Ana Cláudia Santos

Em conversa com Paul Holdengräber, Adam Phillips declara que a melhor forma de ler Freud é encará-lo não como “um cientista da mente humana” mas como um romancista, considerando que, de um ponto de vista psicanalítico, o poder evocativo dessa leitura (aquilo que se faz dela) é mais importante do que o conhecimento que possa proporcionar. O que faz Adam Phillips de Freud? Como é evocado o fundador da psicanálise em Becoming Freud: The Making of a Psychoanalyst?

Constituindo um dos volumes da série “Jewish Lives”, publicada pela Yale University Press, esta nova biografia de Freud pretende ser fiel à apreciação disfórica que Freud faz do género biográfico – “a very absurd but very absorbing genre”, nas palavras de Phillips. A novidade deste livro breve sobre a vida de uma das figuras mais complexas do pensamento ocidental não está nos factos que desvenda, mas na problematização que faz do que se entende por “factos de uma vida” e da forma como estes se relacionam com os chamados “factos da vida”. Mas essa é uma descrição da própria novidade da psicanálise, dirá um conhecedor de Freud. Com certeza, mas também é a melhor descrição da vida do seu fundador, diz Adam Phillips (como, em páginas autobiográficas, disse Freud). Reconheçam-se, então, as perguntas que perpassam Becoming Freud: o que é uma vida; o que é a história de uma vida; o que é contar a história de uma vida.

A psicanálise criou uma nova linguagem para falar de histórias de vida, lançando a suspeita de que a necessidade que temos de contar histórias plausíveis, ordenadas e coerentes encobre o facto de não conseguirmos lidar com as nossas vidas, ou pelo menos com alguns dos seus aspectos mais problemáticos – em particular, a sexualidade e a morte, os dois instintos de inspiração grega que, no pensamento freudiano, se opõem. Freud estava interessado naquilo que resistia à articulação, à coerência narrativa – daí que, como observa Adam Phillips, uma das baixas mais expressivas da nova ciência da psicanálise seja o valor tradicionalmente atribuído à busca do autoconhecimento (p. 14). Freud parece desvalorizá-la não apenas por reconhecer as suas limitações, mas sobretudo por ter a suspeita de que, mais do que conhecermo-nos, o que queremos é querer. Por outras palavras, falar do desejo de autoconhecimento é uma forma civilizada de falar do desejo, razão pela qual se pode facilmente confundir alguém que não sabe o que quer com alguém que não se conhece. Em vários dos seus livros, Adam Phillips exprime a ideia, aparentemente exótica dado que formulada por um psicanalista, de que há coisas melhores na vida do que procurarmos conhecer-nos.

Na história que Freud conta, o homem moderno vive em conflito com os seus quereres, com os seus “apetites” (este é um termo subsistente no vocabulário de Phillips – leia-se, em especial, The Beast in the Nursery), substituindo-os por fantasias de conhecimento (que são, no fundo, fantasias de controlo, ou formas de propaganda pessoal que se encontram em asserções como “eu sou o tipo de pessoa que x”). Ora, na história contada em Becoming Freud, o apetite por biografias é considerado um dos apetites humanos mais conflituosos. Nesse sentido, a desconfiança de Freud a respeito do género biográfico parece sintomática dos laços que se podem estabelecer entre este e o tipo de conversa praticado numa sessão de psicanálise: ambos sujeitos a falsidades, hipocrisias e enganos (p. 23); ambos um género literário apetitoso.

As impossibilidades da biografia são, assim, o ponto de partida de Adam Phillips na sua biografia do jovem Freud. O objecto de trabalho do biógrafo tradicional é a vida documentada; o do psicanalista, a vida falada. Freud intuiu o carácter romanesco dos dois empreendimentos e ergueu defesas copiosas em torno da hipótese de se escrever a sua biografia. Acto sintomático foi a destruição de todos os esboços, cartas e artigos científicos que escreveu até 1885, com o objectivo, conforme declara numa carta à noiva Martha Bernays, de desnortear os biógrafos vindouros. Phillips comenta brevemente este episódio nesta biografia, que merecera já destaque no intrigante ensaio “The Death of Freud”, incluído no livro Darwin’s Worms. Esta desconfiança em relação às histórias de vida constitui, na perspectiva de Phillips, a defesa de Freud do direito a morrer como se quer – tendo por base a noção de que os organismos “desejam” morrer à sua maneira –, a qual se repercute na criação do conceito de instinto de morte.    

Em Becoming Freud, identificam-se três ideias-chave que vão sendo exploradas em momentos diversos do livro: 1) a relação ambígua entre a fundação da psicanálise e as origens judaicas de Freud; 2) a sua ambição e busca constante de “pais” intelectuais, depois abandonados; 3) as analogias entre as descobertas revolucionárias da psicanálise e o início da vida familiar de Freud.

