Jorge Almeida

Numa conversa entre duas personagens do romance Ilusões Perdidas de Balzac, um jornalista experiente aconselha o aspirante a jornalista Lucien de Rubempré, dizendo-lhe: “Fais un peu de statistique, science assez utile quand on n'en abuse pas.” Só parte do conselho, aquela que antecede a vírgula, parece ter chegado aos ouvidos do antigo jornalista David M. Friedman, autor de Wilde in America: Oscar Wilde and the Invention of Modern Celebrity (2014), uma vez que nesta obra o autor parece considerar que um relato alagado em estatísticas da tournée de conferências que Wilde fez nos Estados Unidos da América em 1882 é suficiente para explicar em que consiste a invenção de um processo que permite a qualquer um passar do anonimato ao estrelato e de que forma esse processo se tornou paradigmático nos nossos dias.

Num livro que tem como objectivo maior revelar de que forma Oscar Wilde inventou um processo para atingir o estatuto de celebridade, Friedman cai várias vezes na tentação de recorrer a dados estatísticos como explicação última e decisiva de como Wilde conseguiu estabelecer esse novo processo como paradigmático para as gerações vindouras. Consciente de que nada impressiona tanto as massas contemporâneas como uma boa procissão de números, Friedman caracteriza repetidamente o ano de Wilde nos E.U.A. da seguinte forma: trinta estados visitados, quinze mil milhas percorridas, cento e cinquenta conferências públicas, assunto em mais de quinhentos artigos de jornal, convidado em mais de trezentas festas, etc. Para Friedman, todos estes números indicam que no final do ano de 1882 Wilde ocuparia o segundo lugar no ranking dos britânicos mais famosos nos Estados Unidos (p. 14), sendo prova disso mesmo o facto de o seu rosto ser usado na publicidade feita a produtos tão diferentes como cigarros ou cremes para realçar os seios. Ainda que seja exacta e reveladora do êxito alcançado pelo autor irlandês na sua demanda por, simultaneamente, pregar o Esteticismo aos americanos e tornar-se famoso, esta avalancha estatística não explica em que medida um novo meio para alcançar o estatuto de celebridade foi inventado. O que Friedman nos faz saber é apenas que Wilde conquistou esse estatuto, mas nada mais do que isso. A saraivada numérica com que o leitor do livro de Friedman é constantemente atingido parece, assim, servir, ainda que mal, para esconder a escassez de argumentos que lançariam alguma luz sobre a promessa feita pelo autor logo no título do seu livro: esclarecer como Wilde inventou o conceito de “celebridade” ainda hoje em voga e quais os meios utlizados para lá chegar.

Aponto ostensivamente para esta debilidade de Wilde in America porque ela me parece ser o que de mais censurável existe no livro: o facto de as principais promessas feitas pelo autor (muitas delas, aliás, ancoradas em intuições promissoras) nunca se verem cumpridas ao longo do texto, ainda que o arsenal estatístico e um relato pormenorizado de um caso bem-sucedido o tentem esconder. Tome-se o seguinte exemplo: em dado passo do texto, Friedman estabelece uma distinção entre “fama” e “notoriedade”, caracterizando a primeira como algo que nos é outorgado pelos outros como consequência dos nossos feitos e a segunda como algo adquirido por nós mesmos, através da criação de uma identidade ou de uma pose (p. 19). Segundo Friedman, o jovem Wilde terá percebido que a notoriedade poderia ser apenas um ponto de partida para a fama e, consequentemente, terá começado a criar a sua notoriedade, apresentando-se, quer em Oxford, quer em Londres, como “o mais esteta dos estetas”.

Esta pose, argumenta Friedman, fez com que Wilde se tornasse famoso só por ela e não devido a quaisquer “real-world accomplishments”. Segundo o autor de Wilde in America, Wilde teria intuído que não existia diferença alguma entre pose e feitos e que, assim sendo, se poderia tornar ‘conhecido apenas por ser conhecido’. Friedman faz equivaler este estatuto ao seu conceito de “modern celebrity” (p. 19). O relato das peripécias de Wilde em terras americanas seria, de acordo com esta perspectiva, a prova em acto de que este processo é não só válido, mas quase infalível. Daí que Friedman o qualifique como o processo por excelência para a criação do estatuto de celebridade nos séculos XX e XXI.

 Estas propostas parecem-me discutíveis, desde logo por dois motivos. O primeiro é o de que, como disse Aristóteles e a História tem vindo a confirmar, a virtude (que aqui se chama “fama”) se atinge por muitos caminhos. O segundo é a ideia de Friedman de acordo com a qual o que funciona de forma tão extraordinária com uma pessoa funciona igualmente com outras; mesmo que Friedman cite outros exemplos (alguns, como Paris Hilton e Kim Kardashian, de modo a espantar o leitor com o exotismo das comparações) a sua generalização não se torna válida (p. 239).

