Tiago Patrício

Comecemos pelo título. Apesar de não ser muito comum o uso de advérbios, a sua presença promete ao leitor entrar imediatamente numa história em andamento. O título deste conjunto de onze contos parece assim anunciar retratos de personagens, quase todas femininas, entre a exaltação e o desfalecimento (com todas as variações possíveis entre estes dois estados), construídos pela autora ao longo de cada uma das narrativas.

Quanto à autoria, sabemos que o nome Teresa Veiga corresponde a um pseudónimo escolhido pela escritora em 1980, quando tinha 35 anos e editou o seu primeiro livro de contos Jacobo e Outras Histórias (Cotovia). Mas Teresa Veiga parece mais um nome das fortes personagens femininas que a autora tem criado do que um artifício de encobrimento para granjear créditos no meio literário. Apesar de ter vencido por duas vezes o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, com a História da Bela Fria (1992) e Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomín (2008), o recurso a este pseudónimo parece servir o propósito de marcar uma separação entre a biografia da autora e os vários livros que tem publicado.

 Ultrapassando estas questões exteriores e fazendo apenas uma breve referência à capa e à elegante composição a que a editora (Tinta-da-China) nos tem habituado, cabe-me recomeçar pelo primeiro conto, intitulado “Objector de Consciência”.

Normalmente, a leitura de livros provoca pelo menos um de três efeitos genéricos: o esmagamento pela força e monumentalidade, o fastio por vários motivos possíveis, ou o desejo impaciente de tomar notas para imitar o tom e afinar o instrumento da escrita. Os primeiros parágrafos deste conto causaram-me uma ansiedade que coincide com a terceira categoria. Talvez porque o texto começa com uma descrição que podia corresponder a um programa literário, ou porque parece convidar um grupo de amigos para um jogo e depois explica as regras, as excepções e dá exemplos, sem darmos por isso, já estamos a fazer apostas altas:

“A mãe deve ser apresentada como uma mulher de ideias avançadas para o meio, muito elegante e excêntrica ou então de temperamento melancólico e com tendência para a depressão. Pode chamar-se Ester ou Cibele ou Eunice ou Dinora e um destes nomes será atribuído à filha, de dezasseis anos, que terá um papel bastante secundário, talvez meramente referencial.”

As personagens são estas, mas podiam ser outras e tudo o que lhes acontecer será da responsabilidade da autora, mesmo que resulte de percepções erradas, de memórias fabricadas, de leituras em segunda mão ou de uma mudança de planos.

Cada um dos contos apresenta as suas metáforas elegantes e os seus aforismos, mesmo que a autora não pareça interessada em definir o que é isto ou aquilo, mas pretenda apenas mostrar o que se pode fazer quando se escreve e quando se lê:

 “Na verdade os caracóis dourados de Manuela, como por inveja de uma fada má disfarçada de cabeleireira medíocre, tinham-se transformado num cabelo liso e sem viço que lhe dava perpetuamente o ar de uma afogada enrolada numa liana.” (p. 66)

“A pobreza dispensa muitas formalidades e torna-nos aptos para apreciar as coisas simples da vida.” (p. 88)

 “Quando à noite tomava o autocarro desconfiava dos calados, dos ansiosos, dos que tratavam com falsa deferência uma senhora.” (p. 76)

 “Parecendo que não, a mediania é um dos objectivos mais árduos de atingir…” (p. 137)

A ironia que perpassa em quase todos os textos nunca é gratuita, como no primeiro conto, em que um menino é sujeito à visão de uma criadora de frangos que se suicidou por autodegolação (p. 17) e que, algumas páginas adiante e vinte anos mais tarde, acaba casado com uma mulher especialista em alimentação de frangos. O que parece jocoso e vulgar torna-se virtuoso por via do conflito que a mãe desse rapaz sente ao perceber que o filho ama uma mulher sem qualidades e que não é amado, o que pode ser assumido como uma afronta ao seu papel de mãe.

