Pedro Tiago Ferreira

Em Os Livros de Fernando Pessoa, Pedro Sepúlveda defende a tese de que "nos fundamentos da obra de Pessoa [há] um pensamento de índole editorial que os determina" (p. 18). Este mesmo pensamento concretiza-se de duas formas. Por um lado, através da utilização de nomes de autor, que "funcionavam como categoriais editoriais, definidoras e delimitadoras das obras e dos livros projectados" (p. 331). Por outro, através da abordagem ao problema "da concepção do livro, entendido como suporte ao qual Pessoa sempre associou a ideia de um todo orgânico que seria a expressão de uma obra no seu estado de completude", e que funcionaria como "ideal condutor, que corresponderia à apresentação de uma obra liberta do seu carácter lacunar, imperfeito ou fragmentário" (p. 40). 

Resulta do argumento de Sepúlveda que estas duas formas de concretização do pensamento editorial são, em Pessoa, indissociáveis uma da outra. Tal pode ser demonstrado, por exemplo, a partir de uma discussão encetada com Teresa Rita Lopes; segundo Sepúlveda, a autora, ao sublinhar a importância que a atribuição dos textos a heterónimos tem na organização da obra por parte de Pessoa, chega à conclusão de que essa mesma atribuição constitui o "traço distintivo" da ideia que Pessoa fazia de "livro". Contudo, para Sepúlveda, considerar o "aparecimento" dos heterónimos como traço distintivo da ideia pessoana de "livro" impede que se inclua, nessa ideia, a obra na sua totalidade. Para justificar esta asserção, Sepúlveda realça que muito antes da criação de quaisquer heterónimos Pessoa já elaborava projectos editoriais da obra no seu conjunto, atribuindo porções da mesma a vários nomes de autor e de editor; ora, estes "autores" e "editores" não são necessariamente "heterónimos", vocábulo cuja definição, retirada de Domingos Vieira, "que Pessoa provavelmente conheceria, é a de um adjectivo que caracteriza obras, assim como autores: ‘Obra heteronyma; obra publicada debaixo do nome verdadeiro de um outro. | - Auctor heteronymo; auctor que publica um livro sob o nome veridico de uma outra pessoa’" (pp. 49-50). Assim, a "ideia de livro" implica a "atribuição de vários livros a múltiplos nomes de autores e editores [, o que] torna manifesta a posição formal destes nomes enquanto categorias estruturantes do livro e da obra no seu conjunto" (p. 158).

O primeiro capítulo  (pp. 67-155) do livro de Sepúlveda é dedicado, precisamente, à demonstração de que a atribuição, por parte de Pessoa, de nomes de autor a obras futuras ou em desenvolvimento através da elaboração de listas editoriais foi feita praticamente desde o início da sua obra, tendo continuado até ao final. Sepúlveda analisa, assim, os primeiros "projectos e planos editoriais", dando especial relevo a "Books to come" e "The Transformation Book or Book of Tasks", e mencionando igualmente Íbis, a tipografia e editora de que Pessoa era proprietário, mas que não chegou a editar qualquer livro. Posteriormente, Sepúlveda centra a sua análise em duas obras pessoanas tidas como fundamentais: o Livro do Desassossego e "a obra atribuída a Alberto Caeiro". A segunda parte do primeiro capítulo versa sobre projectos editoriais que têm como objecto estas mesmas obras, datados do período entre 1913 e 1924, ao passo que a terceira e última parte do primeiro capítulo incide sobre projectos editoriais relativos às obras acima mencionadas, sendo a de Caeiro analisada no âmbito da recepção da Presença, no período entre 1928 e 1935.   

No segundo capítulo (pp. 157-244), Sepúlveda desenvolve a noção pessoana de "livro", que passa por associar "desde muito cedo ao livro uma ideia de totalidade, tanto no que respeita à completude de um texto como enquanto expressão total de determinada concepção, na qual está ainda implícita uma relação com o projectado todo constituído pelo conjunto da obra" (p. 157). Parte deste "conjunto da obra" seria composto pelos "livros de outros", isto é, "pelos livros de poemas de Caeiro, Reis e Campos, e de prosa escrita sob os nomes de António Mora e Vicente Guedes", segundo o referido "no conjunto de textos que constituem esboços do prefácio à projectada publicação da obra intitulado Aspectos, escritos na segunda metade da década de 10" (p. 177). De facto, estes nomes, a que por vezes Pessoa chama "personalidades", "pertencem ao domínio literário, não se situando fora do próprio livro do qual seriam autores", sendo, portanto, "naturalmente inseparáveis da realidade do livro" (p. 182). O tema de uma "ideia de livro que depende precisamente do seu elo com o autor ficcional, de que é expressão, não se tratando, em última instância, de duas realidades independentes" (p. 182), sustenta toda a argumentação do segundo capítulo, que termina com a análise das "Tábuas Bibliográficas" de Pessoa, sendo complementado, no terceiro e último capítulo (pp. 245-329), com a ideia de que Pessoa não cultivou "uma estética do fragmento ou uma noção de obra que se pudesse articular com a fragmentariedade" (p. 58). Paradigmática em relação a todo o argumento de Sepúlveda ao longo do livro, a obra atribuída a Caeiro acaba por funcionar como estudo de caso com o intuito de se demonstrar que o "reconhecimento [por parte de Pessoa] de uma incompletude formal e material da obra é acompanhado por reflexões em torno das possibilidades e dos limites da linguagem, tanto nos próprios poemas como em textos que os têm como referência e onde transparece a diferença entre um Caeiro ideal e a sua concretização ao nível do texto" (pp. 255-6).

