Rodrigo Abecasis

 

Ted Hughes. (1967) 2008. Poetry in the Making: A Handbook for Teaching and Writing. Londres: Faber and Faber.

Ted Hughes. 2014. A Ted Hughes Bestiary: Poems. Ed. Alice Oswald. Londres: Faber and Faber.

 

Começo por Poetry in the Making. Ted Hughes foi convidado a redigir uma série de lições sobre como se escreve, destinadas a um público jovem, e este é o resultado. Tanto a primeira lição como as últimas se caracterizam por um tom mais pessoal que as restantes, que, apesar de adoptarem uma atitude um pouco pedante, nada têm de austero ou de insípido. O tom geral com que Hughes se dirige ao seu público está bem equilibrado, e os vários desvios, as frases soltas características deste estilo de dar lições, são particularmente interessantes quando chamam a atenção para o quanto de estranho há na actividade que consiste em sentarmo-nos perante um bocado de papel e escrever um poema, uma história, um romance (ver, por exemplo, o capítulo “Learning to Think”, muito mais perspicaz e moderado do que as palavras que lhe dão título). O aspecto mais interessante será porventura o leque de poemas que Ted Hughes cita para ilustrar as suas lições, leque demasiado variado para aqui poder dar uma amostra da sua dimensão. Ainda assim, acho pertinente notar que dei por mim surpreendido ao ver que Hughes incluiu um poema de Wallace Stevens, pois em mais que uma ocasião expressou desagrado pelo vocabulário exótico do poeta americano (menos surpreendido, no entanto, por se tratar de Thirteen Ways of Looking at a Blackbird, um poema que, apesar da ocorrência “bawds of euphony”, Ted Hughes não poderia deixar de admirar). De qualquer maneira, gostava de chamar atenção para o encantador “The Behaviour of Fish in an Egyptian Tea-Garden”, de Keith Douglas (pp. 44-45), incluído, acertadamente, no capítulo “Writing About People”, e não no capítulo “Capturing Animals”. É um poema muito bom, construído numa série de descrições surpreendentes porque inesperadas, em que se observa uma rapariga num café e o ambiente que a circunda, associando-se o desejo dos vários homens que a cobiçam a diferentes tipos de peixes.

 Há, contudo, uma tendência um pouco suspeita nesta série de lições encantadoras, talvez ainda um pouco mais suspeita quando consideramos que se trata de um livro cujo público-alvo é constituído por jovens que um dia poderão aspirar a tornar-se escritores. Refiro-me a determinadas posições particularmente anti-intelectuais que parecem condenar os nossos processos de aritmética mental como uma falha da espécie. Torna-se óbvio que a ideia por trás destas posições é uma concepção do poeta como um ser livre de construções mentais elaboradas (que, depreende-se, devem dificultar a acção e a vida, e, assim, também a escrita); uma concepção do poeta como um ser que, devido a um contacto íntimo consigo mesmo, consegue escrever belos poemas sem qualquer género de esforço intelectual muito acentuado. A máxima segundo a qual para escrever sobre um objecto não se deve “think about it laboriously”, mas apenas “look at it, touch it, smell it, listen to it, turn yourself into it” (p.18), para, dando conta de nós próprios, descobrirmos que as ‘palavras tomam conta de si mesmas como magia’, é exemplo disso. Esta tendência talvez seja um dos efeitos da teoria imagista de Ezra Pound (“NO IDEAS BUT IN THINGS”). Hughes, concentrado na lição que quer transmitir, esquece-se de que uma ideia, simples ou intrincada, pode também ser um objecto simultaneamente tão familiar e tão invulgar quanto outro qualquer; que pensar uma coisa laboriosamente é uma experiência tão real quanto tocar a maçaneta de um armário de pinho, ou mesmo quanto imaginar que se vive aquilo sobre o qual se escreve. Por vezes Hughes parece confundir, em algum grau que permanece sempre incerto, a diferença que existe entre viver certas experiências e ser-se capaz de escrever sobre certas coisas. No século passado um poeta disse que o verdadeiro teste do artista consiste na capacidade de escrever sobre aquelas experiências que nunca se teve, e embora possa ser difícil reconhecer o que há nestas palavras que dá a impressão de o seu veredicto ser absolutamente verdadeiro, parece-me perfeitamente razoável manter que o é. No final de contas, não é muito difícil imaginar que um jovem possa na verdade ser já um velho precoce (“And I Tiresias have foresuffered all”).

