou não favoreceram (aspectos para os quais António Feijó recomenda que Pascoaes seja lido de modo inteiramente literal), mas é mais uma razão que reclama a defesa da «autoridade plena de Pessoa sobre tudo o que escreveu». É o que a magnitude de Pascoaes significa e requer, e é também em função dela (de uma noção de unidade em Pessoa) que ela (a magnitude de Pascoaes) se constitui. Desde logo, porque ambos herdam uma influência comum, do Alto Romantismo inglês, aspecto para o qual António Feijó chama a atenção mais do que uma vez. Se, porém, Pascoaes exaspera e hiperboliza algumas posições desse lugar, Caeiro, que resulta da «severidade necessária» (p. 54) para enfrentar Pascoaes, apresenta-se como querendo «corrigir toda a poesia moderna, reduzindo o movimento dos seus maiores [nacionais e transnacionais] à mais extrema pobreza» (pp. 54-55). Este exercício de correcção constitui o paganismo de Caeiro e parece consistir num resgate da Natureza à sua dissolução apocalíptica «pela elaboração mental ou visionária do poeta» (p. 144), o que faz dele «uma prosopopeia da terra» (p. 46).

Os capítulos sexto e sétimo, respectivamente dedicados a Mensagem e ao Livro do Desassossego, encerram este livro. Num certo sentido e por razões diversas, o comentário a estes dois textos, sobretudo ao último, poderia antecipar objecções fortes ao argumento central de António Feijó, já suficientemente descrito. Uma leitura competente destes capítulos excederia os limites que se impõem a este texto. Assinalo, porém, dois aspectos significativos, que focalizam certamente a atenção do leitor e antecipam, talvez, possibilidades e relações insuspeitas: o primeiro é um surpreendente excurso do autor à análise de Mensagem, dedicado àquilo que deve ler-se na expressão «drama em gente»; o segundo é uma modalização específica do entendimento do conceito de fragmento no livro de Bernardo Soares. Sobre o primeiro aspecto, diz-nos António Feijó:

 

a verdadeira implicação desta auto-descrição como «drama em gente» reside menos na natureza dramática das figuras do que na natureza sequencial do drama, na sucessão temporal em que consiste um drama. O que requer análise é como, na substituição que Pessoa neste passo opera, gente toma o lugar de atos, como os heterónimos substituem unidades formais de um drama. (pp. 126-127)

 

A provável surpresa do excurso desvanece-se, todavia, quando depois de deflacionar a ideia de uma «épica que pretende enunciar um destino messiânico» (p. 125), transmutada, aliás, numa «crónica do escândalo de uma interrupção histórica sob cujos efeitos contemporaneamente se vive» (p. 137), o autor escreve, numa longa e final nota de rodapé, «Mensagem é, de facto, a alegoria de um destino poético, o de Pessoa ele-mesmo» (p. 137). Relativamente ao segundo aspecto, e contra a ideia de uma estética do fragmento, resultante da provável sedução contemporânea por uma acumulação dispersiva e inorgânica de partes desconexas, índices da materialidade não substantiva do seu autor, valerá a pena ter em consideração, desde logo, o seguinte:

 

As descrições de Bernardo Soares, apelando a um conjunto ontológico reduzido — nuvens e tonalidades cromáticas elementares — são ocasiões para o virtuosismo da prosa que as enuncia. Neste movimento formalista encontramos o propósito de construir o tópico central do livro como, simplesmente, a Literatura enquanto tal. (O conjunto de tópicos, culturais, literários, políticos, psicológicos de que os fragmentos do Livro tratam, interessantes em si mesmos, não é senão a ocasião de pôr serialmente em ato, em cada fragmento, o nascimento da literatura. (…)) (p. 149)

 

O livro de António Feijó poderia, como é dito na contracapa, chamar-se, «por antífrase do título de um conhecido estudo crítico sobre o autor», «Unidade e unidade em Fernando Pessoa». Terão ficado esboçados alguns dos argumentos que sustentam esta apologia enfática e a sua razão. Porém, este título alternativo a Uma Admiração Pastoril pelo Diabo (Pessoa e Pascoaes) não é apenas a síntese de um argumento continuado, é também a descrição final da coesão interna deste livro e do, dificilmente excedível, engenho crítico e argumentativo do seu luciferino autor.