Por Nuno Amado

Sempre que, com o objectivo de descrever a escrita de Kafka, se utilizam adjectivos como “pessimista”, “melancólica” ou “neurótica”, fico com a impressão de que nunca se leu o conto sobre o celibatário Blumfeld e se devia dormitar enquanto se liam alguns episódios d’O Processo, como aquele em que Joseph K. surpreende um algoz com roupas de couro a açoitar, numa arrecadação, os dois homens que, no início do romance, lhe tinham aparecido no quarto a anunciar a prisão. Ora, é precisamente em não ser esse o caso deste pequeno livrinho que reside um dos méritos — talvez o mais saliente — da apreciação kafkiana que nele se desvela. O Kafka a que Agustina Bessa-Luís procura dar expressão não é aquele a que nos habituámos, corrompidos pelas opiniões de certos filósofos e críticos de distraída atenção, a quem o judeu checo invariavelmente parece ou demasiado judaico, ou demasiado checo. Meditando sobre coisas que amiúde se negligenciam, como o humor de Kafka, e discordando da ideia de que a sua obra é neurótica ou pessimista, esboça Agustina um retrato de um escritor que de célebre tem apenas o que erradamente se acha que foi.

Excluindo o quarto e último texto dos que neste livro se antologiam, que não é senão, como o caracteriza o marido da escritora, Alberto Luís, na advertência que a antecede, “um passeio por Praga”, os restantes ensaios esforçam-se por rabiscar exemplarmente a figura de um escritor talvez mais lido do que compreendido. Como o afirma Agustina, involuntariamente servindo esta apreciação, “nenhum outro escritor gerou até hoje tanta polémica como Kafka” (p.25). Desses três textos, advirto mais extensamente para o segundo, “Um Presépio Aberto”, por ser esse que, mediante a análise que me esforçarei por propor, melhor permite enquadrar os restantes na percepção pouco convencional que a autora tem de Kafka. Neste pequeno ensaio, discute Agustina, a propósito da correspondência entre Kafka e a irmã Elli no Outono de 1921, sobre a educação do sobrinho Felix, aquilo a que chama “uma série de instruções excepcionais de senso prático que podiam resumir um memorial de grande educador” (p.41).

Para nos situarmos, uma vez que Agustina parece apenas apontar para a preocupação de Elli com “a expansão física e emocional do jovem Felix”, é preciso talvez notar que as quatro cartas de Kafka encerram argumentos e contra-argumentos favoráveis à ideia, à qual a sua irmã resistia, de enviar o sobrinho, então a caminho dos dez anos, para uma escola fora de Praga e longe da família. Às objecções proteccionistas de uma mãe que não pretende perder o papel principal na educação do filho, Kafka reage alegando que o excesso de indulgência e mimos, os estímulos exagerados a que se está sujeito numa cidade grande e o aborrecimento de uma vida confortável farão do sobrinho um adulto fraco. É sobre estas considerações, ou sobre as razões que levam a elas, que Agustina mais pormenorizadamente se debruça, e são elas que, uma vez analisadas, lhe permitem concluir que, para Kafka, a educação de uma criança é essencialmente uma luta entre o espírito que lhe desperta no corpo e o tédio que o tenta invadir. As reflexões de Kafka acerca dos malefícios do tédio, no entanto, não têm lugar senão algumas linhas depois, e apenas para dizer que não há maneira alguma de um progenitor vacinar uma criança contra tal invasor. Agustina está certa, ao afirmar que Kafka “considera o tédio o mais perigoso dos estados de espírito” (p.42), mas não creio que infira certeiramente o que a partir de tal afirmação há para inferir.

Na contenda entre pais e filhos, Kafka está do lado dos filhos não porque a criança, a quem o tédio ainda não fecundou, representa o potencial espiritual mais elevado, mas porque não há, na sua opinião, piores educadores de um filho do que os próprios pais. Não é o tédio, propriamente dito, que mais interessa aqui a Kafka, mas o papel que a irresponsabilidade paterna desempenha na fragilidade com que a criança faz frente às investidas do tédio; não é do tédio que Kafka acha que as crianças precisam de protecção, mas dos próprios pais. É isso que justifica que, nas últimas duas cartas, os argumentos de Kafka se suportem nas teorias educativas a que Swift dá expressão no sexto capítulo das Viagens de Gulliver, argumentos a que, aliás, a escritora não presta muita atenção, considerando-os produto de uma “má interpretação” (p.45) da obra de Swift. A posição de Kafka fica, porém, clara quando, respondendo à objecção de Elli de que as crianças devem estar gratas aos pais pela sua existência, explica no começo da última das quatro cartas que aquilo que mais interessa a Swift nos costumes liliputianos não é a ideia de que as crianças nada devem aos pais, mas a convicção de que os pais são as últimas pessoas a quem se deve confiar a educação dos próprios filhos.