A tendência anti-intelectual de Hughes é no entanto contrabalançada por momentos de especial argúcia, como o seguinte passo: "A comparison is like a puzzle. When I say 'His hair was like a rough coconut’s' – you say to yourself ‘How can it be?’ And this rouses your imagination to supply the answers . . . . You are forced to look more closely, and to think and make distinctions, and be surprised at what you find" (p. 44). Precisamente, e a atenção que ouvir e interpretar comparações exige não será muito distinta da atenção necessária para fazer comparações. Aritmética mental, no final de contas, é um passo fundamental, inelutável quer no processo que leva à criação de um poema, quer no processo que permite uma apreciação consciente e plena de um poema. Não fico convencido de que pensar laboriosamente e com afinco uma comparação possa estragar essa mesma comparação, a não ser que, desde o início, a própria ideia da comparação não fosse uma boa ideia – e neste caso, de qualquer maneira, pouco há que se possa fazer.

Passo ao livro de poemas: A Ted Hughes Bestiary. É um livro muito interessante, e a unidade temática favorece sem dúvida a poesia singular de Ted Hughes. A ideia de organizar uma antologia em torno da tradição dos bestiários medievais é invulgar o suficiente para chamar de imediato a atenção, e é curioso, como faz notar Alice Oswald no prefácio, que apesar desta característica, e ao contrário da tradição dos antigos bestiários, as várias descrições que os poemas propõem não parecem desenhar os animais com traços humanos mas antes, de uma forma um pouco uncanny, quase fazem o reverso.

Apesar dos vários méritos que podem ser atribuídos a esta antologia, e acho que é de facto meritória, gostava de comentar algo que me fez, ao longo da leitura, particular espécie. A antologista mantém que “Like a bestiary, this book is a herd of both outward and inward animals, but, unlike a bestiary, there is nothing moralizing about its vision” (p. XIV). Deixando de parte a sugestão de que, a haver algo de ‘moralizador’, o resultado seria um mau livro de poemas (sugestão, aliás, para a qual não se oferece qualquer tipo de justificação), parece-me especialmente dúbio que esta descrição seja apropriada. “The Hawk in the Rain” será um bom caso de teste, quanto mais não seja porque neste poema consigo mais facilmente identificar o ponto em que mais discordo com a afirmação de Alice Oswald. (Entenda-se, contudo, que a minha convicção é a de que a tendência que vou comentar de seguida é partilhada por mais poemas nesta antologia, embora na maioria dos casos sinta uma obscuridade de difícil trato que torna uma exposição mais demorada e maçadora, e por isso de evitar por agora.)

O poema abre com um contraste entre o movimento de um homem, que é lento, lamacento, enterrado até ao tornozelo no lodaçal, com o movimento de uma ave, o falcão, que não parece requerer qualquer género de esforço. Este contraste é levado a um extremo, pois a lentidão que caracteriza o movimento do homem não se deve meramente a atrito: o homem é como que sugado por um mundo ameaçador, que o pode devorar (“I drag up/Heel after heel from the swallowing of the earth’s mouth”). O falcão, por outro lado, é como um ponto de absoluta quietude por entre a violência e o rebuliço do mundo; as suas asas “hold all creation in a weightless quiet”; na terceira estrofe é descrito como “The diamond point of will that polestars/The sea drowner’s endurance”. Estes versos apresentam um falcão cuja singularidade funciona como o poder de uma divindade, segurando o eixo da criação, a sua força de vontade de tal maneira superior ao mundo que é capaz de o furar como a ponta de um diamante, isto é, capaz de permanecer fora do mundo e parte do mundo simultaneamente. Esta ave magnífica é “steady as a hallucination”, uma visão intermitente, no sentido em que algo próprio de si mesma está além dos confins do universo; é no entanto segura, como um único ponto em que o movimento cessa, uma presença divina como a aparição de Jesus aos seus discípulos durante a viagem para Emaús. O falcão é uma visão dada a um náufrago, como um dote dos deuses, consagrando-lhe a resiliência necessária para salvar a vida, para escapar à violência opressiva de um mar agreste que parece apenas existir para destruir e consumir os vários seres vivos que nele habitam ou que por ele passam.

