Pedro Tiago Ferreira

Em La mediación editorial, Jerónimo Pizarro fala da edição póstuma da obra de Fernando Pessoa (capítulo I, pp. 29-92), da edição igualmente póstuma de Macedonio Fernández (capítulo II, pp. 93-144), das edições críticas da “Colección Archivos” (capítulo III, pp. 145-194) e da forma como os filólogos devem lidar com aquilo que, em crítica textual, se denomina por “originais” (capítulo IV, pp. 195-248), com o intuito de defender a seguinte tese, expressamente formulada no prólogo (pp. 9-27) do seu ensaio:

Del acto privado de la escritura al texto público, como objeto de circulación y consumo cultural, hay un proceso de mediación que hace posible el libro, que constituye al “escritor” en “autor”, que inserta la obra en el espacio de una literatura. Dado que un editor es un agente característicamente póstumo (…), hemos considerado pertinente ver la mediación editorial desde la perspectiva de la posteridad, tiempo futuro en el cual esa intervención tiende a ser más crucial y aprehensible, pues se trata de una serie de actos que se sitúan en la frontera entre el momento de la escritura y el de publicación propiamente dicho. (p. 11)

Todas as observações, admoestações e argumentos efectuados ao longo deste livro desenvolvem as ideias avançadas nesta citação, que são as seguintes.

  1. Há um processo, a que Pizarro chama “mediação editorial”, que acompanha o texto desde a sua redacção, que é um acto privado, até à sua publicação, que confere ao texto o carácter de “público”.

  2. Este processo é constitutivo da mudança de estatuto de “escritor” para “autor”.

  3. A mediação editorial está a cargo de um agente caracteristicamente póstumo, o editor.

 “Mediação editorial” afigura-se, por conseguinte, como o conceito-chave deste estudo. Pizarro define o mesmo da seguinte forma:

Nos ha parecido que la mejor manera de resaltar la necesidad de leer con suspicacia y examen crítico no sólo los textos tal y como ellos fueron publicados, sino las ediciones que permitieron su circulación en forma impresa, era poner de relieve algunas notables instancias de ese proceso de mediación, que, con un sentido diferente, hemos vuelto a llamar “mediación editorial”, es decir, la intervención de un editor (editor), más que de una editorial (publisher), en la producción de un determinado texto y una obra. (p. 10)

Esta definição da expressão “mediação editorial” suscita duas perplexidades: em primeiro lugar, a parte da definição em que se postula que a mediação editorial consiste em tornar público aquilo que outrora era privado é, prima facie, falsa, uma vez que parece excluir edições póstumas de textos publicados em vida do autor, bem como edições subsequentes, da responsabilidade de editores diferentes, de uma primeira edição póstuma. Em segundo lugar, a divisão que é feita entre “escritor” e “autor” pode ser considerada, à primeira vista, uma distinção sem qualquer diferença. A forma como Pizarro resolve estas duas dificuldades é digna de nota, razão pela qual nos ocuparemos deste assunto até ao final desta recensão.

Em relação à primeira perplexidade, a mesma é imediatamente eliminada assim que o argumento de Pizarro começa a ser desenvolvido. Ao longo do capítulo I, que procura responder à pergunta “o que é uma obra?”, Pizarro começa por notar que uma obra é uma coisa incerta (p. 29), realçando que é muito difícil delimitar o momento preciso em que os disjecta membra de que Carlyle fala e a que Pessoa alude se transformam em obras (p. 30). Resulta, no entanto, do argumento de Pizarro que, pelo menos no caso de textos inéditos aquando da morte do escritor, a intervenção do editor é condição necessária da constituição da obra. Ao analisar aquilo a que as editoras Ática e INCM chamam “obras completas de Pessoa”, e a que a Assírio & Alvim chama somente “obras de Pessoa”, Pizarro questiona a adequação de se designar como “obras de Pessoa” livros, volumes, ou algo análogo, simplesmente porque o nome de Pessoa figura na capa, ainda que a estrutura interna da obra dependa mais das opções do editor do que das de Pessoa (p. 40). A questão é levantada não tanto com o intuito de se alcançar uma resposta cabal, mas sim para chamar a atenção para o facto de que aquilo que, por convenção, é designado por “obras” é de extensão variável e de mobilidade contínua (pp. 74-92). Algumas ilações podem ser retiradas destas observações, das quais gostaríamos de destacar duas: por um lado, o que quer que se denomine por “obra” não é estanque e invariável, e, por outro lado, não há obra sem a intervenção do editor.

