Telmo Rodrigues

Malcolm MacClaren, o empreendedor responsável pela formação dos Sex Pistols, terá modelado a banda que simbolizaria o punk britânico à imagem de um músico: Richard Hell. MacClaren conheceu Hell no princípio dos anos setenta, em Nova Iorque (antes de qualquer um dos dois se tornar famoso), quando tentava revitalizar os New York Dolls. Os Sex Pistols viriam a ser a grande obra de MacClaren, uma obra que ele já tinha tentado construir – e falhado – como agente dos Dolls. 

Os créditos devidos a Hell, embora reconhecidos por críticos escrupulosos como Jon Savage, foram sendo submergidos pelo histrionismo do punk britânico que MacClaren fundou; a autobiografia de Hell é, desse ponto de vista, e como ele afirma várias vezes, uma tentativa de corrigir os relatos acerca da sua vida. 

Richard Hell (nascido Meyers) não esconde que quer acertar as contas com a História, afirmando: «Naturalmente também tenho o meu interesse nisto: mesmo não tendo em conta a questão do orgulho, o meu ganha-pão está parcialmente dependente da minha reputação e do papel que tive em acontecimentos passados, por isso posso tentar corrigi-los quando acho que não me fazem justiça» (p. 162). Quando ele afirma, na mesma página, que quer que a sua versão faça parte da sua reputação, está a insinuar que não há, nunca, nem uma versão verdadeira nem uma versão definitiva para uma biografia. A maior virtude deste livro assenta aí, em não pretender ser mais do que uma forma de colaborar para a criação de uma reputação; tal como na citação gasta do filme de John Ford (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962), a que Hell também faz alusão neste excerto, não vale a pena imprimir nada que não seja lenda.

Em I Dreamed I Was a Very Clean Tramp: An Autobiography trabalha-se a lenda que é a vida de Hell de duas maneiras distintas: por um lado, contando a sua história de uma forma «honesta», descrevendo os momentos de glória e os momentos embaraçosos sem receio de que os segundos possam manchar os primeiros; por outro lado, e de forma menos calculada, Hell tenta associar credibilidade intelectual a uma reputação que, dependendo apenas dos mencionados momentos de glória e embaraço, poderia parecer frívola. Assim, Hell narra a sua vida desde a infância no Kentucky até à adolescência problemática que culminou na sua fuga para Nova Iorque com o amigo Tom Verlaine (nascido Miller), com quem acabaria por fundar os Television; seguir-se-ia uma passagem pela banda de Johnny Thunders, os The Heartbreakers e, finalmente, formaria os Richard Hell and the Voidoids, com o guitarrista Robert Quine (sobrinho do filósofo), outra das figuras mais subvalorizadas deste período. Blank Generation, editado em 1977, é o disco que garante a Hell um lugar no mundo da música, mesmo quando esse lugar já lhe era devido pela influência que teve na comunidade musical e artística de Nova Iorque nos anos setenta. Antes da incursão pela música, no entanto, Hell tinha procurado concretizar as suas ambições literárias, trabalhando e publicando em várias revistas e fundando mesmo a revista Genesis : Grasp, onde deu corpo a Theresa Stern, o alter-ego literário criado em parceria com Verlaine; a relação que tenta estabelecer com o mundo literário e as suas figuras procura validar uma carreira que, embora influente, não terá cumprido os altos desígnios que se anteviam.

Embora possamos apreciar a forma sóbria, e muitas vezes elegante, como Hell conta histórias sobre figuras incontornáveis do movimento punk americano (como Johnny Thunders, Dee Dee Ramone, Blondie ou Patti Smith) e possamos também admirar as descrições sórdidas acerca do consumo de álcool e drogas, essas são apenas as partes óbvias, e expectáveis, da autobiografia de Hell. Realmente interessante é a maneira como Hell procura, através de referências e pontos de vista intelectuais, dar alguma substância à imagem de diletante toxicodependente que dele perdurou. No momento em que esta tentativa vai mais longe, Hell descreve uma relação sadomasoquista que manteve num período da sua vida e estabelece uma analogia com a poesia, assumindo que ser submisso implica estar dependente de alguém da mesma forma que um escritor está dependente da sua musa (pp. 265-8). No entanto, não havendo grandes consequências a retirar dessa analogia, Hell fica mais perto do objectivo de dignificar a sua reputação quando usa um tom mais ligeiro para contar dois episódios com Allen Ginsberg: o primeiro é a história de como um dos momentos mais significativos da vida literária de Hell, ainda antes da música, foi recusar a proposta de publicação de um poema de Ginsberg na sua revista (p. 69); o outro episódio envolve uma tentativa de assédio a Hell, quando este trabalhava como pedreiro: Hell recusa a investida sexual do poeta, não por ser heterossexual, mas por não gostar da poesia de Ginsberg (pp. 52-3). Ginsberg, umas das figuras mais relevantes da poesia beatnick americana, tinha passado parte dos anos sessenta associado a artistas do mundo da música, sobretudo a Bob Dylan; as duas histórias de Hell sobre o poeta revelam algo mais importante do que gostos literários – revelam que parte do que tornou o punk um movimento de relevo foi a vontade de dissociação relativamente ao passado, um passado musical, certamente, mas também um passado intelectual que Ginsberg representava. O que estava em causa, como em qualquer movimento artístico importante, era a ruptura com a geração precedente; o punk incorporou essa ruptura não apenas intelectualmente, mas sobretudo ao nível dos processos: a maneira de fazer determinadas coisas pode ser mais relevante do que a natureza das coisas que se fazem. Hell teve um papel central na história do punk porque o instinto o impeliu na direcção certa: mesmo antes de haver um código de conduta para o movimento ele já sabia quais as atitudes correctas a tomar. Nesta autobiografia, sem pôr em causa a sua reputação, Hell consegue descrever a sua vida como mais do que o mero reflexo dos acontecimentos mediáticos que o tornaram famoso; e consegue-o, em grande medida, não pela substância que imagina haver naquilo que fez ao longo da vida, mas precisamente pela maneira instintiva como faz as coisas.