Por Pedro Sepúlveda

Ao longo de um dia de sexta-feira santa, personagens de uma família burguesa alentejana dedicam-se a afazeres diários, enumerados com minúcia: “de madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e enregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera (...)” (p. 23). A descrição destes afazeres, que acontece preferencialmente através de monólogos interiores, é intercalada, de um modo propositadamente aleatório, com reflexões que misturam o quotidiano e o metafísico. Estes monólogos são interrompidos por breves diálogos e por intervenções de um narrador que se imiscui no universo da consciência das personagens. Descrito com recurso a uma imagética religiosa e mítica, neste universo perpassa o sentimento de um sofrimento sem redenção, repetido num ciclo temporal expresso na própria estrutura do livro: ManhãTarde e Noite desse dia que só sabemos ser de sexta-feira santa.

Manhã ocupa cerca de metade do livro e nela os nomes das personagens servem de título aos vários capítulos. Os monólogos destas personagens estão encadeados, criando um efeito de contínuo. Cada capítulo retoma parcialmente a última frase do anterior, afectando uma disposição que à partida separava os universos de cada personagem. Os capítulos encadeados têm como referência, mais do que as diversas personagens, a experiência comum e partilhada de uma família. Os laços familiares contribuem para que o nome próprio deixe de marcar uma distinção. O nome não perde a sua capacidade de referir uma vivência específica, mas esta depende mais de uma realidade comum que de uma espessura psicológica das personagens.

Esta Manhã significa “horas de início, horas de começar” (p. 26), um “princípio de tudo” (p. 28) que acarreta consigo a necessidade de festejar novamente “a preparação da Páscoa” (idem) ou de acordar na mesma cama ao lado da qual “repousa um frasco de remédio de qualquer morto antigo e já esquecido” (p. 32). A vivência é condicionada pelo mesmo limite de sempre: “um dia vem a morte, leva um deles e pronto; depois leva o vizinho e pronto” (p. 39). Criando uma sensação de eterno retorno, Almeida Faria não prescinde de a localizar no espaço e no tempo, numa “manhã desta sexta-feira” que “é diversa das outras na casa” (p. 60). O próprio tempo cria um efeito de sentido global, universalizável: um único dia contém toda a experiência aqui descrita e o valor narrativo de nomes de lugares e personagens está subordinado a uma representação da consciência humana. Não é fortuita a associação desta escrita, como o fez Luís Quintais num texto que acompanha o livro, ao modo como William Faulkner se apropria do stream of consciousness.

A pretexto da descrição de uma sexta-feira santa numa família alentejana, Almeida Faria ensaia uma escrita que tanto tem de narrativo quanto de poético e mesmo de etnográfico, traço que irá desenvolver em livros posteriores, culminando na recente narrativa de viagem a uma Índia revisitada, O múrmurio do mundo (2012). Não por acaso, A Paixão surge integrada num ciclo que o autor designa por Trilogia Lusitana, completada com Cortes (1978) e Lusitânia (1980). Mas é no recurso ao stream of consciousness e na criação de uma estrutura que quebra a narrativa do romance, sem abandonar o seu propósito descritivo, que Almeida Faria cria um tipo de ficção único, iniciado com Rumor Branco e amadurecido em A Paixão. A polémica que desde logo suscitou a publicação de Rumor Branco é muito significativa em termos de incompreensão por parte da crítica. Por não seguir os preceitos do Neo-Realismo, Rumor Branco vê-se associado a uma obra que também não o fazia, a de Vergílio Ferreira. Mas o distanciamento do Neo-Realismo e o facto de Vergílio Ferreira ter acolhido com algum entusiasmo, contido, este primeiro livro, são as únicas pontes possíveis entre obras tão distintas. Rumor Branco e A Paixão estão tão distantes do Neo-Realismo como do Existencialismo de Vergílio Ferreira. Do primeiro, porque não utilizam o romanesco com o propósito de descrever um processo social em curso e nem sequer são romances em sentido estrito. Do segundo, talvez ainda de forma mais marcada, porque descrevem uma realidade que ao ser singular é desde logo comum e almeja uma universalidade que não tem por base a experiência individual. Os nomes das personagens definem uma vivência particular, mas essa vivência estende-se a uma família que não é definida em termos de conjunto de indivíduos. A espessura destas personagens dilui-se no universal, se assim quisermos, e anuncia a seu modo esse fim do indivíduo e do humanismo proclamado alguns anos depois.

Esta referência aos nomes das personagens no título de cada capítulo é abandonada na segunda e terceira partes do livro, Tarde e Noite, como se deixasse de ser necessária. É intensificado o recurso a uma imagética messiânica, através da qual a Manhã simbolizava um novo começo ou o começo de algo novo, que se via afinal enredado numa experiência que o ofusca. A tarde é “meio-dia para todos, almoço para quem no tem”, “hora branca” (p. 117), de uma “classe morta, como Cristo morta, sem esperança de salvação ou redenção humanas” (p. 173), enquanto a noite anunciava “um futuro magnífico a partir da própria destruição, do próprio nada.” (p. 197). Os “prisioneiros do pânico antiquíssimo dos deuses” (p. 200) sabem que “os discursos são falsos” (p. 208), mas não excluem a possibilidade de que “talvez” “o homem ressuscite no sábado” (p. 214). Fala-se de pessoas e em particular das mulheres: “são as tristes mulheres de sexta-feira santa que perpassam ao longo destas páginas”, porque “só delas vale a pena falar e da revolta, dos prefácios a cada madrugada”.

A associação deste livro a diversas correntes literárias ou filosóficas tem tanto de equívoco como de precipitação. No seu prefácio a A Paixão, Óscar Lopes alude à mistura de géneros que o livro coloca em cena, notando que “será um romance; mas é também um poema em ritmo livre” (p. 7); o que realmente se ajusta à descrição de uma obra que faz da narração de depoimentos atribuídos a várias personagens algo que já não depende da psicologia dessas mesmas personagens ou de uma sequência de acontecimentos que as relacionasse. O problema é quando o crítico fala de um “romance-ensaio”, cujos “processos assemelham-se muito ao método fenomenológico definido por Husserl” (pp. 10-11). Nada poderia estar mais longe do que caracteriza A Paixão, já que, enquanto a fenomenologia está preocupada em revelar as estruturas essenciais da experiência humana, Almeida Faria descreve uma vivência, ou melhor, a consciência dessa mesma vivência. Essa descrição articula o singular e o universal de um modo que coloca o segundo ao serviço do primeiro. É por isso que o sentido simbólico de algumas descrições, assim como a imagética religiosa ou sociopolítica nelas contida, nunca as condiciona, porque essa descrição do humano que tanto tem de poético quanto de narrativo é o objecto primeiro e único do livro.

Almeida Faria, A Paixão, prefácio de Óscar Lopes, Lisboa: Assírio e Alvim, 2013 (1.ª ed. 1965).