Um passo que me parece digno de ser louvado é a ideia apresentada por Friedman de que a conquista do estatuto de celebridade por parte de Wilde não correspondia à conquista de um estatuto final, pois este seria também um degrau para Wilde se estabelecer como escritor. Contrariamente aos outros escritores vitorianos que atingiam a fama através da carreira literária, Wilde começou por construir a sua carreira literária graças à fama (p. 45). Se o objectivo final do autor de Wilde, como afirma Friedman, é estabelecer-se como escritor (e isso não levanta dúvidas), não me parece, todavia, difícil constatar que Wilde tinha pela literatura, assim como pela arte em geral, a maior das considerações. Perante isto, é difícil compreender a análise que Friedman faz de dois episódios da biografia de Wilde: o encontro com Walt Whitman e a defesa de Wilde em tribunal antes de ser condenado a passar dois anos na prisão.

A propósito do primeiro episódio, Friedman diz que Wilde não foi visitar o poeta americano com o intuito de discutir literatura, mas sim porque queria aprender novas maneiras de chegar à fama com um mestre da autopromoção como Whitman (p. 103). A respeito do segundo episódio, Friedman considera que as performances temerárias de Wilde durante o seu julgamento, como, por exemplo, a utilização de frases dos seus ensaios literários para responder às perguntas que lhe eram feitas a propósito da relação entre literatura e moral, tiveram origem no facto de este ter acreditado na sua própria publicidade e de ter deixado que a fama o cegasse ao ponto de se achar intocável e de considerar sensato defender-se com opiniões do âmbito da filosofia da arte durante o interrogatório (p. 249). Ambas as análises parecem contradizer a ideia de que Wilde se servira da fama para conquistar uma carreira literária, visto que ambas colocam a fama como patamar último das ambições de Wilde, remetendo as ambições literárias para um patamar bastante inferior. Na análise do comportamento de Wilde em tribunal, torna-se evidente que o interesse pela fama não cegou aquele que estava a ser julgado, mas aquele que analisou o comportamento do julgado durante o julgamento. David M. Friedman não percebeu que só alguém com um respeito elevadíssimo pela actividade literária colocaria a cabeça a prémio para defender em tribunal as ideias que propusera em The Critic as an Artist, assumindo, dessa forma, uma ética profissional notável que só está ao alcance daqueles que têm pela sua actividade uma admiração colossal e sincera.

Feitas estas observações menos positivas, resta revelar os méritos existentes na obra de Friedman. Em primeiro lugar, a investigação exaustiva e rigorosa feita pelo autor a propósito da viagem de Wilde pelos Estados Unidos esclarecendo a sua pesquisa atenta e a sua recolha apurada de informações alguns dos passos habitualmente mais dúbios e alguns dos factos mais obscuros dessa jornada. Depois, a excelente capacidade que o autor demonstra na apresentação de momentos-chave na biografia de Wilde para os tornar emblemáticos de algumas das suas ideias. Por exemplo, os dois encontros entre Wilde e a actriz polaca Helena Modjeska, servindo ambos como limites do ‘Wilde famoso apenas por ser famoso’ e do ‘Wilde famoso por ter feito alguma coisa’, a saber, ter-se tornado ainda mais famoso pelas conferências que deu a propósito do Esteticismo, da importância das artes decorativas, da poesia irlandesa, etc. No primeiro desses encontros, ainda antes de Wilde partir para os E.U.A, a actriz terá comentado, estupefacta perante a fama do jovem dandy nos salões de Londres: “Oh, yes, he talks well, but what has he done? He has written nothing, he does not sing or paint or act – he does nothing but talk. I do not understand” (p. 44). Esta actriz não teria repetido o comentário a 27 de Dezembro de 1882, quando embarcou rumo a Inglaterra com o mesmo Oscar Wilde, já famoso pela sua pose e pelos feitos em solo americano. Estas parecem-me ser as virtudes existentes no livro.

Não posso concordar com os louvores que Friedman recebeu por ter escrito um livro divertidíssimo de ler, pois parece-me que qualquer autor que escreva sobre a viagem de Wilde pela América está condenado a escrever um livro que vai divertir os leitores, já que os pontos mais incontornáveis dessa viagem são aqueles episódios em que Wilde revela o seu génio humorístico, como, por exemplo, no dia em que tentou convencer um jornalista de que tinha sido recentemente nomeado coronel dos rangers do Texas.