Frederico Pedreira

Um dos valores mais evidentes da poesia do escritor catalão Joan Margarit (Sanaüja, 1938) revela-se no jogo táctico e decoroso que o autor mantém com a ideia de tempo. É na consideração do tempo enquanto ideia simultaneamente difusa e capaz de uma concentração emocional irradiante que o poeta encontra o tom particular da sua expressão. O espaço do poema, mais do que um motivo de revisitação do passado, é uma espécie de homenagem à possibilidade de recomeço que o momento da escrita sempre promete, e Margarit presta esta homenagem através de um trabalho apurado e vigilante de rememoração.

A generosidade de Margarit para com a poesia é tremenda, precisamente porque o poeta reconhece, pelo tacto vocabular, as subtilezas mais sonantes, as zonas cinzentas da emoção que conferem ao poema um corpo imponderável, amordaçado pela palavra certa, pelo tom mais justo, sem perder de vista a sombra contingencial do homem que escreve perante o outro que se prestou a viver. Veja-se, a propósito, um dos vários poemas que traduzem este tipo de subtilezas, a riqueza que subsiste no facto de a memória se diluir e as coisas, porém, perdurarem num espaço de fricção emocional, um género de indefinição que toma de assalto a poesia de Margarit, em «Os olhos no retrovisor»: “E, quando me olho no retrovisor,/os olhos que vejo não são fáceis de reconhecer,/porque neles brilha o amor deixado/por tantos olhares, e a luz, e a sombra/de tudo quanto vi, e a paz que reflecte/a tua lentidão, que está dentro de mim./É tão grande a riqueza que não me parece/que possam ser os meus estes olhos no espelho.” (p. 105). Nesta poesia, o esquecimento, esperando, como de costume, um par de coices, é alvo de vénias consecutivas.

Este é um livro sobre o amor, muitas vezes um amor do avesso, noutras um amor não-judicativo, suspenso numa ideia de universalidade conquistada a partir de um aprimoramento da dor, respeitando sempre e em primeiro lugar a ideia do outro (experimentado ou imaginado), um amor composto a partir de um entrosamento ténue das falhas do que outrora se mostrou grandioso, amor que se rendeu à evidência da sua inexplicabilidade, do seu modo ambivalente de resistir. Margarit di-lo, claro, muito melhor, em poemas como «Depois do jantar» (“Penso naqueles que amo e não virão”, p. 299) e especialmente em «Paisagem perto do aeroporto»: “Vulgares e lotadas no Verão,/dignas e desoladas no Inverno,/são como o amor estas paragens.” (p. 133).

Quando faz radicar os seus poemas em relações afectivas passadas, ou quando os dedica à sua falecida filha, Joana, Joan Margarit não procura a homenagem, nem mesmo uma espécie de celebração do avesso, revestida de cantares de morte e de miserabilismo. O próprio título da antologia, Misteriosamente Feliz, indica-o: estamos perante uma abertura perceptual pouco comum aos mecanismos tortuosos da memória, uma apropriação por parte do poeta da repetição voluntariosa do quotidiano e da teia mirífica dos afectos. A batalha está, por definição, perdida. No entanto, mesmo no entulho do tempo ou da incógnita do que outrora foi familiar, decorre ainda um brilho misterioso, assombrado – o motivo, ainda assim, para os melhores versos: “Chegas tarde ao teu tempo. Palavras duras/que escuto agora como uma derrota./Mas já não sei de nenhum combate,/nem que tempo era o meu. É uma pena/não se ser ninguém, ter errado/o comboio, ter ficado sem as malas,/adormecido no banco, passar ao largo,/e achar-se agora sem roupa limpa,/cansado, num hotel reles de uma só/e má estrela, que deve ser a minha./Prescindirei de tudo menos do poeta/que fica do desastre. Fingirei ver/ que no final de contas errei o século:/isto será Paris e eu Verlaine.” (p. 171).

Esta espécie de miopia existencial, que convoca sem preocupações uma imagem literária já de si estafada, funciona precisamente pela desinibição que Margarit mostra ao convocá-la. A simplicidade com que arruma a questão da perda da identidade e da sua coincidência com um passado mais ou menos distante, concentrada nos versos “É uma pena/não se ser ninguém”, de certo modo autoriza-o a chamar ao poema as fantasias que preferir. Esta permissão é, aliás, conferida sem pejo nos seus poemas, isto porque Margarit não se empoleira para falar alto, não força a sua modulação expressiva, no seu lamento não há uma nota ao lado. O que tem para dizer, di-lo, e a seriedade e lucidez com que o faz lembra-nos aquele velho sentado no parque a quem emprestamos a atenção para escutar uma história mil vezes repetida: o rosto é sempre bonito, ainda que esbugalhado, mal escanhoado, a articulação do seu modo de dizer encantatória, porque verdadeira, tranquila no modo de se amarrar a um jeito honesto.

Cada poeta tem a sua ideia de verdade, mas é o esboço (riscado, recuperado, novamente riscado) que traça em torno dessa ideia que nos dá o aspecto do bicho particular que é o seu poema. Poder-se-á ver o poema de Margarit como um esboço uniforme, muito carregado no seu traço, como o traço das crianças que querem, à força de duas ou três cores, perpetuar um mundo inteiro. A força investida no traço é já o reconhecimento da derrota na fantasia. É por isso que, mesmo dedicando muitos poemas à morte da sua filha, Margarit tem a consciência de que o eu que vive essa morte num momento é diferente do eu que a vive nos seguintes. Diz o poeta, muito a propósito, que “[n]em sequer a ideia que cada um de si faz escapa à erosão do tempo.” (p. 340).

