Hugo Pinto Santos

Depois de alguma juvenília (Poema Seis, O Meu Nome e A Noite, Sobregelofino, ainda assinados como Luís Brito Pedroso) e de poemas dispersos nas revistas Criatura e Piolho, Romance ou Falência é o sucessor de Princesas Dianas & Anti-Heróis (2009, Ed. do Autor). Relativamente ao anterior, o presente livro de L. Pedroso apresenta um progresso notório. Além de desbastar alguma rugosidade ainda notada nesse registo (e que surgia, como é natural, ainda mais evidente em volumes anteriores), depõe certo desgoverno metafórico que obstava a alguns poemas. A derrisão, apontada a alvos demasiado reconhecíveis, como uma cadeia de supermercados, deu também lugar a uma serenidade de construção e de imagem capaz de rasurar uma referencialidade por vezes sufocante, que poderia funcionar como elemento de distracção e enfraquecer os poemas. Pense-se, por exemplo, que um verso como «O desconto em cartão tornou-se viral» (p. 41), ao mesmo tempo que denuncia o factor erosivo de um fenómeno do consumismo actual, colige, em clave sarcástica (mesmo que seja involuntariamente), uma das pragas da degenerescência vocabular de agora. Quer isso dizer que uma certa contenção, propagada por um registo mais oblíquo, substituiu o que era um universo caricatural e paródico, dominado pelo pastiche e o humor. Romance e Falência desloca a sua focagem para fora de epifenómenos que têm sempre de contar com a dilação no tempo, uma vez que deixam o poema datado de uma forma que impede uma subsistência para lá do imediato. Pedroso conseguiu, de certa forma, aquilo que Lou Reed disse ter feito com The Velvet Underground: criar, com as palavras das suas músicas, uma determinada intemporalidade; daí a opção de recusar o calão e a gíria do dia-a-dia em prol de certa generalidade. Esta tem sempre tanto de inocente como de engenhoso. Como neste novo livro de Luís Pedroso.

Estas considerações, no entanto, não impedem que Romance ou Falência encontre no concreto algum do prumo que cria para os seus poemas. Na verdade, o livro consegue muita da sua geometria na coerência produzida entre textos que são distintos no alcance e na consecução. Há neles um momento semelhante, em que o poema age de acordo com um elenco de alíneas que se subentendem em contraluz em face de um todo discernível. Porque esta poesia enfrenta com coragem aquilo que não concebe como intromissão indesejada: a própria matéria tributável deste memorial que consegue ser exaustivo sem se exaurir numa aridez totalitária. O rigor que fiscaliza estes versos funciona como a rede no ténis de que falava Robert Frost (a propósito da rima). Nesse sentido, adquire maior relevância a detecção de enunciados como «obrigações do tesouro» (p. 27), ou de elencos como «balanços, gastos e proveitos» (p. 29); e ao destacar «a mortífera contradição que encerra a palavra honorários» (p. 36), Pedroso revela um daqueles casos em que escavar até à raiz da palavra conduz a uma aporia. Neste caso, pela contradição nos termos entre a honra e o pagamento, a estatura ética e a sujeição laboral.

A leitura destes poemas permite verificar uma fidelidade às suas próprias circunstâncias, um compromisso para com a factualidade – «nunca desejámos um futuro a dois/ ou qualquer género de cenário/ idílico – como se diz na gíria» (p. 27). Pode perceber-se de que forma a expressão «como se diz na gíria» é um dos pontos mais actuantes neste renque de versos. Não apenas porque possibilita que eles adquiram, mesmo a tempo, o contrapeso da ironia, mas por conseguir deixar entrar no poema o golpe de luz daquilo que é do tempo e da conjuntura. Assim, quase inundado dessa luminosidade, o poema bem pode fechar-se sobre si mesmo, porque nele já se move toda a impureza, todos os sedimentos do mundo.

Os dois pólos representados no título do livro não põem em circulação um maniqueísmo que comprometa a feitura de Romance ou Falência. E nem sequer a disjuntiva «ou» marca, em definitivo, uma opção demasiado vincada, que macule a pesquisada transparência destes versos; nem, de outra forma, os poemas aqui recolhidos se ressentem de qualquer crise de identidade, por oscilarem entre o sublime e o grotesco. A dupla opção será mais um sinal discreto de ironia, o dividendo de uma reflexão consequente. Porque esta poesia – sem acartar, como já se disse, as insígnias dos trabalhos & dias de um presente demasiado fixo em sinais óbvios – pega na oposição romance/falência como numa possibilidade de enquadramento, um instrumento para gerir possíveis acessos de lirismo, contrariando-os através de uma salutar normalização do discurso. O que torna estes poemas um exemplo de como clareza não quer dizer obtusidade, e de quanto tonalidade directa não tem de equivaler a insignificância. Tanto mais que, por «normalização», não se entende, aqui, estandardização, mas um estado em que as opções não passam já tanto pelo tremor de terra expressionista, mas pela vigia atenta do sismógrafo que descreve, em diferido, aqueles embates. Repare-se, por exemplo, noutro tipo de antinomia, como a que opõe o lirismo etéreo de Hölderlin ao vocalista do grupo The Strokes (poema «Simulacro», p.26). Esta não existe para provar qualquer fosso entre assuntos passíveis de incluir e não, mas para evidenciar como é capazmente larga a banda dos registos destes poemas. Como quando se consegue emparelhar o abstracto e o concreto de certos «jardins suspensos de renúncia e relento» (p. 17) através, interessantemente, de uma instância da história mítica.

Romance ou Falência é a prova de que, se «nada está decidido ao primeiro verso» (p.14), também não o está ao primeiro livro. Nem em nenhum dos que se seguirem, felizmente. Mas, sobretudo, indica que a poesia de Luís Pedroso deve merecer um olhar detido e uma atenção que se justifica plenamente.