O que Kafka sugere, nessa carta, é que a educação de uma criança seja entendida como o processo de correcção de um desequilíbrio de que padece o organismo animal a que chama “família”. Tal desequilíbrio resulta, no seio familiar, da desigualdade das suas partes, da superioridade física e mental dos pais. Para corrigir tal desigualdade, diz Kafka, os pais assumem-se como representantes da família, acabando por privar os filhos de personalidade própria. A tirania e a escravatura, os dois métodos educativos ao dispor dos pais, ambos engendrados pelo egoísmo deles, conduzem então a que os filhos, modelados à imagem das expectativas dos pais, se conformem com um certo tipo de preceitos e cumpram os ditames paternos sem contestação. Entendendo-se a família como um organismo composto por partes desiguais e a educação de uma criança como a solução que o organismo concebe para corrigir essa desigualdade, toda a criança cuja educação for conduzida pelos pais (a parte mais forte do organismo) tem por fim ser assimilada pelo organismo. Aqueles que, por qualquer razão, acabam por não crescer em conformidade com tal organismo, adianta ainda Kafka, não são expulsos, pois um organismo não pode expulsar partes de si mesmo, mas amaldiçoados ou consumidos. Para aqueles que conhecem a obra de Kafka, tais ideias não podem ser surpreendentes: é dessa maldição que tratam muitos dos seus textos (em algumas das primeiras obras como “A Metamorfose” “O Veredicto” e “O Fogueiro”, então, a maldição ou o crime familiar é mesmo o tema central) e é, acima de tudo, da posição de fraqueza daquele que é amaldiçoado pela família que Kafka frequentemente se queixa nos diários, na correspondência, ou na famosíssima “Carta ao pai”. Neste conjunto de cartas à irmã, portanto, Kafka está, como quase sempre, mais a fazer autobiografia do que a revelar-se, como sugere Agustina, “um investigador prodigioso dos problemas da educação” (p.43).

Só assim é possível, aliás, ajustar o Kafka destas quatro cartas ao homem que Agustina procura retratar no primeiro e no terceiro texto do livro. É nesses dois textos, “Kafka e a Mendiga de Praga” e “Kafka e o Bacilo da Indecisão”, que me parece que as intuições de Agustina maior interesse suscitam. Entre elas, a engenhosa tentativa de conciliar o argumento de Adorno de que Kafka descobre que o único meio para escapar à violência da modernidade “é o de fazer-se pequeno, como um insecto” (p.22) com ideia sinuosa de Deleuze e Guattari acerca da alegada literatura menor de que Kafka provinha, e que leva a autora a concluir que “o tema obsessivo de Kafka é o direito do ínfimo, do pequeno ser desqualificado socialmente” (p.19), é talvez a menos acertada. A apologia do ínfimo deriva, como a leitura atenta das cartas acerca da educação das crianças demonstra, da posição de Kafka no seio da sua família, e a desqualificação social tem origem numa desqualificação anterior, de carácter familiar. A obsessão de Kafka com a pequenez não provém necessariamente de um conflito entre o indivíduo e o mundo, mas do que quer que tenha motivado a maldição familiar que sobre ele se abateu.

É, finalmente, ao equacionar Kafka como “um filho enjeitado dos românticos” (p.27-28) que Agustina chega à intuição — pouco explorada posteriormente, é certo — de que a sua escrita se relaciona com exercícios de espiritualidade, com o jejum e com a castidade. Com efeito, a vocação de Kafka para a escrita relaciona-se com tudo isso, mas também com a baixeza que parece louvar constantemente, com as suas ideias sobre educação familiar, e mesmo com a índole indecisa a que Agustina alude, no terceiro texto, ao sugerir que, a par do diagnóstico da tuberculose, Kafka fora também “assaltado por um bacilo novo, incurável, o bacilo da indecisão” (p.59). É a relação de Kafka com a escrita que coordena todas estas vicissitudes, e é essa “vocação irrevogável”, como a caracteriza numa carta ao pai da sua noiva, Felice Bauer, que, no limite, força a exclusão familiar de que trata nas quatro cartas à irmã e postula a criatura amaldiçoada que se considera. Ao retratar diferentes aspectos da vida de Kafka, Kafkiana mostra também, conquanto obliquamente, de que modo se conjugam muitas das principais preocupações de Kafka e de que modo pode uma vocação determinar toda a vida de um escritor. Tais méritos justificam plenamente, por isso, a sua leitura.   

Agustina Bessa-Luís, Kafkiana, Lisboa: Babel, 2012.