Um dos sinais de mestria de Margarit revela-se na forma como consegue entrosar-se perfeitamente no jogo viciado do tempo e sair dele com a respiração intacta, isto é, contando as suas histórias, reabilitando as vidas que perdeu pelo caminho, as suas pequenas mortes, sem nunca a sua poesia, que se expande por mais de quarenta anos de trabalho paciente, funcionar a partir de uma perspectiva meramente narrativa. A transfiguração da experiência resiste à ideia de narrativa e à própria ideia de conclusão, da procura de um fim que atribua um sentido circunscrito a episódios passados. O fim, se é que existe, é concedido pelo leitor, por via da interpretação. É o leitor, como o próprio Margarit diz, o responsável pela culminação do poema.

Se, por um lado, a inquietação proveniente do esquecimento é a derrota de que Margarit nos fala em tantos poemas seus, por outro, é também a qualidade maior que o faz esgaravatar no terreno da intimidade, reutilizando a trama desigual do passado com efeitos sempre produtivos: são as mesmas experiências olhadas de cantos distintos da sensibilidade. Veja-se o género de revitalização a partir da perda no poema «Réquiem para Anna»: “[…] O texto da memória está escrito/num friso de água remota como o mármore/que anuncia o céu azul de outros lugares./De ti resta a luz nas mãos vazias/e um sinal muito subtil/que se apagou nos vidros embaciados./E se onde estás há um longínquo eco de alegria,/é porque o futuro se alimenta do presente,/com a claridade dos muros que há nas redondezas/e o nosso meditar de caminhantes.” (p. 25). 

A poesia de Joan Margarit pode parecer, para o leitor despreocupado, repetitiva, obcecada com o assunto da morte, com o drama biográfico, com o susto da carência afectiva. O que de melhor esta selecção dos seus poemas nos traz é a clareza do movimento panóptico da atenção do poeta, precisamente porque as coincidências dos lugares afectivos entre os poemas projectam a excepcionalidade desse modo de prestar atenção. Os poemas complementam-se entre si, buscam e ganham a sua força na vizinhança particular que mantêm uns com os outros. Essa vizinhança por vezes provoca atrito, acentua a dispersão e confusão de uma consciência que tenta repassar os seus vincos, outras vezes é uma vizinhança zangada, de costas voltadas, em que o poema seguinte reescreve, numa nova afinação, o que foi contado no anterior. Como falar de sinceridade em poesia? Aqui, ela torna-se evidente no modo temperado com que o poeta parte para a revisitação da experiência. Nunca excessivo, Margarit sabe que o que vale para uma consciência pode não valer para outra. O tratamento biográfico é de tal modo subtil que torna a convivência vocabular apetecível para outras formas de vida, outras amplitudes existenciais.

A generosidade na poesia de Margarit refere-se a um sentido de individualidade da escrita sem problemas de consciência quanto ao grau biográfico e de exposição que os poemas podem convocar. Um dos seus melhores reflexos é a elegância investida no lugar da expressão, que vai sobrevivendo sob uma pressão vivencial estremunhada pelo pesadelo da morte e do soçobramento conjugal. Mas não é de todo no gesto de exibir sem pudores a biografia que a generosidade se encontra. O leitor não é entornado para o gesto biográfico. Ele vai acedendo aos poucos ao que é contado nos poemas porque Margarit sabe como tratar do leitor, seduzi-lo sem ser ostensivamente caridoso, seduzi-lo, talvez, pela permanência da sua convicção do que afinal sempre contou, para si, como poesia.

Margarit não é indiferente ao facto de não haver um elemento de exclusividade individual que promove o poeta apenas por utilizar a biografia. O sentido de generosidade é talvez a sua melhor qualidade, porque sabe contar sem interromper o leitor, isto é, confere-lhe uma margem suficiente de divagação pela sua escala emocional para que o verso não seja invasivo. A sua generosidade aponta para uma dessacralização do lugar poético. Esse movimento tem sido, nas últimas décadas, tentado através das vias estafadas da auto-ironia e de uma fórmula grotesca desencantada algures entre a erudição e o envio popular. O mais difícil e interessante é, porém, quando a poesia se acha responsável por dizer o mundo de novo, sabendo de cor o que mais importa, e que é a irredutível individualidade de uma consciência que não repudia mas trabalha as suas zonas de desconforto.

O mais difícil sempre foi voltar a casa, conviver com tudo o que isso significa, o ruído ao mesmo tempo estranho e familiar que a devassa. E Margarit não faz outra coisa senão andar em direcção de casa, temperando esse ruído com a ponderação íntima que atribui uma razão de ser à poesia: “Os três no pequeno apartamento,/como uma gaiola sobre o mar,/ouvimos os vidros toda a noite golpeados/pela água do mar e pela areia./Viemos para estarmos mais juntos, mais sós./Os lugares familiares são tão ausentes,/tão frios e nebulosos: principia/o esquecimento, longe de nós não existimos./São dias felizes./Com o vento sem tecto e o mar frio,/e o abandono da aldeia. Ser feliz/sempre foi uma coisa muito estranha.” (p. 185).