Hugo Pinto Santos

 

Ainda será possível «fazer literatura com o revólver no bolso» (Richard Huelsenbeck)? Sim, porque a revolta e desobediência de Tzara & companhia perduram naqueles cujas antenas receptoras não calcificaram, os que não assimilaram o esquema evolutivo que prescreve a abolição e a consequente integração das vanguardas nos sistemas da arte. Se é esta a função delas, não é esse o destino irrevogável dos autores que se movem nas franjas de considerandos como o que prevê que a uma ruptura tenha de se seguir a sutura. No plano da poesia portuguesa, um nome assoma que agrega, de forma magnética, todos esses hipotéticos estilhaços: Alberto Pimenta. Nas gerações que se lhe seguiram, deve falar-se de Nuno Moura. Não abundam os poetas que, de forma tão enérgica e consistente, façam de cada investida um golpe na consolidação e no apaziguamento. Assim a sua poesia – «amámos o amigo que soletra escadas/ e tudo o que vê são melopeias/ e que vos garante que vai continuar/ porque te amam/ chumbaria a aritmética/ mas o nosso filho também/ sabes o que é/ fazer letras no pano e no abstracto/ e seres apanhado a fazer poesia nesses trajes/ de alonganoite e maltofeida?» Assim o responsável por ela, que chamou a Canto Nono um «livro de aventuras».

Neste opúsculo, Moura não reclama a presença de Camões pela primeira vez – citou-o, por exemplo, em epígrafe a Soluções do Problema Anterior (&etc, 1996). Mas aqui o seu plano de acção recria uma microestrutura que – com todas as torções de um poeta do século XXI que não segue pela trela – replica não a totalidade dos cantos camonianos (que, em tempos, tantos engulhos causaram a certo estadista…), mas os nove que o título capta. São, precisamente, nove os breves cantos deste poema, o último dos quais funde os estados da épica e da lírica – «Canto Último/ erros meus/ chama ardente» –, para logo substituir a citação pela paródia: «chama», em vez de «amor», com exclusão da «má fortuna». Que, contudo, não estará aqui ausente.

Canto Nono começa por construir-se segundo um esquema ancorado na recordação, exarada num pretérito imperfeito quase obsessivo – «era», «estendia-se», «conhecíamos», «abusava». Esta estrutura, todavia, não será, como tudo levaria a crer, um indício de pesar ou nostalgia. Ou, pelo menos, não deixa de ser possível ver naquela obstinada rememoração um confronto com o presente. Tanto mais que os índices desta poesia, mesmo quando não são explícitos – a alusão a Miguel-Manso (citado na Nota Prévia que, deliberadamente, encerra Canto Nono) pela via de um mapa que se estende ao longe, mas se reconhece ao perto: «a cidade de Gent proibiu a venda de carimbos») – , alcançam os seus referentes, que vão de «Margarida Ferra», ao «national geographic», de uma forma análoga à «rádio kadhaffi» de Nova Asmática Portuguesa (2.ª ed., Mariposa Azual, 2013). Portanto, o arco erguido pela evocação de um passado fracturado e multiplicado, caleidoscópico – que se poderia aproximar da ideia de simultaneidade em Dada –, mais não é do que uma projecção indirecta, uma perífrase, se assim quisermos, do próprio presente. De resto, o último canto termina mesmo com um prospectivo «vamos», que deixa entrever a terceira dimensão desta hipótese de interpretação: o futuro.

Nuno Moura não é dos que gerem cautelosamente uma abordagem distintiva, como um troféu, ou bossa de talento arvorada por requinte ou capricho; mas produz na senda genuína e perigosa de garimpeiros como Maiakovski, Artaud, Péret, ou, mais obviamente, Ângelo de Lima – que esteve na raiz e na onomástica de projectos como Mia Soave, Mariposa Azual e Douda Correria, nos quais se detecta a intervenção de NM. Contra o pêlo e oposto à calmaria, Nuno Moura tem-se mostrado um agente e um reagente de notável potência no chamado meio. O perigo, esse, consiste, como é óbvio, na dificuldade que há em sustentar a consistência de uma posição que se reinventa e se autodestrói a cada passo. É a aporia da própria situação revolucionária. O que fazer depois de tomadas as ameias do poder? Para onde ir, revolvidas as regras do jogo? Uma das formas como Nuno Moura consegue proceder diferentemente é tornar a própria ideia de vanguarda uma tradição, sem, no entanto, devir um discípulo obediente. As suas propostas vão bem noutro sentido. Não seria legítimo defender que marcham rumo ao sem-sentido total ou a qualquer entorpecimento; antes que deslocam as suas energias na direcção de uma severa revisão do sentido. O que, interessantemente, não invalida o papel do humor na desmontagem que, ao fim e ao cabo, esta obra enceta. E atente-se no seguinte: «obra» é, neste ponto, mera facilidade de expressão. Do que se trata é, mais exactamente, de demolição. Como, ainda no universo Dada, era de desmoronamentos que, tantas vezes, se tratava. Leia-se, por exemplo, o começo de Canto Nono: «ainda os carteiros andavam a pé/ e a água com gás era no mar e o sangue grosso diluía/ estendia-se a roupa nos areais/ e ainda conhecíamos as pessoas da nossa vida».

Esta poesia não anda distante do desregulamento e desconexão do anfiguri – uma vez que procede ao descarrilamento da sintaxe, dos nexos de causalidade e da rede ordeira do plausível, em prol dos efeitos que procure; nem é estranha à desestruturação de um Lewis Carroll – Alice é convocada e negada, algures, por Nuno Moura; do mesmo modo que se pode, com ela, recuar até à acção paródica dos Goliardos, ou à rebelde inventividade de um Rabelais. Todos eles foram, em tempos, parentes, mais ou menos, distantes desta poesia. E «poesia» deve, aqui, retroceder até ao seu étimo, de «fazer», pois esta poesia pretende e alcança fazer ao mundo aquilo que ele lhe faz.

A insubmissão não é simples gesto, nem resulta de uma provocação, mas é a massa de que se faz esta poesia, e seu constituinte essencial. Está na sua raiz e no rebentar do seu desenvolvimento. O desnível em relação a qualquer linha que se pudesse – em vão – traçar para a poesia portuguesa não constitui ensejo, nem para valoração, nem para desapreço. Essa é, tão-somente, uma constatação de facto. A circulação dos seus versos tanto se faz do geral para o particular, e de volta, sem qualquer ordem previamente estabelecida, como segue do sentimental para o excretor, e, portanto, do inefável, com grande rapidez, para o concreto – «eu ia ali para morrer mas por prazer/ doces marés de bivalve e sorna nave/ o chulo a questionar o meu porte de piso/ (…)/ ainda íamos ao mictório do adamastor/ dizer aos poetas da nossa geração/ “não conheço nenhum poeta da minha geração”/ e depois sacudíamos». Porque esta poesia parece mais surgir no seguimento de uma ideia de vida do que de um projecto exclusivamente literário. Talvez se devam ler a essa luz algumas das palavras com que se conclui Canto Nono e que fazem deste poema «um diário redigido entre as várias residências de acolhimentos pelas quais passei nos últimos dois anos».