Em qualquer consideração que se faça da vida de Freud, deve levar-se a sério o facto de a geração de judeus dos seus pais ter vivido em condições muito precárias (p. 39). A psicanálise surge, assim, como uma revisão da história dos judeus e dos seus sofrimentos, uma história de aculturação, que fala do modo como os indivíduos se adaptam (ou não) às suas culturas. Trata-se de uma psicologia de e para imigrantes, sendo o modelo humano nela descrito o de uma pessoa com pouca autonomia, sujeita a forças que não consegue controlar ou compreender. A sexualidade é considerada a alternativa individual à cultura, uma espécie de protesto contra o seu poder assimilativo e opressivo (sendo a “frustração” a condição prévia de tal protesto). Os primeiros pacientes de Freud não se conseguiam integrar e falavam uma língua de sintomas físicos bizarros. Nesse sentido, a criança surge como a figuração ideal do imigrante, enquanto ser desamparado, que procura viver em conformidade com as formas de governo já existentes, sem que tenha uma palavra a dizer. Tal como coexistiam, em Freud, as raízes judaicas e a identificação com a cultura austro-alemã, o psicanalista tenderá a ser uma espécie de agente duplo, representando, por um lado, a autoridade da cura, e identificando-se, por outro lado, com os sintomas que quer curar (deixando-se seduzir por eles).

 Deve também levar-se a sério, defende Adam Phillips, a infância de Freud, tarefa tão difícil para o biógrafo quanto para o psicanalista, visto que as memórias de infância (como os sonhos) são as provas não da infância mas do desejo; isto é, são representações de desejos. Phillips chama a atenção para o papel secundário a que tem sido reduzida a infância de Freud em duas das principais (sérias) biografias do psicanalista: na de Peter Gay, os primeiros dezoito anos da vida de Freud merecem 26 páginas numa obra que soma 651; na de Louis Breger, só 31 em 364 páginas lhes são dedicadas. Também nesse sentido Becoming Freud é inovador: num livro com pouco mais de 170 páginas, o capítulo sobre a infância e a juventude (“Freud from the Beginning”) tem cerca de 50.    

Entre as figuras que mais influenciaram (intelectual, emocional e financeiramente) o início da carreira de Freud, Adam Phillips identifica quatro homens e uma mulher. Enquanto estudante da Universidade de Viena, o professor Ernst Brücke; durante os meses vividos em Paris, o lendário neurologista Jean-Martin Charcot; de regresso a Viena, o psiquiatra Josef Breuer e o otorrinolaringologista Wilhelm Fliess. Com todos estes homens Freud manteve relações muito próximas de colaboração profissional e amizade; de todos acabou por se separar (situação que se repetiria, de resto, ao longo da vida com outras figuras masculinas, entre as quais Carl Jung). A mulher era Martha Bernays – no frontispício do livro é reproduzida uma fotografia de Sigmund Freud com Martha, datada de 1883. Nas palavras de Phillips, o facto consistente da vida adulta de Freud foi o seu casamento de cinquenta e três anos com Martha Bernays. Aliás, Freud ter-se-ia tornado psicanalista porque precisava de casar (p. 70). Por motivos económicos, e estimulado por Brücke, Freud abandonou então a “carreira teórica” de investigador e começou a dar consultas. Entre 1887 e 1895, o casal teve seis filhos; durante esses anos Freud publicou muito pouco, mas foi precisamente nesse período (e até 1900, ano de publicação da obra A Interpretação dos Sonhos) que a psicanálise deu os seus primeiros passos – “Freud Begins to Dream” é o título que Adam Phillips atribui a este capítulo da história de Freud, quarto e penúltimo do seu livro.

Uma das ideias consistentes de Becoming Freud é a de que, enquanto médico, o psicanalista “soa” a escritor. Na obra que Freud assina com Breuer em 1895, Studien über Hysterie, as “case stories” que a compõem são comparadas a “short stories”: era uma vez uma mulher chamada Anna O., era uma vez o pequeno Hans…, etc. O livro de Adam Phillips conta a história do jovem Freud, da infância aos primeiros anos da nova ciência da psicanálise. Tratando-se de uma ciência que, no seu melhor, se parece tanto com a literatura, não é de admirar que este exemplar de uma “Jewish Life” possa ser lido como uma novela – com a vantagem adicional de a prosa ser a de Phillips: elegante, subtil, evocativa.

“Adam Phillips, The Art of Nonfiction No. 7”, entrevistas com Paul Holdengräber publicadas em The Paris Review, nº 208, Primavera de 2014. (http://www.theparisreview.org/interviews/6286/the-art-of-nonfiction-no-7-adam-phillips)

Adam Phillips. 2000. Darwin’s Worms. On Life Stories and Death Stories. Nova Iorque: Basic Books.

Adam Phillips. 1998. The Beast in the Nursery. On Curiosity and Other Appetites. Nova Iorque: Vintage Books.

Peter Gay. 1989. Freud: A Life for Our Time. Nova Iorque: Anchor Books.

Louis Breger. 2001. Freud: Darkness in the Midst of Vision. Nova Iorque: Wiley.

Sigmund Freud e Josef Breuer. 1976. “Studies on Hysteria”, The Complete Psychological Works of Sigmund Freud (Standard Edition), 24 vols. Nova Iorque: W.W. Norton.

Sigmund Freud. 2009. A Interpretação dos Sonhos. Trad. Manuel de Resende. Lisboa: Relógio D’Água.