João Pedro Vala

 

Não é possível ler um diário de preces sem sentirmos a necessidade de descalçar as nossas sandálias. Este Um Diário de Preces, escrito por Flannery O’Connor (1935-1964) aos vinte anos de idade e traduzido agora para português pela Relógio d’Água, acompanhado de um fac-símile do caderno original, é em muitos momentos difícil de compreender, não só por culpa das várias páginas rasgadas pela escritora, mas essencialmente por ser uma conversa entre ela e Deus, uma conversa em que entramos forçosa e violentamente a meio; uma conversa para a qual, aliás, não fomos sequer convidados.

Existem, no entanto, momentos em que O’Connor se apercebe de que esta conversa pode estar a ser escutada por outras pessoas que não Deus e, repreendendo-se logo de seguida, abandona o tom precatório. É isso que acontece, por exemplo, na entrada de seis de Novembro de 1946, onde Flannery O’Connor escreve que “o pecado é vasto e cediço. Nunca conseguimos acabar de o comer, nem nunca o conseguimos digerir. Temos de o vomitar” (p. 34). Ao perceber que isto se parece mais com um ensaio do que com uma oração, O’Connor acrescenta: “Talvez esta declaração seja demasiado hipócrita – não posso deixar que este diário se torne hipócrita”. Parece-me interessante esta ideia de que no momento em que uma oração se torna literária deixa de ser uma oração e passa a ser qualquer coisa hipócrita. Isto porque o que está a ser dito deixa de ter como interlocutor Deus, não é mais uma manifestação de louvor a Cristo e deixa, assim, de ter as quatro componentes da oração, segundo Flannery O’Connor: “adoração, contrição, agradecimento e súplica” (p. 22). Mas parece-me muito mais interessante que a escritora, ao contrário do que fez a inúmeras outras partes do diário, não tenha rasurado ou arrancado este seu lapso poético.

Ignorando as três primeiras componentes da oração, irei concentrar-me apenas naquela em que a própria se reconhece melhor: a súplica (“Meu bom Deus, Súplica. Eis o único dos quatro em que sou exímia”, p. 27). Ao longo do diário, O’Connor suplica muito e suplica com condições. O’Connor quer ser, como Deus pede que a Casa de Israel seja, como o barro nas mãos do oleiro, mas um barro que só pode ser moldado se se respeitarem antes algumas regras. É isso que se torna evidente quando Flannery O’Connor afirma que não pode deixar de ser escritora ou quando, no momento mais divertido do seu diário, pede a Deus que a ajude a sentir-se capaz de renunciar a tudo o que é terreno para alcançar o dom da graça, acrescentando, numa letra encavalitada, para que caiba tudo na mesma página, de forma a proteger-se de um qualquer mal-entendido divino: “I do not mean becoming a nun” (p. 60).

As súplicas do diário são quase sempre iguais: Flannery pede a Deus, à maneira de João Baptista, que Ele cresça e que ela diminua. Mas há momentos em que as suas súplicas se misturam com a contrição como, por exemplo, na penúltima e mais extraordinária das orações deste livro, onde, depois de pedir a Deus que lhe indique o caminho a seguir, se acusa a si própria de ser um queijo com pretensões místicas ou uma traça que quer ser rei. O que O’Connor está com isto a sugerir parece-me ser que o erro dela é o de, sendo apenas capaz de destruir o projecto que Deus tem para ela, sendo apenas capaz de furar o que Deus criou à Sua imagem e semelhança, preferir-se a si mesma em vez de Deus, achando-se digna de todo o louvor, quando sabe que, se tudo correr bem, não será mais do que a máquina de escrever de Deus.

Mas o interesse deste diário e das súplicas da jovem O’Connor encontra-se essencialmente no que estes permitem antecipar daquilo que viria a ser a obra da escritora. Na oração em que O’Connor escreve que “só quando estiver velha e caduca é que me resignarei [à mediocridade]. Deve haver algum meio de os naturalmente medíocres escaparem à mediocridade. Esse meio é seguramente a Graça” (p. 34), é difícil não ver um esboço do conto “A Good Man is Hard to Find”, em que uma avó medíocre e irritante se engrandece extraordinariamente e encontra a graça às mãos de um assassino fugido à justiça. Tal como é difícil não ver no momento em que O’Connor confessa que acha o inferno muito mais concebível do que o céu (“consigo imaginar as tormentas dos danados, mas não consigo imaginar as almas desencarnadas suspensas num cristal para toda a eternidade, a entoar louvores a Deus”, p. 20) um resumo dos contos de O’Connor, contos em que é pelo centro do inferno que se chega ao céu; contos em que velhos tresloucados, assassinos e vendedores de bíblias que são afinal ladrões de próteses ateus são usados para representar a graça, a caridade e até Jesus Cristo; contos em que, como a própria mais tarde escreveria, em “The Catholic Writer in the Protestant South”, são representados “aqueles aspectos da vida  […] que estão mais afastados da Igreja Católica e que são mais reveladores de uma necessidade que só a Igreja pode satisfazer”.

O’Connor suplica para que Deus a ajude a “[tornar-se] numa boa escritora e para que aceitem mais textos para publicação” (p. 24). O’Connor já sabe que “talvez a ideia seja que o bem consegue transparecer, mesmo através das coisas reles” (p. 25), mas não consegue ainda escrever contos como “Good Country People” em que é precisamente isso que acontece. O’Connor quer usar o “vasto mundo sensível” (p. 21) em louvor a Deus mas não sabe como isso se faz. Flannery O’Connor implora a Deus que a “ajude a tornar-[se] numa artista” (p. 41), roga para que Deus lhe purifique o olhar. Pede uma visão do mundo que lhe mostre o amor, um amor “divino, natural e pervertido” (p. 42). E Deus dá, matando-a. Porque o momento decisivo da carreira literária de Flannery O’Connor é precisamente aquele em que lhe é diagnosticado lúpus e em que lhe são dados apenas mais cinco anos de vida (ainda que depois disso tenha vivido mais 14 anos). Porque é ao descobrir que vai morrer que Flannery O’Connor consegue finalmente abandonar aquilo a que chama “um delicioso estado comatoso […] de eterno embrião” (p. 33) e pode começar a escrever. É a partir do momento em que se vê colocada diante da morte que Flannery O’Connor encontra o ponto de vista que faz dela uma artista, o ponto de vista que a ajuda a “entrar no lado mais profundo das coisas e a descobrir onde Tu estás” (p. 18). É então a morte a resposta do bom Deus ao livro de preces da jovem escritora, porque é a morte que permite a O’Connor “mergulhar numa coisa mais vasta […] e escrever um romance, um bom romance” (p. 30).

Flannery O’Connor. 1970. Mystery and Manners Occasional Prose. Nova Iorque: Farrar, Straus & Giroux.

Flannery O’Connor. 2009. Complete Stories. Londres: Faber and Faber.