Teresa Veiga leva-nos quase sempre no encalço de uma mulher cativa de algum tipo de constrição (familiar, moral, económica, fisiológica) ou mesmo sob cativeiro efectivo (mas que tende a contrariar as apostas iniciais do leitor) e é exímia a lidar com os condicionalismos inerentes ao conto como género literário. Nestas onze narrativas, cria jogos de profundidade em que envelopes com outras histórias multiplicam o efeito de representação entre quem conta e quem é contado, acrescentando elementos de dúvida e estranheza de forma propositada. Há momentos extraordinários, como no conto “Natacha”, em que Teresa Veiga nos confronta com as meditações de uma personagem sobre o fenómeno da temporalidade:

 “Eu saboreava tudo tão devagar que distinguia claramente tempos diferentes onde uma mente apressada não vê senão um. Havia o momento em que as pessoas subiam a rua, ainda fora do meu alcance, o momento em que passavam e depois a impressão que perdurava na retina e no cérebro e que não coincidia com o desaparecer.” (p. 117)

Apesar de a literatura não ser um exercício de virtuosismo semelhante à imitação de diferentes caligrafias, por vezes parece que as passagens do conto dentro do conto ao tom inicial da narrativa ocorrem de modo um pouco abrupto, sem que se note a diferença na prosa, na qualidade das frases e no próprio léxico, como na repetição do substantivo frenesim nos textos atribuídos ao narrador inicial e à narradora “estagiária” (p. 120 e p. 125) do conto “Natacha”.

A arquitectura dos contos é simples, mas extremamente eficaz e por vezes compulsiva, revelando uma escritora meticulosa e com um modo de pensar que queremos seguir, sobretudo nos contos que escapam a uma temporalidade definida ou cujas convenções se situam algures entre os anos 50 e 70, em ambientes (aparentemente) cosmopolitas ou em cidades de província, como em “Negra Sombra que me Assombras”, que faz parte do último trio de falsos contos (libertino, gótico e policial). Estes três contos parecem um exercício sob influência das Seis Falsas Novelas (Antígona, 2002) do escritor espanhol Ramón Gómez de la Serna (1888-1963), mas com uma extravagância que não é levada aos limites, ao contrário do que se verifica noutros contos desta antologia de Teresa Veiga.

“A Casa Abandonada” (p. 129) é um desses exemplos e um dos textos mais fortes do conjunto, especialmente porque abre com uma voz semelhante à de uma personagem que sobe ao palco e quer conquistar de imediato os espectadores com a sua erudição e os seus conhecimentos de metáforas literárias. Esta voz anuncia que as suas ouvintes são meninas órfãs, como se colocasse o leitor na posição intermédia entre o que é dito e a audiência. Trata-se mais uma vez de uma personagem feminina, talvez de meia-idade, que manipula a biografia de várias personagens a fim de lhes apontar os tiques, as deformidades e as hipóteses e os riscos de se tornarem numa coisa ou noutra ou em coisa nenhuma. Todo o conto é uma demonstração de destreza de composição, como se tivesse sido composto por um rapsodo habituado a alinhar argumentos e a invertê-los para manter vivo o discurso, baixando e subindo a intensidade, entrando em digressões para regressar ao assunto principal com mais balanço. É um texto quase pronto para levar à cena e que termina como se a personagem estivesse satisfeita consigo própria e com os efeitos provocados na assistência, retirando-se com a mesma ameaça com que havia começado, a terrível e horrível “dor de cabeça” (p. 129 e p. 155), de modo a permanecer nos limites desse círculo perfeito de compressão e descompressão de um discurso que cabe ao leitor desdobrar por si próprio. No entanto, depois de lermos e relermos estes contos, ficamos com a noção clara de que a leitura não se deve confundir com a vida, sob pena de as personagens (e os leitores) ficarem irremediavelmente sujeitos aos “poderes letais da literatura…” (p. 231).