Ao demonstrar que uma obra não fica automaticamente “fechada” ou “completa” devido à intervenção de um determinado editor, Pizarro elimina a primeira perplexidade por nós identificada da seguinte maneira: cada editor começa o seu trabalho a partir da estaca zero. Isto não significa que ignore as edições de uma hipotética obra que sejam anteriores à sua; significa somente que todos os editores analisam aquilo que era privado, e que consiste em testemunhos, alguns originais, outros cópias, que podem ser manuscritos ou dactiloscritos, e, a partir daí, constroem a obra, ou seja, publicam determinadas partes que, antes do começo do trabalho de edição, eram privadas. A consulta e o diálogo estabelecido com edições anteriores da mesma obra fazem parte do processo de mediação editorial; este processo, contudo, consiste em revelar certos aspectos do privado, tornando-os públicos. Isto significa, por exemplo, que Livro do Desasocego, edição de Pizarro, leva a público aspectos diferentes daqueles que são levados a público por Livro do Desassossego, edição de Richard Zenith. Ambas as edições constituem duas obras diferentes porque são independentes, no sentido em que uma poderia existir mesmo que a outra nunca tivesse sido criada, dado que têm uma lógica de organização e edição próprias. A definição que Pizarro dá de “mediação editorial” não é falsa porque a edição de Livro do Desasocego não incide sobre aspectos tornados públicos pela edição de Livro do Desassossego. Certos aspectos coincidem e, por isso, são tornados públicos em ambas as edições. O argumento, contudo, é somente o de que a nova edição publica aquilo que antes era privado independentemente de edições anteriores o terem, ou não, feito. Estamos em crer que é precisamente para realçar isto que Pizarro analisa tão detalhadamente o trabalho encetado por editores pessoanos em editoras diferentes. Cada editor efectua a sua mediação editorial, que pode, sem dúvida, vir a influenciar mediações futuras, mas cada mediação é logicamente independente das outras, visto que se estrutura através de critérios próprios, o que se reflecte, necessariamente, nas escolhas distintas que editores diferentes efectuam acerca do que tornar público.

Quanto à segunda perplexidade, a mesma é desfeita pela argumentação do capítulo II. A distinção estabelecida por Pizarro é entre quem meramente escreve (escritor) e quem vê a sua obra inserida no espaço de uma literatura (autor), como se pode constatar através da leitura da definição de “mediação editorial”. Dito por outras palavras, o mero acto de escrita é condição necessária, mas não suficiente para se adquirir o estatuto de autor. O capítulo II é uma resenha de várias posições filosóficas acerca da definição e significado do termo “autor” que é sucintamente resumida no final desse mesmo capítulo (p. 136-7). Note-se que, entre as acepções de “autor”, Pizarro menciona não só as puramente filosóficas, mas também as científicas, as técnicas, as teatrais, as jurídicas, as genealógicas e as fundacionais (p. 137). Assim, por ser muito mais do que um indivíduo que escreve, o autor não pode ser simplesmente equiparado ao escritor. O autor literário ocupa determinado espaço numa literatura. O que a definição de mediação editorial nos diz é que a obtenção deste mesmo espaço distingue o autor do escritor, e, no caso da autoria póstuma, o estatuto de “autor” é atribuído pelo editor, que, através do seu trabalho, torna público o que era privado. Sem a publicação, sem a inserção do texto numa literatura, que efectivamente o transforma em obra, o escritor não passa a ser autor.

A principal contribuição de La mediación editorial para a crítica textual em geral, mas também para os estudos pessoanos em particular, visto que um capítulo deste livro é dedicado especificamente à edição da obra de Pessoa, não é principalmente metodológica, i.e. não se preocupa primordialmente em prescrever como editar (Pessoa Existe?, do mesmo autor, que pode ser visto como uma obra complementar a La mediación, cumpre essa função prescritiva em muito maior medida), é, sim, chamar a atenção para o facto de o trabalho do editor nunca estar totalmente concluído. Há um momento temporal, que coincide com o fecho da edição e a respectiva publicação, em que as descobertas (aquilo que era privado e passou a ser público) são fixadas, mas as mesmas não têm um carácter irrevogável. Isto dito, tal não significa que as questões metodológicas sejam descuradas em La mediación editorial; em todo o caso, no nosso entender, Pizarro preocupa-se mais em tecer uma reflexão filosófica acerca do que se faz em filologia do que em tomar partido acerca de querelas concretas da crítica textual, tópico com uma longa tradição, que vai, pelo menos, desde Lachmann, passando por nomes ilustres como os de Bédier, Bowers ou McGann, autores que também se debruçaram sobre questões filosóficas pertinentes para a crítica textual, estando igualmente preocupados em avançar posições próprias acerca de como editar textos, tanto no âmbito da chamada crítica textual “tradicional” como da “moderna”. Pizarro opta, em La mediación, por uma visão dialéctica de conjunto, promovendo a discussão sem, contudo, deixar de avançar a sua própria tese acerca do que é editar um texto (especialmente a partir de uma perspectiva póstuma), tese essa que pode, em grande medida, ser vista como uma síntese de algumas ideias mais antigas acerca do que é uma obra, um autor e uma edição.