Joana Corrêa Monteiro

What Happened in and to Moral Philosophy in the Twentieth Century? é uma colectânea de ensaios, a maioria dos quais foram apresentados em Dublin, em 2009, numa conferência que assinalou os 80 anos de vida de Alasdair MacIntyre. Este autor ocupa um lugar marcante na história recente da filosofia, concretamente nas áreas da ética, filosofia moral e filosofia política, mas leitores interessados em filosofia da acção, história, sociologia, ou até teologia poderão encontrar nesta publicação alguns pontos de dignos de atenção.  

O volume abre com um ensaio autobiográfico (o vídeo da conferência pode encontrar-se facilmente no Youtube), em que o autor apresenta o seu percurso intelectual, focando os contributos e as tensões entre as linhas de pensamento com que se foi cruzando: filosofia analítica anglo-saxónica, marxismo, tomismo. Os restantes 17 ensaios agrupam-se em três partes: “Reading Alasdair MacIntyre”, “Complementary and Competing Traditions” e “Thematic Analyses”. Na verdade, a multiplicidade de vozes, perspectivas e assuntos ilustra e presta bem homenagem à força da influência da obra de MacIntyre e à sua importância nas discussões da filosofia moral de hoje. 

Embora nem todos os comentadores declarem incondicionalmente o seu acordo com as ideias de MacIntyre, é notório o entusiasmo generalizado que estas provocam. São também significativos os apelos transversais a um alargamento do “projecto macintyreano”, se bem que não exista, neste conjunto, um consenso acerca do que isso possa significar. Vários ensaios sugerem a necessidade de uma reflexão sobre que instituições ou que pessoas podem estar à altura das propostas morais e políticas de MacInytre. Kelvin Knight e Arthur Madigan apontam, ainda que em tons diferentes, para a necessidade de um diálogo mais produtivo com o liberalismo político e económico contemporâneo, principalmente com aqueles autores dessa matriz que se dizem também herdeiros de Aristóteles. O próprio MacIntyre revela, no epílogo, que nos seus próximos planos está a escrita de biografias intelectuais de um certo tipo e aponta este caminho como o futuro possível para a filosofia moral como ele a concebe. Esta indicação rima tanto com a importância das referências de John Haldane a Edith Stein: A Philosophical Prologue (2006), na sua caracterização da abordagem de MacIntyre à filosofia, como com os apelos de Raymond Geuss no sentido do reconhecimento da importância do Marxismo e do seu falhanço na filosofia do século XX. 

É ainda relevante a tentativa de alguns comentadores de ler a obra do autor em contextos que a iluminem. As particularidades deste já vasto corpus fazem com que a recepção naqueles que poderiam ser os ambientes mais propícios não seja a esperada – um marxista entre tomistas e um tomista entre marxistas, secular demais para alguns teólogos e teísta demais para alguns filósofos, não completamente “analítico” nem especialmente “continental”. Noutra linha, procura-se em vários ensaios da segunda e terceira partes confrontar aspectos particulares do pensamento de MacIntyre com o de outros autores, tipicamente de “tradições rivais”. A esse propósito encenam-se discussões proveitosas com emotivistas (G. E. Moore, A. J. Ayer, C. L. Stevenson), com Nietzsche e nietzscheanos menos prováveis como Stanley Cavell ou Bernard Williams, com Derrida e Ricoeur, mas também com vários tipos de habitantes da tradição tomista.

Embora especialmente dirigidos a leitores familiarizados com pelo menos alguma das obras mais famosas de MacIntyre – After Virtue (1981), Whose Justice Which Rationality (1988), Three Rival Versions of Moral Enquiry (1990) e Depedant Rational Animals (1999) estes ensaios, cuja tradução não se adivinha provável, oferecem interessantes chaves de leitura do que aconteceu na e à filosofia moral do século XX e do que se pode esperar do século XXI.

O'Rourke, Fran, ed. What Happened in and to Moral Philosophy in the Twentieth Century?: Philosophical Essays in Honor of Alasdair Macintyre. Notre Dame, Indiana: U of Notre Dame, 2013.