A condição do homem parece deteriorar-se nas duas últimas estrofes. Nestas o homem está ensanguentado, já sobre a boca faminta da terra, mas esforçando-se ainda na direcção do ‘mestre’, agora descrito como algo ameaçador, “Fulcrum of violence”, possivelmente porque o poder de destruição e o apetite de violência, o instinto predador da divindade, podem ser tão ameaçadores quanto o que neste poema é imputado ao mundo. A última estrofe descreve como seria o movimento descendente do falcão que, não posso deixar de notar, é simultaneamente um movimento de aproximação ao homem. O resultado é aterrador; o falcão é feito, tal como o homem, uma presa do mundo, esmagado o seu olho, o seu sangue misturado com o lodo da terra. E, no entanto, apesar desta violência extrema, o estatuto divino da ave de rapina permanece; em vez de o falcão se despenhar contra a terra, é o oposto que se passa, e a terra choca contra o falcão (“the ponderou shires crash on him”).

Ora, o movimento descendente do falcão, a par com as descrições deste como segurando o eixo da criação, como uma ‘alucinação firme’, a ponta de diamante capaz de furar o mundo e, deste modo, capaz de o superar ou de o transcender, fazem deste animal uma imagem de Jesus Cristo, que, observando a contrariedade e a violência que caracteriza a vida dos homens, desce, faz-se também homem, para se sacrificar na cruz (o que, por sua vez, dá a impressão de que o destino final do falcão no poema é, também, ou fundamentalmente, um castigo imposto porque este animal, capaz de se elevar acima do mundo comum, decidiu descer até um pouso mais humano). Desta aproximação resulta um elemento muito estranho na descrição que o poema faz do mundo, e parece-me um exagero prematuro manter que o universo é um predador hostil pronto para devorar todas as suas criaturas. Considerando que na segunda estrofe há uma referência a “all creation”, é necessário perguntar ‘mas que raio de mundo é este, afinal? E que Deus poderia ser cruel o suficiente para criar um mundo cujo único propósito aparente é o de rebaixar e consumir todos aqueles que o habitam?’ Como afirmou o crítico inglês William Empson, numa recensão de 1964: “The world is equally good whether made by a personal God or not”; “the world is glorious beyond all telling, and far too good for any of us”. Esta parece-me, de facto, uma posição mais sensata, e demasiado pessimismo nem sempre fica bem a um poeta.

Enquanto Alice Oswald defende que este bestiário nada tem de moralizador, o caso não parece ser assim tão certo. Talvez, em vez de se preocupar com afirmar a ausência de uma atitude moralizadora, fosse mais útil que a antologista desse alguma informação sobre as posições religiosas de Ted Hughes, de forma a facilitar o contacto com o que há de mais obscuro nestes poemas, mesmo que fosse numa discreta nota de rodapé. Acusar o mundo de uma crueldade insaciável que destrói tanto homens como divindades é precisamente o contrário de um bestiário que ‘nada tem de moralizador’. “The Hawk in the Rain”, à primeira vista, até poderá parecer um poema extirpado de qualquer moral, ao jeito da teoria evolucionista de Darwin, mas uma leitura atenta eventualmente fará notar que não é.

 

William Empson. 1988. Argufying. Ed. John Haffenden. Londres: Hogarth Press, p. 615.