Assim, "o carácter fragmentário de alguns dos textos ou da obra na sua globalidade não [é] o resultado de um desejo mas a consequência de uma falha em relação a um ideal" (pp. 275-6), falha essa relacionada, em parte, com a impossibilidade de transmitir, para o papel, um todo orgânico sem lacunas, dado que, segundo Sepúlveda, Pessoa almejava construir um "elo entre o livro e a personalidade do seu autor, defendendo precisamente que um livro só teria legitimidade na medida em que é expressão dessa personalidade" (pp. 234-5), razão pela qual seria necessário, de forma a publicar Caeiro (ou qualquer outro nome de autor), segundo palavras do próprio Pessoa, referindo-se aos Poemas Inconjunctos, realizar "uma revisão de outra ordem, já não só verbal mas psychologica" (p. 322), de forma a adequar o conteúdo à psicologia do nome de autor "Alberto Caeiro". Logo, "[a]o projectar este ideal, Pessoa procurava a perfeição de um todo que rejeitasse a lacuna, o fragmento, assim como traços que permanecessem na obra enquanto vestígios do seu processo de construção. No entanto, tornou a impossibilidade de concretização deste ideal num dos temas fundamentais da própria obra e legou-nos um conjunto de textos que demonstram de forma ímpar o seu logro" (p. 278), na medida em que muitos dos textos que formam o referido conjunto ficaram inacabados.

Em suma, a tese de Os livros de Fernando Pessoa sugere que o facto de Pessoa ter morrido relativamente jovem não é a única explicação para a incompletude da sua obra. Pessoa, acima de tudo, media-se contra um ideal por vezes tido pelo próprio como inalcançável, o que o levava a considerar todas as obras, inclusive as publicadas, como estando em construção, e não definitivamente acabadas. Não será, portanto, descabido especular que a obra de Pessoa teria um carácter incompleto mesmo que o seu autor tivesse vivido mais quarenta anos.

Este ensaio de Sepúlveda contribui para aprofundar uma ideia avançada por Eduardo Lourenço, a saber, a de que "a heteronímia não se distingue da pseudonímia como o mais do menos. Há entre elas uma diferença de estatuto, por conseguinte, de significação. O autor não esconde um mesmo texto sob nomes diferentes: ele é vários autores apenas e na medida em que é vários textos, isto é, textos que exigem vários autores" (Lourenço, 25: 2000). Assim, segundo Lourenço, no âmbito da heteronímia há uma identificação entre "texto" e "autor" que sugere que "heterónimo" e "título" (de um determinado texto) são indistintamente usados por Pessoa para designar um dado escrito, na medida em que a cada escrito corresponde um heterónimo dotado das especificidades psicológicas próprias geralmente reconhecidas pela crítica pessoana. O trabalho de Sepúlveda tem o mérito de estender esta ideia de "pessoa-livro", ou de "autor-livro", a toda a obra pessoana. Com efeito, Sepúlveda demonstra que o pensamento de Pessoa acerca da organização da sua obra, a sua ideia de "livro", dependia mais de projectos editoriais onde figuravam nomes de autores e editores, independentemente de os mesmos serem, ou não, "heterónimos", do que de uma divisão estanque da obra entre heterónimos e ortónimo. O grande contributo que esta tese faz para os estudos pessoanos é, por conseguinte, o de chamar a atenção para o facto de que é preciso repensar o debate acerca da heteronímia pessoana, visto que a função dos heterónimos parece ir muito mais além da sua participação no "jogo de máscaras" e no "drama em gente".

 

Referências:

Eduardo Lourenço.  2000. Pessoa Revisitado. 3.ª ed. Lisboa: Gradiva.